Categoria: Programa Francamente

  • Musa Oliver abre um novo capítulo entre pop, cura e autodescoberta

    Musa Oliver abre um novo capítulo entre pop, cura e autodescoberta

    Com o EP Capítulo 26, artista radicada em Jundiaí transforma vivências pessoais em uma sonoridade mística, eletrônica e autoral.

    A cantora Musa Oliver esteve no Francamente, em conversa com Tainan Franco, para falar sobre sua trajetória, seus processos criativos e o lançamento de Capítulo 26, EP previsto para 26 de junho de 2026.

    Radicada em Jundiaí, Musa carrega uma relação antiga com a arte. Desde a infância, a música e a poesia aparecem como formas de expressão, elaboração e abrigo. Mais tarde, a formação em Letras pela USP aprofundou sua relação com a palavra, que atravessa tanto sua escrita quanto a maneira como constrói suas canções.

    Em Capítulo 26, essa história ganha forma musical. O EP nasce como uma jornada de autodescoberta e cura, marcada por experiências pessoais, amadurecimento e reconstrução afetiva. A sonoridade mistura elementos do pop, da música eletrônica e de uma atmosfera mais mística, criando um universo próprio para falar de fim, recomeço e transformação.

    A busca por identidade também aparece no visual do projeto. Musa conta que participa diretamente da criação das artes de suas capas, pensando imagem e música como partes de uma mesma narrativa. Aos 26 anos, ela organiza vivências, cicatrizes e descobertas em um trabalho que funciona como retrato de fase — mas também como afirmação artística.

    Na entrevista, a cantora também relembra sua participação no Canta Comigo, experiência que exigiu preparo emocional, vocal e estético para enfrentar o desafio de se apresentar diante de 100 jurados. O episódio marcou sua trajetória e ajudou a fortalecer sua relação com o palco.

    O novo momento de Musa também é construído em parceria. A produção do EP conta com a presença de Flavinho, seu namorado e colaborador.

    Com Capítulo 26, Musa Oliver apresenta uma fase mais madura, autoral e consciente de sua própria linguagem. Um trabalho em que música, palavra, imagem e experiência pessoal se encontram para abrir caminho ao que vem depois.

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  • Glebbo transforma intuição, encontro e metamorfose em música

    Glebbo transforma intuição, encontro e metamorfose em música

    Da experiência nas bandas de baile ao novo trabalho Metamorfose, multi-instrumentista constrói uma trajetória guiada pela experimentação e pelos encontros.

    O músico e multi-instrumentista Glebbo esteve no Francamente para uma conversa sobre trajetória, criação e os caminhos que o levaram a construir uma identidade artística marcada pela liberdade. Da vivência inicial na igreja às bandas de baile, passando pela experiência com a banda Maquinamente e pela carreira solo, sua história revela um artista formado tanto pela prática quanto pelos encontros.

    Na entrevista, Glebbo lembra que as bandas de baile funcionaram como uma verdadeira “faculdade”. Foi nesse ambiente que aprendeu a lidar com repertórios diversos, públicos diferentes e a dinâmica real do palco. Essa experiência ajudou a moldar sua escuta e sua maneira intuitiva de fazer música.

    Multi-instrumentista sem formação formal em todos os instrumentos que toca, Glebbo fala da criação como um processo orgânico. A composição surge no contato direto com os sons, nas descobertas de timbre, nas experimentações e na curiosidade permanente. Essa busca também aparece na criação da Nave, sistema modular e portátil que reúne seus equipamentos para apresentações ao vivo e produção musical.

    O novo trabalho, Metamorfose, aparece como síntese desse momento. Para Glebbo, algumas composições parecem antecipar experiências pessoais, como se a música chegasse antes da compreensão racional. Nesse sentido, criar também se torna uma forma de elaboração, um processo quase terapêutico de expurgo, transformação e reencontro consigo mesmo.

    A conversa também passa pela importância da comunidade. Glebbo fala dos encontros musicais que promove às quintas-feiras no Alto da Mooca, chamados por ele de “nosso culto”: espaços de troca, improviso e convivência, onde estilos, artistas e histórias se cruzam.

