Misoginia, cultura e política: formação discute legislação e responsabilidade dos homens

Formação Popular HCF – Homens Contra o Feminicídio propõe encontros mensais voltados à escuta, responsabilização e mudança de práticas no enfrentamento à violência de gênero.

A misoginia não aparece apenas em agressões explícitas. Ela também se manifesta em discursos públicos, ataques nas redes, práticas culturais, disputas políticas e formas cotidianas de desvalorização das mulheres.

Esse foi o tema do encontro “Misoginia: discurso, cultura e política”, promovido pela Rizoma – Educação, Cultura e Direitos Humanos dentro da Formação Popular HCF – Homens Contra o Feminicídio. A conversa contou com Rachel Ripani e Tainan Franco e teve apoio do Programa Francamente — apresentado por Tainan —, por meio do qual o debate foi transmitido na rádio e também será disponibilizado como episódio especial nas plataformas digitais do programa.

Atriz, produtora, diretora de teatro e cofundadora do Levante Mulheres Vivas, Rachel tem atuado na mobilização pela aprovação do projeto de lei contra a misoginia, levando a discussão sobre feminicídio, violência de gênero e ódio contra mulheres para diferentes espaços públicos.

O encontro faz parte de uma jornada formativa voltada principalmente a homens interessados em compreender a violência de gênero para além do senso comum. Inspirada na educação popular feminista interseccional e no método das Promotoras Legais Populares — iniciativa que também tem atuação em Jundiaí, com ações de formação, articulação e fortalecimento dos direitos das mulheres —, a formação propõe escuta, reflexão crítica e compromisso com mudanças individuais e coletivas.

Misoginia não é só opinião

Um dos pontos centrais do debate é que a misoginia não deve ser reduzida a uma opinião individual ou a um comentário isolado. Ela faz parte de uma cultura que naturaliza desigualdades, minimiza violências e cria terreno para formas mais graves de agressão, exclusão e silenciamento.

Isso não significa tratar qualquer frase machista como caso de polícia. Uma piada preconceituosa pode e deve ser criticada, questionada e desnaturalizada. Mas o centro do debate sobre misoginia está em outro lugar: nas práticas de discriminação, humilhação, ameaça, incitação à violência e restrição de direitos contra mulheres em razão de sua condição de mulher.

Essa distinção é importante para afastar uma falsa polêmica. O debate não trata de punir toda fala ruim, mas de reconhecer que o ódio contra mulheres pode produzir efeitos concretos na vida social, política, profissional e afetiva. Quando esse ódio ganha escala, organização e circulação, especialmente nas redes, ele deixa de ser apenas expressão individual.

O PL da Misoginia

A conversa também contextualizou o chamado PL da Misoginia, como ficou conhecido o Projeto de Lei 896/2023. A proposta altera a Lei nº 7.716/1989, conhecida como Lei do Racismo, e o Código Penal, para tratar de crimes praticados em razão de misoginia — isto é, motivados por ódio ou aversão às mulheres.

O projeto foi aprovado pelo Senado em março de 2026 e enviado à Câmara dos Deputados. Em julho, a Câmara aprovou o regime de urgência para a proposta, o que permite que o texto seja votado diretamente em plenário, sem passar antes pelas comissões.

Ao longo da tramitação, o debate passou por ajustes de linguagem e escopo. Uma das preocupações foi justamente delimitar melhor o que a lei pretende alcançar: condutas motivadas por misoginia que envolvam discriminação, discurso de ódio, incitação, ofensa à dignidade, restrição de direitos ou violência contra mulheres.

O tema também se relaciona diretamente ao ambiente digital. Nas redes, discursos misóginos podem ganhar velocidade, engajamento e até monetização. Ataques coordenados, campanhas de humilhação, ameaças e desqualificação pública muitas vezes são tratados como “brincadeira” ou “opinião”, apesar dos impactos concretos que produzem.

Como acompanhar

A Formação Popular HCF da Rizoma acontece em encontros mensais online, pelo Google Meet, com vagas limitadas. Parte do valor das inscrições é destinada ao Levante Mulheres Vivas.

Entre os próximos temas previstos estão Diversidade de masculinidades, Como educar crianças sem reproduzir o machismo e Feminismo é para todo mundo.

Assista à conversa na íntegra: