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  • Leci Brandão: quando samba e compromisso caminham juntos

    Leci Brandão: quando samba e compromisso caminham juntos

    Durante passagem por Jundiaí, Leci Brandão esteve no Francamente para uma conversa sobre música, memória popular, espiritualidade, atuação parlamentar e a responsabilidade de cantar o Brasil profundo.

    Poucas trajetórias na cultura brasileira atravessam tantos territórios quanto a de Leci Brandão. Cantora, compositora, sambista, mulher negra, artista popular e deputada estadual, ela construiu uma obra em que música e compromisso social nunca caminharam separados. Suas canções falam de comunidade, desigualdade, respeito, religiosidade, afeto, cotidiano e luta — temas que, mais tarde, também se tornariam parte de sua atuação política.

    Em passagem por Jundiaí, antes de show esgotado no Sesc Jundiaí, Leci esteve no Francamente, em conversa com Tainan Franco, para revisitar capítulos importantes de sua vida. A entrevista atravessou a infância no Rio de Janeiro, a entrada no samba, a relação com São Paulo, o início da carreira fonográfica, a pausa nos anos 1980, o retorno com “Zé do Caroço”, a chegada à política institucional e a forma como ela mantém, até hoje, a simplicidade como princípio.

    Leci Brandão no Francamente, com Tainan Franco.

    Embora nascida no Rio de Janeiro e profundamente ligada à Mangueira, foi em São Paulo que sua primeira gravadora abriu caminho para registros fundamentais de sua carreira. Ela lembra a importância da gravadora Marcus Pereira, do produtor Sérgio Cabral e dos espaços que ajudaram a aproximá-la de nomes centrais do samba brasileiro.

    Na conversa, Leci recorda também o ambiente do Teatro Opinião, onde conviveu com artistas como Dona Ivone Lara, Cartola, Nelson Sargento, Clara Nunes e Beth Carvalho. Essa rede de encontros ajuda a dimensionar a força de uma artista que não apenas entrou na história do samba, mas também abriu caminho dentro dela: Leci foi a primeira mulher a integrar a ala de compositores da Estação Primeira de Mangueira.

    Uma obra feita de vivência

    A entrevista mostra que o compromisso de Leci veio de sua própria história. Filha de Dona Lecy, servente de escola pública, ela cresceu em contato direto com a realidade de quem trabalha, luta e depende da estrutura pública mais básica para viver com dignidade — escola, saúde, saneamento, moradia, e outros direitos que deveriam sustentar a vida cotidiana. Ao relembrar a infância, as escolas onde morou e as salas de aula que ajudou a varrer, Leci aponta a mãe como a grande referência de sua formação humana — uma base que atravessa sua obra, sua conduta e sua presença pública.

    “A educação que eu tenho foi minha mãe, dona Lecy, servente de escola pública, que me ajudou na minha formação principal de educação, a forma como eu trato as pessoas, a minha forma de vida, o meu comportamento.”

    Essa dimensão aparece em músicas como As Coisas que Mamãe me Ensinou e também em sua leitura sobre o Brasil.

    Para Leci, falar de saúde, educação, moradia, cultura e igualdade não é favor nem abstração. É falar das condições mínimas para que as pessoas possam existir com dignidade.

    “Zé do Caroço” e a força da memória popular

    A conversa também passa por “Zé do Caroço”, uma das músicas mais conhecidas do repertório de Leci. Composta em 1978, a canção só foi gravada por ela em 1985, em um disco que marcou sua retomada fonográfica depois de um período difícil, quando o teor social de suas composições também limitava as oportunidades nas gravadoras.

    Na entrevista, Leci conta que não pensou em abandonar a música, mas se entristeceu ao não enxergar caminhos para continuar gravando. O convite da gravadora Copacabana mudou esse cenário e permitiu que “Zé do Caroço” chegasse ao registro que se tornaria um dos grandes marcos de seu repertório.

    Ao falar do personagem do Morro do Pau da Bandeira, Leci registrou uma forma comunitária de comunicação, crítica e mobilização. Como observa Tainan na entrevista, há histórias que, quando não entram na arte, correm o risco de desaparecer da memória coletiva. Em Leci, o samba guarda aquilo que o Brasil muitas vezes tenta esquecer.