    Mais do que uma trajetória voltada a números ou bens materiais, Glebbo apresenta uma visão de sucesso ligada à permanência da criação. Para ele, o valor da arte está na capacidade de manter acesa a fagulha criativa, criar pontes com outros artistas e seguir produzindo encontros.

    No Francamente, sua história aparece justamente como isso: uma metamorfose contínua, feita de música, intuição, amizade e movimento.

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  • Tiago Almeida apresenta KIAROSCURO no Francamente

    Tiago Almeida apresenta KIAROSCURO no Francamente

    Em conversa com Tainan Franco, músico fala sobre o single “O Mundo Inteiro”, suas influências no rock progressivo e o início de uma nova fase autoral.

    O músico Tiago Almeida esteve no Francamente para apresentar KIAROSCURO, seu novo projeto autoral. A estreia acontece com o single “O Mundo Inteiro”, a ser lançado em 19 de junho, e marca uma fase em que o artista aprofunda sua relação com o rock progressivo, a música instrumental e a criação de atmosferas sonoras.

    O nome do projeto vem de chiaroscuro, técnica associada ao contraste entre luz e sombra. Na adaptação para KIAROSCURO, Tiago transforma essa ideia em conceito musical: uma obra construída a partir de tensões, contrastes, camadas e imagens sonoras.

    Na conversa com Tainan Franco, o músico revisita sua trajetória desde Promissão, sua formação em Engenharia da Computação na UFSCar e as referências que ajudaram a moldar sua escuta. Entre elas aparecem nomes como Raul Seixas, Engenheiros do Hawaii, Dream Theater, Pink Floyd e Tool, influências que dialogam com a busca por músicas mais narrativas, densas e cinematográficas.

    Tiago também fala sobre o processo de produção do próprio trabalho. Além de compor, ele se envolve diretamente com gravação, mixagem e masterização, tratando cada lançamento como parte de uma construção maior. A ideia é pensar o álbum não apenas como reunião de faixas, mas como uma narrativa, quase como uma trilha sonora em movimento.

    A tecnologia também atravessa essa trajetória. Engenheiro de formação, Tiago comenta o uso consciente de ferramentas digitais e inteligências artificiais como apoio técnico, especialmente em etapas de produção, sem substituir a criação artística. Para ele, a tecnologia pode auxiliar o processo, mas não ocupar o lugar da intenção, da escuta e da identidade musical.

    O episódio ainda passa pela estratégia de lançamento, pelo apoio da Marã Música, pela importância do pré-save nas plataformas e pela mentoria de Kiko Loureiro em sua carreira. Além do single, Tiago prepara novas músicas e leva o projeto ao palco, com show marcado para 27 de junho no Front, onde apresenta material novo e faixas inéditas.

    Com KIAROSCURO, Tiago Almeida inicia uma nova etapa: mais autoral, conceitual e conectada às possibilidades do rock progressivo contemporâneo.

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  • Deafkids lança disco novo e transforma ruído, corpo e futuro em linguagem

    Deafkids lança disco novo e transforma ruído, corpo e futuro em linguagem

    Em conversa no Francamente, Mariano fala sobre o novo álbum da banda, as cicatrizes deixadas pela tecnologia, a retomada das turnês e a construção de um som cada vez mais eletrônico e orgânico.

    O Deafkids nunca foi uma banda fácil de colocar em uma caixa. Punk, eletrônico, percussivo, industrial, psicodélico, afrolatino, experimental: qualquer definição parece funcionar por alguns segundos, até o som escapar por outro caminho.

    De volta ao Francamente, em conversa com Tainan Franco, Mariano falou sobre o novo disco da banda, lançado 29 de maio, depois de um intervalo sem álbum cheio de estúdio desde 2019. No caminho, a conversa passou pela pandemia, pelas turnês internacionais, pelo processo de composição à distância, pelas novas formas de tocar ao vivo e por um mundo atravessado por redes sociais, inteligência artificial, apatia e excesso de ruído.

