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  • Itamar Assumpção segue vivo no palco de Juçara Marçal, Suzana Salles e Kiko Dinucci

    Itamar Assumpção segue vivo no palco de Juçara Marçal, Suzana Salles e Kiko Dinucci

    Trio passou pelo Francamente antes de show no Sesc Jundiaí e falou sobre repertório, experimentação e a força do encontro ao vivo.

    Poucos artistas atravessam o tempo como Itamar Assumpção. Sua obra, ligada à Vanguarda Paulista, ao Isca de Polícia e a uma forma muito própria de pensar palavra, ritmo e invenção, segue encontrando novos públicos — inclusive entre gerações que chegaram a ele muito depois de seus primeiros discos.

    Foi esse repertório que levou Juçara Marçal, Suzana Salles e Kiko Dinucci ao Sesc Jundiaí. Antes do show, o trio passou pelo Francamente, em conversa com Tainan Franco, para falar sobre a homenagem a Itamar, a construção do espetáculo e os caminhos atuais de suas próprias trajetórias.

    O projeto nasceu há mais de dez anos, a partir de encontros na Casa de Francisca, em São Paulo. Aos poucos, o trio foi se reunindo em torno das canções de Itamar e brincando com a ideia de “pregar a palavra” do artista. A piada revela algo sério: há, nesse trabalho, uma relação de devoção, estudo e escuta profunda.

    Mais do que executar canções conhecidas, Juçara, Suzana e Kiko buscam habitar a linguagem de Itamar. O violão de Kiko muitas vezes assume a função das linhas de baixo; as vozes exploram pausas, silêncios, respirações e deslocamentos; a palavra aparece como matéria rítmica. Como lembram na conversa, errar uma sílaba pode ser suficiente para “perder o bonde” da música.

    Esse desafio também explica por que o show segue em transformação. Mesmo depois de uma década, os arranjos mudam, o repertório se altera, uma canção ganha outro contorno e um verso, ouvido tantas vezes, pode atravessar os artistas de uma nova maneira. A obra de Itamar permite isso porque é aberta, viva e ainda aponta para o futuro.

    A entrevista também passou pelo momento atual dos três artistas, cada um deles atravessado por muitos projetos, parcerias e frentes de criação. Juçara falou de seu novo disco em parceria com a pianista Thais Nicodemo, um trabalho de voz e piano preparado — instrumento expandido por objetos, texturas e interferências sonoras — que reúne composições de artistas próximos e desloca o formato voz e piano para um lugar mais experimental.

    Suzana, por sua vez, comentou a continuidade de seus trabalhos ligados à canção, à Vanguarda Paulista e ao repertório caipira. Entre os projetos citados estão Sabor de Veneno, com Arrigo Barnabé, a parceria com Ivan Vilela e Lenine Santos, além do trabalho em voz e violão com Paulo Padilha, em que revisita compositores como Itamar, Arrigo e outros nomes fundamentais da música brasileira.

    Kiko adiantou o lançamento de Medusa, disco previsto para agosto, descrito por ele como um trabalho de amor — mas um amor barulhento. O álbum também nasce em diálogo com outras linguagens: a capa foi criada pela artista Tatiana Blass, a partir de obras inspiradas nas músicas do disco, reforçando uma característica recorrente em sua trajetória, na qual música, imagem, cinema e artes visuais se atravessam.

    Em meio à conversa, também apareceu uma reflexão sobre o presente da música independente. Plataformas, remuneração baixa e inteligência artificial mudam o mercado, mas não substituem o essencial: o encontro entre artista e público. Como o trio reforça, o show segue sendo o lugar onde a música acontece de verdade.

    E talvez seja justamente por isso que Itamar continue tão atual. Sua obra pede palco, corpo, voz, risco e presença. Nas mãos de Juçara Marçal, Suzana Salles e Kiko Dinucci, ela não vira peça de museu: vira experiência viva, inquieta e pronta para encontrar novos ouvidos.

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  • Luis Reys transforma música em viagem, escuta e encontro

    Luis Reys transforma música em viagem, escuta e encontro

    Criador do “Music es un Voyage” esteve no Francamente para falar sobre educação musical, Austrália e encontros com artistas ao redor do mundo.