    Da arte à política

    Antes de se tornar deputada estadual, Leci atuou em conselhos ligados às políticas para mulheres e à igualdade racial, no governo federal. Depois, recebeu o convite para disputar uma eleição em São Paulo.

    A decisão de aceitar o convite passou por sua espiritualidade e pela compreensão de que aquele poderia ser outro caminho para falar das mesmas coisas que já apareciam em sua arte. A política, nesse sentido, surge como nova forma de compromisso: um espaço para transformar em ação pública aquilo que, durante décadas, ela cantou.

    Eleita pela primeira vez em 2010, com posse em 2011, Leci se tornou a segunda mulher negra eleita deputada estadual na história da Assembleia Legislativa de São Paulo. Desde então, construiu uma trajetória parlamentar marcada por pautas ligadas à cultura, educação, combate ao racismo, direitos humanos, mulheres, diversidade, economia solidária e respeito às populações historicamente excluídas.

    Na entrevista, ela conta que, ao receber o chamado para a política, revisitou seus próprios discos para entender se havia coerência entre o que cantava e o que poderia fazer como parlamentar. A resposta estava ali: sua atuação política precisaria ser fiel às causas já presentes em sua obra.

    Respeito como princípio

    Leci volta, na conversa, muitas vezes ao ensinamento da mãe e à importância de tratar as pessoas com dignidade, independentemente de cargo, partido, religião, origem ou posição social. Mesmo falando de política em um tempo marcado por violência verbal e falta de diálogo, ela afirma que não se permite ofender, porque também não quer ser ofendida.

    Para ela, a simplicidade é uma forma de não se afastar de onde veio. Ao falar dos trabalhadores de limpeza e serviços gerais, Leci diz que enxerga a própria mãe nos corredores da Assembleia Legislativa. Essa frase ajuda a entender por que sua atuação política não se separa de sua memória pessoal: cada pauta carrega uma história, e cada história carrega um compromisso.

    “Você tem que entender que está ali por escolha do povo, que você tem um compromisso com as pessoas simples. Porque eu sou uma pessoa simples.”

    Palco, fé e compromisso

    Mesmo com quatro mandatos parlamentares, Leci segue artista. Na entrevista, ela fala do palco com naturalidade: comenta o carinho pelo público do Sesc, a relação de respeito com a banda que a acompanha e a espiritualidade que orienta sua preparação. Sem grandes exigências ou rituais complexos, diz que pede proteção a Deus e aos seus guias de luz para que o show aconteça bem.

    Aos 81 anos, prestes a completar 82 em setembro, Leci mantém no palco a mesma base que atravessa sua vida pública: simplicidade, respeito e compromisso com as pessoas. São mais de cinco décadas de carreira, dezenas de registros, sambas, discursos, memórias e encontros que atravessam a história recente do país.

    Por isso, ouvir Leci Brandão é reencontrar uma parte importante do Brasil — não o Brasil dos discursos prontos, mas o Brasil das escolas públicas, dos morros, dos sambas, das mães trabalhadoras, das comunidades, dos palcos e das lutas cotidianas. No Francamente, ela aparece como aquilo que sempre foi: uma voz popular que transformou vivência em música, música em consciência e consciência em ação.

    Assista à entrevista completa no Francamente e aproveite para curtir, comentar e seguir o programa, fortalecendo as vozes e histórias que passam por essa mesa:

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  • Fernando Deluqui revisita a história do RPM e fala sobre a nova fase com RPM – O Legado

    Fernando Deluqui revisita a história do RPM e fala sobre a nova fase com RPM – O Legado

    Guitarrista fundador de uma das maiores bandas do rock brasileiro passou pelo Francamente para falar sobre memória, estrada, bastidores e o desafio de manter vivo um repertório que atravessou gerações.

    Há artistas que não aparecem apenas nos discos: aparecem na memória afetiva de uma geração inteira. Fernando Deluqui é um desses nomes. Guitarrista fundador do RPM, ele ajudou a construir uma das sonoridades mais marcantes do rock brasileiro dos anos 1980, em uma época em que guitarras, sintetizadores, danceterias, programas de televisão e gravadoras faziam do rock nacional um fenômeno de massa.