    Duas faixas já estavam na pista antes do lançamento, “Cicatrizes” e “Reflexo”, abrindo caminho para um trabalho que parece levar adiante aquilo que o Deafkids sempre fez: transformar inquietação em som.

    Depois da pausa, o movimento

    Em 2019, o Deafkids vivia um dos períodos mais ativos de sua trajetória. A banda passou pela Europa, pelos Estados Unidos e pelo Canadá, em uma sequência intensa de shows e projetos. Havia turnês marcadas para 2020, inclusive com previsão de passagem pelo México, mas a pandemia interrompeu o movimento praticamente às vésperas da estrada.

    O que veio depois foi um período de reorganização. A banda lançou EPs feitos à distância e também incorporou músicas criadas para o jogo Cyberpunk 2077. Mas ainda faltava um registro que desse conta da nova configuração sonora do grupo.

    Esse novo disco surge justamente daí: da vontade de condensar o que mudou desde então. Mudaram os integrantes, os lugares, os instrumentos, as formas de tocar, as camadas eletrônicas, a presença da percussão ao vivo e a relação com o palco.

    Eletrônico, orgânico e tocado com o corpo

    Mariano define bateria e percussão como seus instrumentos nativos. Mesmo quando está tocando baixo, teclas, efeitos ou outras camadas, é essa lógica rítmica que parece informar seu jeito de fazer música.

    No novo disco, essa característica aparece com força. O trabalho é descrito como o álbum mais eletrônico do Deafkids, mas também como um dos mais orgânicos. A contradição é só aparente: muitos sons eletrônicos são tocados humanamente, com instrumentos, controladores, percussões e gestos físicos. Como resume a própria conversa, há ali couro, madeira, metal e plástico.

    O resultado é uma música de textura. Uma música que não se organiza pela lógica convencional de verso e refrão, mas por camadas, sinais internos, ciclos, estouros, secagens, crescimentos e cortes. Em vez de conduzir o ouvinte por um caminho previsível, o Deafkids parece criar um ambiente em constante transformação.

    É som para ouvir, mas também para tentar entender de onde vem. E talvez por isso o palco seja parte tão importante da experiência: ver o Deafkids ao vivo é também acompanhar uma espécie de investigação visual, tentando descobrir quem está produzindo cada ruído, cada pulso, cada virada.

    Cicatrizes do futuro

    O título e a ideia de “Cicatrizes do Futuro” aparecem na entrevista como uma chave para compreender o disco. Não se trata apenas das marcas que carregamos do passado, mas também das marcas produzidas por um futuro que já começou a nos atravessar.

    Mariano fala das redes sociais, da dependência das plataformas, da inteligência artificial generativa, da deterioração do debate público e da dificuldade crescente de lidar com nuance, ironia, contexto e linguagem. O disco nasce desse mal-estar: um mundo em que estamos cada vez mais indignados, mas também cada vez mais paralisados.

    Nesse sentido, o som do Defkids parece incorporar essa tensão na própria forma: ruído, repetição, excesso, quebra, dança, colapso, corpo e máquina convivendo no mesmo espaço.

    É como se o disco perguntasse que tipo de marca o futuro já está deixando em nós — e que tipo de resposta ainda conseguimos produzir com o corpo.

    Um som que não quer virar algoritmo de si mesmo

    Uma das ideias mais fortes da conversa é a recusa de transformar referência em ponto de chegada. Mariano fala sobre música indiana, guinaua do Marrocos, música afrolatina, punk, música industrial e outras tradições não como modelos a serem copiados, mas como tecnologias de criação.

    O Deafkids parece se alimentar dessas linguagens sem tentar reproduzi-las de forma decorativa. Há uma espécie de “desrespeito respeitoso”: conhecer o suficiente para poder deslocar, inverter, tensionar e criar outra coisa.

    Essa postura ajuda a explicar por que a banda continua soando difícil de classificar mesmo depois de tantos anos. O objetivo não é se tornar homenagem de um gênero, nem repetir a própria fórmula. É seguir atravessando referências até que elas virem outra coisa.