    A música entrou na vida de Luis Reys primeiro como admiração. Fã de artistas como Humberto Gessinger, ele cresceu olhando para bandas, discos e guitarras como quem enxerga um mundo distante. Não vinha de uma família de músicos, nem descreve sua relação com a música como algo “natural”. Ao contrário: no Francamente, em conversa com Tainan Franco, Luís conta que precisou escolher estudar, insistir e construir esse caminho com método.

    Essa relação mais racional com a música acabou revelando outro talento: o de ensinar. Depois de estudar no Conservatório Souza Lima e fazer bacharelado em guitarra, Luís se tornou professor no mesmo lugar onde havia sido aluno. Também atuou no Programa Vocacional, da Prefeitura de São Paulo, experiência que marcou profundamente sua visão sobre educação musical.

    No Vocacional, ele encontrou um jeito de trabalhar que ia além da aula tradicional. Em vez de levar uma fórmula pronta para os territórios, o projeto buscava entender o que já existia em cada comunidade: bandas, grupos, repertórios, desejos e formas próprias de ocupação cultural. Luís relembra com carinho a experiência no CEU Guarapiranga, onde uma banda local passou a assumir aulas, organizar encontros e transformar o espaço público em lugar de pertencimento.

    Esse olhar para a música como ferramenta de encontro seguiu com ele quando decidiu ir para a Austrália, em 2015, para fazer mestrado. A mudança nasceu de uma oportunidade quase inesperada, mas acabou abrindo um período de dez anos fora do Brasil. Lá, Luis passou a pesquisar criatividade, composição e educação musical, interessado em usar a criação como parte do processo de aprendizagem.

    A Austrália também mudou sua relação com o mundo. Ao conviver com músicos de diferentes países, Luís começou a aceitar convites: Coreia, Japão, África, China, Rússia e outros destinos entraram no mapa. Aos poucos, aquilo que poderia virar uma pesquisa acadêmica ganhou outro formato. Incentivado pelo produtor Robert Regonati, no Japão, ele começou a gravar encontros com músicos e publicar esses registros no YouTube. Nascia ali o caminho que daria forma ao Music es un Voyage.

    A proposta é simples e poderosa: viajar, encontrar músicos, conversar, tocar e descobrir como a música vive em cada lugar. Ao longo do processo, Luís percebeu que, apesar das diferenças de língua, comida, religião, política ou costumes, muitos artistas compartilham desejos parecidos. O sonho de viver de música, o medo de não conseguir pagar as contas, a vontade de criar e a busca por reconhecimento aparecem em diferentes países, com sotaques distintos, mas com uma humanidade comum.

    Alguns encontros viraram histórias improváveis. Na Austrália, Luis chegou a tocar na Sydney Opera House a convite de um saxofonista coreano apaixonado por Tom Jobim, vivendo a emoção de representar a música brasileira em um dos palcos mais simbólicos do mundo. Na Rússia, encontrou uma banda que traduzia músicas da Tropicália para o russo e tocava Caetano Veloso em Moscou. Na China, se surpreendeu ao ouvir músicos dizendo que viviam de música com naturalidade, algo que contrastava com respostas encontradas em muitos outros países.

    Mais do que uma coleção de viagens, a trajetória de Luis Reys revela uma escolha de escuta. Em vez de olhar para o outro como exótico ou distante, ele se aproxima pela música. Pergunta, observa, toca, aprende e se deixa transformar. Como aparece na conversa, talvez o projeto não tenha mudado o mundo inteiro — mas mudou o próprio viajante. E, quando alguém muda a forma de escutar, alguma coisa no mundo também se desloca.

    No Francamente, Luis Reys mostra que música pode ser carreira, aula, pesquisa, viagem, ponte e encontro. Pode ser também um jeito de atravessar fronteiras sem apagar diferenças. Uma forma de lembrar que, antes de qualquer rótulo, há sempre alguém tentando encontrar seu lugar no mundo através de uma canção.

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  • Musa Oliver abre um novo capítulo entre pop, cura e autodescoberta

    Musa Oliver abre um novo capítulo entre pop, cura e autodescoberta

    Com o EP Capítulo 26, artista radicada em Jundiaí transforma vivências pessoais em uma sonoridade mística, eletrônica e autoral.