    Fernando Deluqui – fonte: Facebook do artista

    No Francamente, em conversa com Tainan Franco, Deluqui revisitou esse caminho sem tratar o passado como “peça de museu”. A entrevista atravessa as origens musicais, a explosão do RPM, os bastidores de uma carreira marcada por sucessos gigantescos, pausas, retornos, tensões internas e, agora, uma nova fase: RPM – O Legado, projeto que mantém Deluqui à frente de um repertório que segue mobilizando públicos pelo país.

    Deluqui relembra, na entrevista, a infância em São Paulo, a relação com o som que vinha dos discos do pai, as primeiras experiências com bateria, violão e guitarra, além da paixão por artistas que ajudaram a formar sua escuta. Rock progressivo, surf music, trilhas de cinema, Beatles, Pink Floyd, Genesis, Deep Purple, Jimi Hendrix, Caetano Veloso e Raul Seixas aparecem como parte de um repertório amplo, anterior às divisões rígidas que muitas vezes tentam organizar a música em gavetas. Essa formação ajuda a entender a própria abertura estética que apareceria depois no RPM. Como Deluqui resume na conversa:

    “A década de 70, especificamente, foi uma década que misturou muita coisa. Porque tinha o rock progressivo, o punk, o pop, a new wave. O RPM tinha isso.”

    Essa mistura ajuda a entender por que a banda que surgiria nos anos 1980 nunca foi apenas uma banda de “rock de rádio”. Outro detalhe lembrado por Deluqui ilumina essa formação: ele, Luiz Schiavon e Paulo Ricardo estiveram no histórico show do Genesis no Ibirapuera, em 1977, ainda sem se conhecer. Anos depois, algo daquela experiência de escala, luz e impacto visual reapareceria no palco do RPM.

    O estouro do RPM

    Formado em São Paulo, o RPM entrou para a história como um dos maiores fenômenos comerciais do rock nacional. O primeiro álbum, Revoluções por Minuto, lançado em 1985, abriu caminho para uma sequência de sucessos que marcaria definitivamente a década. Mas foi com Rádio Pirata ao Vivo, de 1986, que a banda alcançou uma dimensão rara: o disco ultrapassou a casa dos milhões de cópias vendidas e se tornou um dos álbuns mais lembrados da indústria fonográfica brasileira.

    Na conversa, Deluqui fala desse período como um turbilhão. O RPM saiu das danceterias e casas noturnas para palcos cada vez maiores, atravessando rádio, televisão, revistas, festivais e grandes turnês. Em pouco tempo, a banda passou de promessa da cena paulistana a símbolo de uma juventude urbana que via no rock nacional uma nova linguagem.

    Mas o sucesso veio rápido demais. Deluqui reconhece que a explosão comercial, a exposição intensa e as expectativas do mercado criaram uma pressão difícil de administrar. A banda, segundo ele, talvez não estivesse preparada para o tamanho do fenômeno que se formou ao seu redor:

    “Aí começa uma saída de controle do RPM. Tudo bem, foi legal, Rádio Pirata; contra o sucesso não tem contraindicação. Mas aquilo começou um tamanho de sucesso que talvez fosse bom a gente ter freado e falado: ‘não, vamos fazer uma carreira longa, sem tantos sobressaltos’.”

    O que parecia apenas ascensão também trazia desgaste, disputa de espaço, mercado e decisões tomadas no calor de uma velocidade que ninguém conseguia prever. Como ele resume em outro momento da entrevista:

    “Mas a gente não estava preparado. É fácil falar agora, mas na hora você está naquele turbilhão, você não vê.”

    Entre pausas, retornos e caminhos próprios

    Depois da primeira grande fase do RPM, Deluqui seguiu por muitos caminhos. Gravou projetos próprios e também integrou uma fase dos Engenheiros do Hawaii, em um momento de transição da própria banda gaúcha. Na entrevista, ele relembra essa experiência como um período musicalmente forte, no qual criou laços com Humberto Gessinger e Carlos Maltz: participou de um álbum que considera relevante em sua carreira (o Simples de Coração, 1995), além de ter gravado novamente com Humberto em outro momento.

