Guilherme Ribeiro transforma memórias do interior em música instrumental

Em conversa no Francamente, músico, arranjador e acordeonista fala sobre trajetória, acordeon, música popular e o lançamento do EP Bodoque Requer Traquejo.

A música de Guilherme Ribeiro parece nascer de um ponto de encontro: entre o conservatório e a rua, entre o piano e o acordeon, entre a música popular brasileira e as memórias de uma infância no interior paulista. Músico, arranjador, compositor, pianista e acordeonista, ele esteve no Francamente, em conversa com Tainan Franco, para falar de sua trajetória e do lançamento do EP Bodoque Requer Traquejo.

Filho de músico, Guilherme cresceu em Agudos, no interior de São Paulo, em uma casa onde instrumentos, partituras e repertórios faziam parte do cotidiano. O pai, músico de baile e pianista, foi uma presença decisiva nessa formação. O primeiro caminho veio pelo conservatório, pelo piano e pela música erudita; depois, na Unicamp, a música popular passou a ocupar um lugar cada vez mais central.

Foi nesse processo que o acordeon entrou de vez em sua vida. Embora o instrumento já estivesse presente na memória familiar, ele só se tornou parte de sua identidade musical mais tarde, durante a vivência universitária e a participação em grupos de música popular.

A música instrumental como conversa

Na entrevista, Guilherme fala da música instrumental sem tratá-la como algo distante ou reservado a especialistas. Para ele, há uma dimensão emocional no som que independe da letra. A escuta pode chegar pela melodia, pelo timbre, pelo gesto, pela presença do instrumento.

Esse ponto é importante porque ajuda a desfazer uma ideia comum: a de que música instrumental seria “música para músico”. Guilherme lembra que muitas pessoas se emocionam com esse repertório mesmo sem conhecer teoria musical ou sem ter familiaridade com o gênero. A diferença, muitas vezes, está em ser apresentado a esse universo.

Talvez por isso ele também dê tanta importância às histórias por trás das composições. Ao contar de onde vem um título, uma expressão ou uma imagem, o músico abre uma porta de entrada para o público. A música segue sem letra, mas ganha contexto, afeto e paisagem.

Bodoque Requer Traquejo

O novo EP, Bodoque Requer Traquejo, nasce justamente desse encontro entre música e memória. Beneficiado pela PNAB de Jundiaí, o projeto reúne cinco faixas instrumentais compostas especialmente para o disco, tendo o acordeon solo como centro.

Guilherme define o trabalho como um conjunto de “canções interioranas”. A ideia era revisitar um universo ligado ao interior, às expressões familiares, aos sons de infância e a uma musicalidade que atravessa forró paulista, polca, choro e baião.

O título já carrega esse espírito. “Bodoque” vem da forma como se fala “estilingue” em Agudos, palavra que puxa uma memória local, afetiva e linguística. Ao longo do EP, outros nomes seguem essa lógica de colecionar expressões e pequenas histórias: “Cois qui esse?”, “Borocoxôxo“, “Assim, de Chofre!” e “Viravento” aparecem na conversa como exemplos de um repertório que nasce também da língua falada, da vida doméstica e das invenções do cotidiano.

Esses títulos ajudam a construir uma escuta — antes mesmo de ouvir a faixa, o público já entra em contato com um universo: uma palavra de casa, uma expressão antiga, uma frase dita sem querer, uma lembrança transformada em música.

Entre técnica, processo e escuta

Ao falar de composição, Guilherme mostra um artista atento ao processo. Algumas ideias vêm da “gaveta”, aquela pasta onde ficam fragmentos, gravações e intuições ainda sem forma definida. Outras nascem sob pressão, a partir de um projeto, de um desafio ou de uma entrega concreta.

Essa relação com a composição também aparece em sua vida como professor. Guilherme conta que leva ideias para a sala de aula, testa materiais com alunos e usa esse espaço como laboratório de escuta. O ensino, nesse sentido, não fica separado da criação: um alimenta o outro.

Na trajetória do músico, também há discos autorais, trabalhos como arranjador, projetos com cantores, participações internacionais e passagens por festivais no Canadá, Estados Unidos, França, Bélgica, África do Sul e Itália. Mas o que parece atravessar tudo isso é a busca por dar unidade a cada projeto, como uma fotografia de determinado momento artístico.

Uma fotografia de 2026

Bodoque Requer Traquejo aparece, então, como a fotografia de um Guilherme Ribeiro em 2026: um músico maduro, com ampla experiência de palco, estúdio e sala de aula, olhando novamente para o interior, para o acordeon e para as palavras que formaram sua escuta.

É um trabalho que não tenta separar técnica e afeto. Ao contrário: junta composição, memória, instrumento e linguagem para lembrar que a música instrumental também conta histórias — às vezes sem dizer uma palavra.

Assista à entrevista no Youtube:

Siga pelo Portal MOV8 para conhecer outras histórias, conversas e ideias que movimentam a cultura.