    A cantora Musa Oliver esteve no Francamente, em conversa com Tainan Franco, para falar sobre sua trajetória, seus processos criativos e o lançamento de Capítulo 26, EP previsto para 26 de junho de 2026.

    Radicada em Jundiaí, Musa carrega uma relação antiga com a arte. Desde a infância, a música e a poesia aparecem como formas de expressão, elaboração e abrigo. Mais tarde, a formação em Letras pela USP aprofundou sua relação com a palavra, que atravessa tanto sua escrita quanto a maneira como constrói suas canções.

    Em Capítulo 26, essa história ganha forma musical. O EP nasce como uma jornada de autodescoberta e cura, marcada por experiências pessoais, amadurecimento e reconstrução afetiva. A sonoridade mistura elementos do pop, da música eletrônica e de uma atmosfera mais mística, criando um universo próprio para falar de fim, recomeço e transformação.

    A busca por identidade também aparece no visual do projeto. Musa conta que participa diretamente da criação das artes de suas capas, pensando imagem e música como partes de uma mesma narrativa. Aos 26 anos, ela organiza vivências, cicatrizes e descobertas em um trabalho que funciona como retrato de fase — mas também como afirmação artística.

    Na entrevista, a cantora também relembra sua participação no Canta Comigo, experiência que exigiu preparo emocional, vocal e estético para enfrentar o desafio de se apresentar diante de 100 jurados. O episódio marcou sua trajetória e ajudou a fortalecer sua relação com o palco.

    O novo momento de Musa também é construído em parceria. A produção do EP conta com a presença de Flavinho, seu namorado e colaborador.

    Com Capítulo 26, Musa Oliver apresenta uma fase mais madura, autoral e consciente de sua própria linguagem. Um trabalho em que música, palavra, imagem e experiência pessoal se encontram para abrir caminho ao que vem depois.

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  • Glebbo transforma intuição, encontro e metamorfose em música

    Glebbo transforma intuição, encontro e metamorfose em música

    Da experiência nas bandas de baile ao novo trabalho Metamorfose, multi-instrumentista constrói uma trajetória guiada pela experimentação e pelos encontros.

    O músico e multi-instrumentista Glebbo esteve no Francamente para uma conversa sobre trajetória, criação e os caminhos que o levaram a construir uma identidade artística marcada pela liberdade. Da vivência inicial na igreja às bandas de baile, passando pela experiência com a banda Maquinamente e pela carreira solo, sua história revela um artista formado tanto pela prática quanto pelos encontros.

    Na entrevista, Glebbo lembra que as bandas de baile funcionaram como uma verdadeira “faculdade”. Foi nesse ambiente que aprendeu a lidar com repertórios diversos, públicos diferentes e a dinâmica real do palco. Essa experiência ajudou a moldar sua escuta e sua maneira intuitiva de fazer música.

    Multi-instrumentista sem formação formal em todos os instrumentos que toca, Glebbo fala da criação como um processo orgânico. A composição surge no contato direto com os sons, nas descobertas de timbre, nas experimentações e na curiosidade permanente. Essa busca também aparece na criação da Nave, sistema modular e portátil que reúne seus equipamentos para apresentações ao vivo e produção musical.

    O novo trabalho, Metamorfose, aparece como síntese desse momento. Para Glebbo, algumas composições parecem antecipar experiências pessoais, como se a música chegasse antes da compreensão racional. Nesse sentido, criar também se torna uma forma de elaboração, um processo quase terapêutico de expurgo, transformação e reencontro consigo mesmo.

    A conversa também passa pela importância da comunidade. Glebbo fala dos encontros musicais que promove às quintas-feiras no Alto da Mooca, chamados por ele de “nosso culto”: espaços de troca, improviso e convivência, onde estilos, artistas e histórias se cruzam.

    Mais do que uma trajetória voltada a números ou bens materiais, Glebbo apresenta uma visão de sucesso ligada à permanência da criação. Para ele, o valor da arte está na capacidade de manter acesa a fagulha criativa, criar pontes com outros artistas e seguir produzindo encontros.

    No Francamente, sua história aparece justamente como isso: uma metamorfose contínua, feita de música, intuição, amizade e movimento.