    Ao mesmo tempo, a passagem pelos Engenheiros também reforçou uma inquietação que já vinha de antes. Deluqui queria abrir mais espaço para suas próprias composições, registrar ideias e organizar uma produção autoral que, muitas vezes, ficava guardada enquanto ele atravessava bandas, projetos e retomadas. Em uma banda marcada pela escrita de Humberto, percebeu que, apesar da admiração e da boa experiência musical, precisava respirar e colocar seu próprio trabalho para fora.

    Esse movimento atravessa a entrevista inteira: Deluqui aparece como um artista em reencontro com a própria obra, alguém que não quer ser lembrado apenas como guitarrista de uma marca histórica, mas também como compositor, produtor e músico interessado em documentar, lançar e dar continuidade ao que construiu ao longo dos anos.

    Nesse processo, ele destaca também a parceria com Virgínia Carvalho Deluqui, sua esposa, que passou a ter papel importante na organização de sua carreira e documentação de seus projetos. Se nos anos 1980 havia gravadora, rádio, televisão e uma engrenagem industrial sustentando o movimento, hoje o trabalho exige outra lógica: produção própria, redes, estúdio, selo, equipe, memória e presença constante.

    RPM – O Legado

    É nesse contexto que surge a fase atual RPM – O Legado. O projeto nasce após as disputas em torno do uso do nome RPM e se apresenta como continuidade, homenagem e nova etapa de uma história que Deluqui ajudou a construir desde o início.

    “Quando eu tava lá com o RPM tinha gravadora. A gente era uns porra-louca: ‘vai pra estrada, se joga e toca o rock & roll, e a gente se vira aqui.’ Hoje em dia não é mais assim.”

    A frase marca bem a diferença entre dois tempos. Se nos anos 1980 a banda era impulsionada por gravadora – rádio, televisão e uma indústria fonográfica em expansão – hoje a continuidade do repertório exige outro tipo de construção: mais autônoma, mais documentada e mais organizada.

    “A gente tem uma estrutura grande. Eu costumo dizer que a gente tá com um tabuleiro com muitas pedras boas: nós temos a banda, temos a equipe, temos o nosso estúdio, temos o nosso selo, temos o nosso empresário.”

    RPM – O Legado

    Ao lado de Kiko Zara, Fábio Pelissioni e Tato Andreatta, Deluqui leva ao palco clássicos do RPM, lados B, novas versões e músicas inéditas. O passado segue presente, mas não como repetição: RPM – O Legado aparece como trabalho de continuidade, no qual memória, estrada e novas canções se encontram para manter a história em movimento.

    Um legado em disputa com o tempo

    Falar de RPM é falar de memória, mas também de futuro. O repertório que marcou uma geração continua vivo porque ainda encontra novos ouvintes, novas formações e novos palcos. Ao mesmo tempo, essa permanência exige escolhas: como revisitar uma obra sem congelá-la? Como respeitar uma história sem transformar o show em nostalgia pura? Como seguir criando depois de ter participado de um dos maiores fenômenos do rock brasileiro?

    Fernando Deluqui parece responder a essas perguntas com estrada. Em vez de encerrar a história no passado, ele continua tocando, compondo, organizando arquivos, gravando novas músicas e levando o repertório para o palco. A guitarra que ajudou a dar identidade ao RPM segue como fio condutor de uma trajetória que atravessou danceterias, grandes arenas, estúdios, crises, recomeços e novas formações.

    Ao final da conversa, o que fica é a imagem de um artista que não trata sua própria história como arquivo fechado. Deluqui revisita o RPM, os bastidores, os erros e os reencontros com a consciência de quem sabe o peso do passado, mas também com a disposição de seguir colocando a guitarra na estrada.

    Assista à entrevista completa no Francamente e aproveite para curtir, comentar e seguir o programa, fortalecendo as vozes e histórias que passam por essa mesa:

    E, se a conversa despertou vontade de ouvir mais, visite também o canal oficial de RPM – O Legado no YouTube. Por lá, é possível acompanhar essa nova etapa da trajetória de Fernando Deluqui, conhecer a formação atual, ouvir os materiais da banda e seguir de perto os próximos movimentos do projeto:

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  • Itamar Assumpção segue vivo no palco de Juçara Marçal, Suzana Salles e Kiko Dinucci

    Itamar Assumpção segue vivo no palco de Juçara Marçal, Suzana Salles e Kiko Dinucci

    Trio passou pelo Francamente antes de show no Sesc Jundiaí e falou sobre repertório, experimentação e a força do encontro ao vivo.