    Como aparece na conversa, a banda segue “metendo louco” há 16 anos. E talvez seja justamente aí que esteja sua coerência.

    Um disco para um tempo inquieto

    O novo álbum do Deafkids chega em um momento em que muita coisa parece pedir simplificação: músicas mais curtas, conteúdos mais rápidos, imagens mais diretas, discursos mais fechados. A banda faz o caminho contrário. Cria um trabalho denso, físico, eletrônico, percussivo e cheio de camadas.

    Não é um disco que tenta acalmar o presente. É um disco que assume o atrito. Que transforma a ansiedade do tempo em ritmo, a saturação das redes em ruído e a sensação de futuro danificado em linguagem.

    No Francamente, Mariano ajuda a revelar o que há por trás desse som: estrada, pesquisa, improviso, técnica, colaboração, política, tecnologia e uma vontade contínua de não deixar a música se acomodar.

    O Deafkids volta com um álbum cheio, mas sem voltar ao mesmo lugar. O que retorna é o movimento.

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  • OBMJ: música jamaicana à brasileira, feita para dançar

    OBMJ: música jamaicana à brasileira, feita para dançar

    Em conversa no Francamente, Sérgio Soffiatti e Felipe Pipeta falam sobre a trajetória da Orquestra Brasileira de Música Jamaicana, o Cine OBMJ e os caminhos de uma banda que mistura baile, cinema e ska.

    A Orquestra Brasileira de Música Jamaicana já carrega uma ideia inteira no próprio nome. É orquestra, mas não no sentido “solene” da palavra. É brasileira, mas atravessada por ritmos jamaicanos. É grande no nome, na formação, no som e no projeto de transformar repertórios conhecidos em música para dançar.

    No Francamente, em conversa com Tainan Franco, Sérgio Soffiatti e Felipe Pipeta falaram sobre a origem da OBMJ, a relação com o ska, o reggae e a música jamaicana, os desafios de manter uma banda numerosa em atividade e o show Cine OBMJ, apresentado no Sesc Jundiaí.

    A conversa começa com bom humor — como costuma acontecer quando o Francamente recebe artistas que já chegam em clima de bastidor —, mas logo revela algo importante sobre a banda: por trás da leveza, existe pesquisa, direção artística e um compromisso sério com a música popular.

    Uma orquestra de baile

    A OBMJ nasceu do encontro entre músicos que já circulavam pela cena ska e pela música jamaicana em São Paulo. Sérgio vinha da banda Skuba; Pipeta, do Sapo Banjo. A amizade, a convivência e a afinidade musical foram aproximando os dois até que, em 2005, surgiu a ideia de criar uma big band dedicada à música jamaicana.

    A referência vinha de grupos como os Skatalites, uma espécie de matriz para quem pensa a música jamaicana com sopros, peso, balanço e formação numerosa. Mas a OBMJ não queria apenas copiar uma sonoridade de fora. A pergunta que moveu o projeto foi outra: se bandas do mundo inteiro faziam versões de músicas brasileiras em ritmos jamaicanos, por que músicos brasileiros não poderiam fazer isso a partir daqui?

    Foi dessa ideia que nasceu a Orquestra Brasileira de Música Jamaicana: uma banda que olha para a tradição jamaicana, mas responde com sotaque próprio, humor, pesquisa e repertório brasileiro.

    E o termo orquestra entra justamente aí: como referência às antigas orquestras populares, às bandas de baile, aos grupos que faziam o público dançar em clubes e salões.

    O compromisso com a dança

    Ao longo da entrevista, Sérgio e Pipeta deixam claro que a banda tem um compromisso central: fazer o público dançar. Essa busca orienta os arranjos, a escolha do repertório e o modo como a OBMJ se relaciona com a música jamaicana.

    Os sopros assumem função quase vocal, conduzindo temas e melodias. A base precisa ser firme, repetitiva, simples na medida certa, capaz de sustentar o transe do ritmo. Há uma atenção ao minimalismo, à batida, ao espaço entre os instrumentos e àquilo que “bate sem doer” — música que entra no corpo, fica ali e move as pessoas.