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  • Tiago Almeida apresenta KIAROSCURO no Francamente

    Tiago Almeida apresenta KIAROSCURO no Francamente

    Em conversa com Tainan Franco, músico fala sobre o single “O Mundo Inteiro”, suas influências no rock progressivo e o início de uma nova fase autoral.

    O músico Tiago Almeida esteve no Francamente para apresentar KIAROSCURO, seu novo projeto autoral. A estreia acontece com o single “O Mundo Inteiro”, a ser lançado em 19 de junho, e marca uma fase em que o artista aprofunda sua relação com o rock progressivo, a música instrumental e a criação de atmosferas sonoras.

    O nome do projeto vem de chiaroscuro, técnica associada ao contraste entre luz e sombra. Na adaptação para KIAROSCURO, Tiago transforma essa ideia em conceito musical: uma obra construída a partir de tensões, contrastes, camadas e imagens sonoras.

    Na conversa com Tainan Franco, o músico revisita sua trajetória desde Promissão, sua formação em Engenharia da Computação na UFSCar e as referências que ajudaram a moldar sua escuta. Entre elas aparecem nomes como Raul Seixas, Engenheiros do Hawaii, Dream Theater, Pink Floyd e Tool, influências que dialogam com a busca por músicas mais narrativas, densas e cinematográficas.

    Tiago também fala sobre o processo de produção do próprio trabalho. Além de compor, ele se envolve diretamente com gravação, mixagem e masterização, tratando cada lançamento como parte de uma construção maior. A ideia é pensar o álbum não apenas como reunião de faixas, mas como uma narrativa, quase como uma trilha sonora em movimento.

    A tecnologia também atravessa essa trajetória. Engenheiro de formação, Tiago comenta o uso consciente de ferramentas digitais e inteligências artificiais como apoio técnico, especialmente em etapas de produção, sem substituir a criação artística. Para ele, a tecnologia pode auxiliar o processo, mas não ocupar o lugar da intenção, da escuta e da identidade musical.

    O episódio ainda passa pela estratégia de lançamento, pelo apoio da Marã Música, pela importância do pré-save nas plataformas e pela mentoria de Kiko Loureiro em sua carreira. Além do single, Tiago prepara novas músicas e leva o projeto ao palco, com show marcado para 27 de junho no Front, onde apresenta material novo e faixas inéditas.

    Com KIAROSCURO, Tiago Almeida inicia uma nova etapa: mais autoral, conceitual e conectada às possibilidades do rock progressivo contemporâneo.

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  • Deafkids lança disco novo e transforma ruído, corpo e futuro em linguagem

    Deafkids lança disco novo e transforma ruído, corpo e futuro em linguagem

    Em conversa no Francamente, Mariano fala sobre o novo álbum da banda, as cicatrizes deixadas pela tecnologia, a retomada das turnês e a construção de um som cada vez mais eletrônico e orgânico.

    O Deafkids nunca foi uma banda fácil de colocar em uma caixa. Punk, eletrônico, percussivo, industrial, psicodélico, afrolatino, experimental: qualquer definição parece funcionar por alguns segundos, até o som escapar por outro caminho.

    De volta ao Francamente, em conversa com Tainan Franco, Mariano falou sobre o novo disco da banda, lançado 29 de maio, depois de um intervalo sem álbum cheio de estúdio desde 2019. No caminho, a conversa passou pela pandemia, pelas turnês internacionais, pelo processo de composição à distância, pelas novas formas de tocar ao vivo e por um mundo atravessado por redes sociais, inteligência artificial, apatia e excesso de ruído.

    Duas faixas já estavam na pista antes do lançamento, “Cicatrizes” e “Reflexo”, abrindo caminho para um trabalho que parece levar adiante aquilo que o Deafkids sempre fez: transformar inquietação em som.

    Depois da pausa, o movimento

    Em 2019, o Deafkids vivia um dos períodos mais ativos de sua trajetória. A banda passou pela Europa, pelos Estados Unidos e pelo Canadá, em uma sequência intensa de shows e projetos. Havia turnês marcadas para 2020, inclusive com previsão de passagem pelo México, mas a pandemia interrompeu o movimento praticamente às vésperas da estrada.

    O que veio depois foi um período de reorganização. A banda lançou EPs feitos à distância e também incorporou músicas criadas para o jogo Cyberpunk 2077. Mas ainda faltava um registro que desse conta da nova configuração sonora do grupo.