    Poucos artistas atravessam o tempo como Itamar Assumpção. Sua obra, ligada à Vanguarda Paulista, ao Isca de Polícia e a uma forma muito própria de pensar palavra, ritmo e invenção, segue encontrando novos públicos — inclusive entre gerações que chegaram a ele muito depois de seus primeiros discos.

    Foi esse repertório que levou Juçara Marçal, Suzana Salles e Kiko Dinucci ao Sesc Jundiaí. Antes do show, o trio passou pelo Francamente, em conversa com Tainan Franco, para falar sobre a homenagem a Itamar, a construção do espetáculo e os caminhos atuais de suas próprias trajetórias.

    O projeto nasceu há mais de dez anos, a partir de encontros na Casa de Francisca, em São Paulo. Aos poucos, o trio foi se reunindo em torno das canções de Itamar e brincando com a ideia de “pregar a palavra” do artista. A piada revela algo sério: há, nesse trabalho, uma relação de devoção, estudo e escuta profunda.

    Mais do que executar canções conhecidas, Juçara, Suzana e Kiko buscam habitar a linguagem de Itamar. O violão de Kiko muitas vezes assume a função das linhas de baixo; as vozes exploram pausas, silêncios, respirações e deslocamentos; a palavra aparece como matéria rítmica. Como lembram na conversa, errar uma sílaba pode ser suficiente para “perder o bonde” da música.

    Esse desafio também explica por que o show segue em transformação. Mesmo depois de uma década, os arranjos mudam, o repertório se altera, uma canção ganha outro contorno e um verso, ouvido tantas vezes, pode atravessar os artistas de uma nova maneira. A obra de Itamar permite isso porque é aberta, viva e ainda aponta para o futuro.

    A entrevista também passou pelo momento atual dos três artistas, cada um deles atravessado por muitos projetos, parcerias e frentes de criação. Juçara falou de seu novo disco em parceria com a pianista Thais Nicodemo, um trabalho de voz e piano preparado — instrumento expandido por objetos, texturas e interferências sonoras — que reúne composições de artistas próximos e desloca o formato voz e piano para um lugar mais experimental.

    Suzana, por sua vez, comentou a continuidade de seus trabalhos ligados à canção, à Vanguarda Paulista e ao repertório caipira. Entre os projetos citados estão Sabor de Veneno, com Arrigo Barnabé, a parceria com Ivan Vilela e Lenine Santos, além do trabalho em voz e violão com Paulo Padilha, em que revisita compositores como Itamar, Arrigo e outros nomes fundamentais da música brasileira.

    Kiko adiantou o lançamento de Medusa, disco previsto para agosto, descrito por ele como um trabalho de amor — mas um amor barulhento. O álbum também nasce em diálogo com outras linguagens: a capa foi criada pela artista Tatiana Blass, a partir de obras inspiradas nas músicas do disco, reforçando uma característica recorrente em sua trajetória, na qual música, imagem, cinema e artes visuais se atravessam.

    Em meio à conversa, também apareceu uma reflexão sobre o presente da música independente. Plataformas, remuneração baixa e inteligência artificial mudam o mercado, mas não substituem o essencial: o encontro entre artista e público. Como o trio reforça, o show segue sendo o lugar onde a música acontece de verdade.

    E talvez seja justamente por isso que Itamar continue tão atual. Sua obra pede palco, corpo, voz, risco e presença. Nas mãos de Juçara Marçal, Suzana Salles e Kiko Dinucci, ela não vira peça de museu: vira experiência viva, inquieta e pronta para encontrar novos ouvidos.

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  • Luis Reys transforma música em viagem, escuta e encontro

    Luis Reys transforma música em viagem, escuta e encontro

    Criador do “Music es un Voyage” esteve no Francamente para falar sobre educação musical, Austrália e encontros com artistas ao redor do mundo.

