Em conversa no Francamente, ator, diretor e dramaturgo fala sobre trajetória, Teatro Oficina, “Meu Nome, Mamãe” e o podcast Perdigoto.
Há artistas que falam de teatro como profissão. Outros falam como quem fala de uma forma de existir. Aury Porto parece estar mais perto desse segundo grupo. Ator, diretor, dramaturgo e ativista cultural, ele esteve no Francamente, em conversa com Tainan Franco, para revisitar uma trajetória marcada por deslocamentos, encontros, processos coletivos e uma relação profunda com a memória.
Nascido no Ceará, Aury conta que o teatro apareceu cedo, embora não fosse um caminho óbvio em sua família. Vindo de um ambiente ligado à roça, à terra e aos animais, ele reconhece hoje pequenas sementes artísticas espalhadas pela própria história familiar: o avô que sabia longos poemas de cor, a memória dos “dramas” encenados por mulheres no sertão, o gosto pela novidade herdado do pai. Antes de virar profissão, a arte já estava ali como modo de narrar, cantar, e olhar o mundo.
A chegada a São Paulo, em 1987, foi decisiva. Aury diz ter sentido que a cidade era sua casa. Em pouco tempo, encontrou sua geração teatral, participou de montagens importantes e passou a construir uma carreira atravessada por experiências coletivas. Mais tarde, com a Mundana Companhia, criada ao lado de Luah Guimarãez, consolidou uma forma de trabalho aberta, horizontal e mutável, capaz de se reorganizar a partir de cada projeto.
Um dos momentos mais marcantes da conversa é a lembrança do Teatro Oficina e da montagem de Os Sertões, de Euclides da Cunha. Aury conta que a ideia de montar a obra no Oficina passou por ele e chegou a Zé Celso, iniciando um processo que se estendeu por anos e resultou em cinco espetáculos: A Terra, O Homem I, O Homem II, A Luta I e A Luta II. Ao todo, foram cerca de 25 horas de teatro – uma travessia artística, física e política.
Mas o centro mais sensível da entrevista está em Meu Nome, Mamãe, espetáculo em que Aury leva ao palco sua relação com a mãe, que vive com Alzheimer há muitos anos. Ele conta que, durante muito tempo, resistiu à ideia de transformar essa experiência em cena. Era preciso encontrar o ponto em que uma história íntima pudesse se comunicar com outras pessoas, sem virar apenas exposição privada.
Esse ponto apareceu quando a peça passou a dialogar com uma questão coletiva: o envelhecimento da sociedade brasileira. A partir daí, a relação entre mãe e filho se tornou também uma reflexão sobre cuidado, memória, velhice, linguagem e presença.
A dramaturgia de Meu Nome, Mamãe nasce da autoficção. Os fatos são reais, mas a cena reorganiza acontecimentos, desloca tempos e cria uma estrutura mais próxima da forma como a memória se comporta. Aury fala do Alzheimer como uma espécie de roteiro surrealista: lembranças se misturam, tempos se atravessam, palavras escapam e outros modos de comunicação aparecem. O teatro, então, surge como espaço para acolher aquilo que já não cabe na lógica comum da fala.
A dimensão sonora também é importante na peça. Aury lembra que esta dimensão é uma das últimas memórias a se perder. Por isso, a sonoplastia parte de referências afetivas da mãe, especialmente Roberto Carlos e Luiz Gonzaga. A música entra como acesso a uma memória que ainda pulsa.
Na conversa, Aury também fala do Perdigoto, podcast dedicado à memória do teatro brasileiro. Com 25 episódios já realizados, o projeto busca registrar histórias de artistas de diferentes regiões do país, fugindo da centralização no eixo Rio-São Paulo. Para Aury, ouvir o teatro feito em outros lugares é reencontrar o Brasil em suas vozes, sotaques, invenções e formas de resistência.
Entre o Ceará e São Paulo, entre o Oficina e a Mundana, entre a mãe e a cena, Aury Porto reafirma o teatro como lugar de memória viva. Uma arte que não serve apenas para distrair, mas para provocar, elaborar, reunir e devolver às pessoas novas formas de sentir o tempo.
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