    Esse novo disco surge justamente daí: da vontade de condensar o que mudou desde então. Mudaram os integrantes, os lugares, os instrumentos, as formas de tocar, as camadas eletrônicas, a presença da percussão ao vivo e a relação com o palco.

    Eletrônico, orgânico e tocado com o corpo

    Mariano define bateria e percussão como seus instrumentos nativos. Mesmo quando está tocando baixo, teclas, efeitos ou outras camadas, é essa lógica rítmica que parece informar seu jeito de fazer música.

    No novo disco, essa característica aparece com força. O trabalho é descrito como o álbum mais eletrônico do Deafkids, mas também como um dos mais orgânicos. A contradição é só aparente: muitos sons eletrônicos são tocados humanamente, com instrumentos, controladores, percussões e gestos físicos. Como resume a própria conversa, há ali couro, madeira, metal e plástico.

    O resultado é uma música de textura. Uma música que não se organiza pela lógica convencional de verso e refrão, mas por camadas, sinais internos, ciclos, estouros, secagens, crescimentos e cortes. Em vez de conduzir o ouvinte por um caminho previsível, o Deafkids parece criar um ambiente em constante transformação.

    É som para ouvir, mas também para tentar entender de onde vem. E talvez por isso o palco seja parte tão importante da experiência: ver o Deafkids ao vivo é também acompanhar uma espécie de investigação visual, tentando descobrir quem está produzindo cada ruído, cada pulso, cada virada.

    Cicatrizes do futuro

    O título e a ideia de “Cicatrizes do Futuro” aparecem na entrevista como uma chave para compreender o disco. Não se trata apenas das marcas que carregamos do passado, mas também das marcas produzidas por um futuro que já começou a nos atravessar.

    Mariano fala das redes sociais, da dependência das plataformas, da inteligência artificial generativa, da deterioração do debate público e da dificuldade crescente de lidar com nuance, ironia, contexto e linguagem. O disco nasce desse mal-estar: um mundo em que estamos cada vez mais indignados, mas também cada vez mais paralisados.

    Nesse sentido, o som do Defkids parece incorporar essa tensão na própria forma: ruído, repetição, excesso, quebra, dança, colapso, corpo e máquina convivendo no mesmo espaço.

    É como se o disco perguntasse que tipo de marca o futuro já está deixando em nós — e que tipo de resposta ainda conseguimos produzir com o corpo.

    Um som que não quer virar algoritmo de si mesmo

    Uma das ideias mais fortes da conversa é a recusa de transformar referência em ponto de chegada. Mariano fala sobre música indiana, guinaua do Marrocos, música afrolatina, punk, música industrial e outras tradições não como modelos a serem copiados, mas como tecnologias de criação.

    O Deafkids parece se alimentar dessas linguagens sem tentar reproduzi-las de forma decorativa. Há uma espécie de “desrespeito respeitoso”: conhecer o suficiente para poder deslocar, inverter, tensionar e criar outra coisa.

    Essa postura ajuda a explicar por que a banda continua soando difícil de classificar mesmo depois de tantos anos. O objetivo não é se tornar homenagem de um gênero, nem repetir a própria fórmula. É seguir atravessando referências até que elas virem outra coisa.

    Como aparece na conversa, a banda segue “metendo louco” há 16 anos. E talvez seja justamente aí que esteja sua coerência.

    Um disco para um tempo inquieto

    O novo álbum do Deafkids chega em um momento em que muita coisa parece pedir simplificação: músicas mais curtas, conteúdos mais rápidos, imagens mais diretas, discursos mais fechados. A banda faz o caminho contrário. Cria um trabalho denso, físico, eletrônico, percussivo e cheio de camadas.

    Não é um disco que tenta acalmar o presente. É um disco que assume o atrito. Que transforma a ansiedade do tempo em ritmo, a saturação das redes em ruído e a sensação de futuro danificado em linguagem.

    No Francamente, Mariano ajuda a revelar o que há por trás desse som: estrada, pesquisa, improviso, técnica, colaboração, política, tecnologia e uma vontade contínua de não deixar a música se acomodar.

    O Deafkids volta com um álbum cheio, mas sem voltar ao mesmo lugar. O que retorna é o movimento.

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