    A música entrou na vida de Luis Reys primeiro como admiração. Fã de artistas como Humberto Gessinger, ele cresceu olhando para bandas, discos e guitarras como quem enxerga um mundo distante. Não vinha de uma família de músicos, nem descreve sua relação com a música como algo “natural”. Ao contrário: no Francamente, em conversa com Tainan Franco, Luís conta que precisou escolher estudar, insistir e construir esse caminho com método.

    Essa relação mais racional com a música acabou revelando outro talento: o de ensinar. Depois de estudar no Conservatório Souza Lima e fazer bacharelado em guitarra, Luís se tornou professor no mesmo lugar onde havia sido aluno. Também atuou no Programa Vocacional, da Prefeitura de São Paulo, experiência que marcou profundamente sua visão sobre educação musical.

    No Vocacional, ele encontrou um jeito de trabalhar que ia além da aula tradicional. Em vez de levar uma fórmula pronta para os territórios, o projeto buscava entender o que já existia em cada comunidade: bandas, grupos, repertórios, desejos e formas próprias de ocupação cultural. Luís relembra com carinho a experiência no CEU Guarapiranga, onde uma banda local passou a assumir aulas, organizar encontros e transformar o espaço público em lugar de pertencimento.

    Esse olhar para a música como ferramenta de encontro seguiu com ele quando decidiu ir para a Austrália, em 2015, para fazer mestrado. A mudança nasceu de uma oportunidade quase inesperada, mas acabou abrindo um período de dez anos fora do Brasil. Lá, Luis passou a pesquisar criatividade, composição e educação musical, interessado em usar a criação como parte do processo de aprendizagem.

    A Austrália também mudou sua relação com o mundo. Ao conviver com músicos de diferentes países, Luís começou a aceitar convites: Coreia, Japão, África, China, Rússia e outros destinos entraram no mapa. Aos poucos, aquilo que poderia virar uma pesquisa acadêmica ganhou outro formato. Incentivado pelo produtor Robert Regonati, no Japão, ele começou a gravar encontros com músicos e publicar esses registros no YouTube. Nascia ali o caminho que daria forma ao Music es un Voyage.

    A proposta é simples e poderosa: viajar, encontrar músicos, conversar, tocar e descobrir como a música vive em cada lugar. Ao longo do processo, Luís percebeu que, apesar das diferenças de língua, comida, religião, política ou costumes, muitos artistas compartilham desejos parecidos. O sonho de viver de música, o medo de não conseguir pagar as contas, a vontade de criar e a busca por reconhecimento aparecem em diferentes países, com sotaques distintos, mas com uma humanidade comum.

    Alguns encontros viraram histórias improváveis. Na Austrália, Luis chegou a tocar na Sydney Opera House a convite de um saxofonista coreano apaixonado por Tom Jobim, vivendo a emoção de representar a música brasileira em um dos palcos mais simbólicos do mundo. Na Rússia, encontrou uma banda que traduzia músicas da Tropicália para o russo e tocava Caetano Veloso em Moscou. Na China, se surpreendeu ao ouvir músicos dizendo que viviam de música com naturalidade, algo que contrastava com respostas encontradas em muitos outros países.

    Mais do que uma coleção de viagens, a trajetória de Luis Reys revela uma escolha de escuta. Em vez de olhar para o outro como exótico ou distante, ele se aproxima pela música. Pergunta, observa, toca, aprende e se deixa transformar. Como aparece na conversa, talvez o projeto não tenha mudado o mundo inteiro — mas mudou o próprio viajante. E, quando alguém muda a forma de escutar, alguma coisa no mundo também se desloca.

    No Francamente, Luis Reys mostra que música pode ser carreira, aula, pesquisa, viagem, ponte e encontro. Pode ser também um jeito de atravessar fronteiras sem apagar diferenças. Uma forma de lembrar que, antes de qualquer rótulo, há sempre alguém tentando encontrar seu lugar no mundo através de uma canção.

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  • Musa Oliver abre um novo capítulo entre pop, cura e autodescoberta

    Musa Oliver abre um novo capítulo entre pop, cura e autodescoberta

    Com o EP Capítulo 26, artista radicada em Jundiaí transforma vivências pessoais em uma sonoridade mística, eletrônica e autoral.