    Essa escolha também ajuda a explicar a longevidade da banda. Manter nove músicos na estrada, com projetos paralelos, agendas diferentes e uma logística complexa, não é simples. Mas a OBMJ parece se sustentar justamente por combinar direção artística, amizade, humor e uma visão clara de projeto.

    Do ska ao cinema

    O show Cine OBMJ, tema da apresentação no Sesc Jundiaí, abre outra camada da banda: a relação com trilhas sonoras e memória afetiva. A proposta leva temas do cinema para o universo jamaicano, criando versões em ska, reggae e outros ritmos associados à sonoridade do grupo.

    A ideia funciona porque trilha de filme também é memória coletiva. Há temas que atravessam gerações, mesmo quando as pessoas não sabem nomear seus compositores. Ao trazer essas músicas para o corpo dançante da OBMJ, a banda aproxima cinema, baile e cultura pop de um jeito inesperado.

    Na entrevista, essa conversa se desdobra em uma reflexão sobre o tempo de escuta. Em uma época marcada por vídeos curtos, lançamentos acelerados e músicas transformadas em pequenos recortes para redes sociais, projetos como o Cine OBMJ lembram que algumas experiências precisam de mais duração. Um tema musical, um arranjo, um show e uma memória afetiva não se esgotam em 15 segundos.

    Uma banda grande em tempos pequenos

    A OBMJ também fala, inevitavelmente, sobre mercado. Manter uma banda autoral, numerosa e de nicho em atividade exige muito mais do que talento. Exige estrada, produção, gestão, negociação, lançamento, divulgação e uma dose constante de sobrevivência.

    A conversa passa por streaming, remuneração injusta, dificuldade de circulação, festivais conservadores e a sensação de que muitos artistas independentes vivem tentando acompanhar uma máquina que exige novidade o tempo todo.

    Ainda assim, a banda segue criando. Além do Cine OBMJ, há projetos como OBMJ Jazz, o show baile, novos lançamentos e ideias futuras, incluindo um projeto infantil e o bem-humorado Reggae Conniff, inspirado em Ray Conniff.

    Essa disposição para inventar novos formatos mostra uma banda que amadureceu sem perder o espírito de brincadeira. A OBMJ sabe rir de si mesma, mas também sabe o que está fazendo.

    Música para alimentar almas

    Talvez a melhor definição da OBMJ apareça quando os convidados falam do palco. No show, dizem eles, os boletos e problemas ficam do lado de fora. O que importa é a alegria de tocar junto, colocar o público para dançar e alimentar as almas de quem está ali.

    Essa frase resume algo essencial: a Orquestra Brasileira de Música Jamaicana não trata a música apenas como repertório, estilo ou pesquisa. Trata como encontro. Um encontro entre Brasil e Jamaica, entre baile e cinema, entre sopros e memória, entre músicos que escolheram continuar fazendo exatamente aquilo em que acreditam.

    E, quando uma banda consegue transformar tudo isso em dança, o nome grande deixa de parecer exagero.

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  • Guilherme Ribeiro transforma memórias do interior em música instrumental

    Guilherme Ribeiro transforma memórias do interior em música instrumental

    Em conversa no Francamente, músico, arranjador e acordeonista fala sobre trajetória, acordeon, música popular e o lançamento do EP Bodoque Requer Traquejo.

    A música de Guilherme Ribeiro parece nascer de um ponto de encontro: entre o conservatório e a rua, entre o piano e o acordeon, entre a música popular brasileira e as memórias de uma infância no interior paulista. Músico, arranjador, compositor, pianista e acordeonista, ele esteve no Francamente, em conversa com Tainan Franco, para falar de sua trajetória e do lançamento do EP Bodoque Requer Traquejo.

    Filho de músico, Guilherme cresceu em Agudos, no interior de São Paulo, em uma casa onde instrumentos, partituras e repertórios faziam parte do cotidiano. O pai, músico de baile e pianista, foi uma presença decisiva nessa formação. O primeiro caminho veio pelo conservatório, pelo piano e pela música erudita; depois, na Unicamp, a música popular passou a ocupar um lugar cada vez mais central.