    A cantora Musa Oliver esteve no Francamente, em conversa com Tainan Franco, para falar sobre sua trajetória, seus processos criativos e o lançamento de Capítulo 26, EP previsto para 26 de junho de 2026.

    Radicada em Jundiaí, Musa carrega uma relação antiga com a arte. Desde a infância, a música e a poesia aparecem como formas de expressão, elaboração e abrigo. Mais tarde, a formação em Letras pela USP aprofundou sua relação com a palavra, que atravessa tanto sua escrita quanto a maneira como constrói suas canções.

    Em Capítulo 26, essa história ganha forma musical. O EP nasce como uma jornada de autodescoberta e cura, marcada por experiências pessoais, amadurecimento e reconstrução afetiva. A sonoridade mistura elementos do pop, da música eletrônica e de uma atmosfera mais mística, criando um universo próprio para falar de fim, recomeço e transformação.

    A busca por identidade também aparece no visual do projeto. Musa conta que participa diretamente da criação das artes de suas capas, pensando imagem e música como partes de uma mesma narrativa. Aos 26 anos, ela organiza vivências, cicatrizes e descobertas em um trabalho que funciona como retrato de fase — mas também como afirmação artística.

    Na entrevista, a cantora também relembra sua participação no Canta Comigo, experiência que exigiu preparo emocional, vocal e estético para enfrentar o desafio de se apresentar diante de 100 jurados. O episódio marcou sua trajetória e ajudou a fortalecer sua relação com o palco.

    O novo momento de Musa também é construído em parceria. A produção do EP conta com a presença de Flavinho, seu namorado e colaborador.

    Com Capítulo 26, Musa Oliver apresenta uma fase mais madura, autoral e consciente de sua própria linguagem. Um trabalho em que música, palavra, imagem e experiência pessoal se encontram para abrir caminho ao que vem depois.

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  • Glebbo transforma intuição, encontro e metamorfose em música

    Glebbo transforma intuição, encontro e metamorfose em música

    Da experiência nas bandas de baile ao novo trabalho Metamorfose, multi-instrumentista constrói uma trajetória guiada pela experimentação e pelos encontros.

    O músico e multi-instrumentista Glebbo esteve no Francamente para uma conversa sobre trajetória, criação e os caminhos que o levaram a construir uma identidade artística marcada pela liberdade. Da vivência inicial na igreja às bandas de baile, passando pela experiência com a banda Maquinamente e pela carreira solo, sua história revela um artista formado tanto pela prática quanto pelos encontros.

    Na entrevista, Glebbo lembra que as bandas de baile funcionaram como uma verdadeira “faculdade”. Foi nesse ambiente que aprendeu a lidar com repertórios diversos, públicos diferentes e a dinâmica real do palco. Essa experiência ajudou a moldar sua escuta e sua maneira intuitiva de fazer música.

    Multi-instrumentista sem formação formal em todos os instrumentos que toca, Glebbo fala da criação como um processo orgânico. A composição surge no contato direto com os sons, nas descobertas de timbre, nas experimentações e na curiosidade permanente. Essa busca também aparece na criação da Nave, sistema modular e portátil que reúne seus equipamentos para apresentações ao vivo e produção musical.

    O novo trabalho, Metamorfose, aparece como síntese desse momento. Para Glebbo, algumas composições parecem antecipar experiências pessoais, como se a música chegasse antes da compreensão racional. Nesse sentido, criar também se torna uma forma de elaboração, um processo quase terapêutico de expurgo, transformação e reencontro consigo mesmo.

    A conversa também passa pela importância da comunidade. Glebbo fala dos encontros musicais que promove às quintas-feiras no Alto da Mooca, chamados por ele de “nosso culto”: espaços de troca, improviso e convivência, onde estilos, artistas e histórias se cruzam.

    Mais do que uma trajetória voltada a números ou bens materiais, Glebbo apresenta uma visão de sucesso ligada à permanência da criação. Para ele, o valor da arte está na capacidade de manter acesa a fagulha criativa, criar pontes com outros artistas e seguir produzindo encontros.

    No Francamente, sua história aparece justamente como isso: uma metamorfose contínua, feita de música, intuição, amizade e movimento.

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