    Foi nesse processo que o acordeon entrou de vez em sua vida. Embora o instrumento já estivesse presente na memória familiar, ele só se tornou parte de sua identidade musical mais tarde, durante a vivência universitária e a participação em grupos de música popular.

    A música instrumental como conversa

    Na entrevista, Guilherme fala da música instrumental sem tratá-la como algo distante ou reservado a especialistas. Para ele, há uma dimensão emocional no som que independe da letra. A escuta pode chegar pela melodia, pelo timbre, pelo gesto, pela presença do instrumento.

    Esse ponto é importante porque ajuda a desfazer uma ideia comum: a de que música instrumental seria “música para músico”. Guilherme lembra que muitas pessoas se emocionam com esse repertório mesmo sem conhecer teoria musical ou sem ter familiaridade com o gênero. A diferença, muitas vezes, está em ser apresentado a esse universo.

    Talvez por isso ele também dê tanta importância às histórias por trás das composições. Ao contar de onde vem um título, uma expressão ou uma imagem, o músico abre uma porta de entrada para o público. A música segue sem letra, mas ganha contexto, afeto e paisagem.

    Bodoque Requer Traquejo

    O novo EP, Bodoque Requer Traquejo, nasce justamente desse encontro entre música e memória. Beneficiado pela PNAB de Jundiaí, o projeto reúne cinco faixas instrumentais compostas especialmente para o disco, tendo o acordeon solo como centro.

    Guilherme define o trabalho como um conjunto de “canções interioranas”. A ideia era revisitar um universo ligado ao interior, às expressões familiares, aos sons de infância e a uma musicalidade que atravessa forró paulista, polca, choro e baião.

    O título já carrega esse espírito. “Bodoque” vem da forma como se fala “estilingue” em Agudos, palavra que puxa uma memória local, afetiva e linguística. Ao longo do EP, outros nomes seguem essa lógica de colecionar expressões e pequenas histórias: “Cois qui esse?”, “Borocoxôxo“, “Assim, de Chofre!” e “Viravento” aparecem na conversa como exemplos de um repertório que nasce também da língua falada, da vida doméstica e das invenções do cotidiano.

    Esses títulos ajudam a construir uma escuta — antes mesmo de ouvir a faixa, o público já entra em contato com um universo: uma palavra de casa, uma expressão antiga, uma frase dita sem querer, uma lembrança transformada em música.

    Entre técnica, processo e escuta

    Ao falar de composição, Guilherme mostra um artista atento ao processo. Algumas ideias vêm da “gaveta”, aquela pasta onde ficam fragmentos, gravações e intuições ainda sem forma definida. Outras nascem sob pressão, a partir de um projeto, de um desafio ou de uma entrega concreta.

    Essa relação com a composição também aparece em sua vida como professor. Guilherme conta que leva ideias para a sala de aula, testa materiais com alunos e usa esse espaço como laboratório de escuta. O ensino, nesse sentido, não fica separado da criação: um alimenta o outro.

    Na trajetória do músico, também há discos autorais, trabalhos como arranjador, projetos com cantores, participações internacionais e passagens por festivais no Canadá, Estados Unidos, França, Bélgica, África do Sul e Itália. Mas o que parece atravessar tudo isso é a busca por dar unidade a cada projeto, como uma fotografia de determinado momento artístico.

    Uma fotografia de 2026

    Bodoque Requer Traquejo aparece, então, como a fotografia de um Guilherme Ribeiro em 2026: um músico maduro, com ampla experiência de palco, estúdio e sala de aula, olhando novamente para o interior, para o acordeon e para as palavras que formaram sua escuta.

    É um trabalho que não tenta separar técnica e afeto. Ao contrário: junta composição, memória, instrumento e linguagem para lembrar que a música instrumental também conta histórias — às vezes sem dizer uma palavra.

    Assista à entrevista no Youtube:

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