Guitarrista fundador de uma das maiores bandas do rock brasileiro passou pelo Francamente para falar sobre memória, estrada, bastidores e o desafio de manter vivo um repertório que atravessou gerações.
Há artistas que não aparecem apenas nos discos: aparecem na memória afetiva de uma geração inteira. Fernando Deluqui é um desses nomes. Guitarrista fundador do RPM, ele ajudou a construir uma das sonoridades mais marcantes do rock brasileiro dos anos 1980, em uma época em que guitarras, sintetizadores, danceterias, programas de televisão e gravadoras faziam do rock nacional um fenômeno de massa.

No Francamente, em conversa com Tainan Franco, Deluqui revisitou esse caminho sem tratar o passado como “peça de museu”. A entrevista atravessa as origens musicais, a explosão do RPM, os bastidores de uma carreira marcada por sucessos gigantescos, pausas, retornos, tensões internas e, agora, uma nova fase: RPM – O Legado, projeto que mantém Deluqui à frente de um repertório que segue mobilizando públicos pelo país.
Deluqui relembra, na entrevista, a infância em São Paulo, a relação com o som que vinha dos discos do pai, as primeiras experiências com bateria, violão e guitarra, além da paixão por artistas que ajudaram a formar sua escuta. Rock progressivo, surf music, trilhas de cinema, Beatles, Pink Floyd, Genesis, Deep Purple, Jimi Hendrix, Caetano Veloso e Raul Seixas aparecem como parte de um repertório amplo, anterior às divisões rígidas que muitas vezes tentam organizar a música em gavetas. Essa formação ajuda a entender a própria abertura estética que apareceria depois no RPM. Como Deluqui resume na conversa:
“A década de 70, especificamente, foi uma década que misturou muita coisa. Porque tinha o rock progressivo, o punk, o pop, a new wave. O RPM tinha isso.”
Essa mistura ajuda a entender por que a banda que surgiria nos anos 1980 nunca foi apenas uma banda de “rock de rádio”. Outro detalhe lembrado por Deluqui ilumina essa formação: ele, Luiz Schiavon e Paulo Ricardo estiveram no histórico show do Genesis no Ibirapuera, em 1977, ainda sem se conhecer. Anos depois, algo daquela experiência de escala, luz e impacto visual reapareceria no palco do RPM.
O estouro do RPM
Formado em São Paulo, o RPM entrou para a história como um dos maiores fenômenos comerciais do rock nacional. O primeiro álbum, Revoluções por Minuto, lançado em 1985, abriu caminho para uma sequência de sucessos que marcaria definitivamente a década. Mas foi com Rádio Pirata ao Vivo, de 1986, que a banda alcançou uma dimensão rara: o disco ultrapassou a casa dos milhões de cópias vendidas e se tornou um dos álbuns mais lembrados da indústria fonográfica brasileira.

Na conversa, Deluqui fala desse período como um turbilhão. O RPM saiu das danceterias e casas noturnas para palcos cada vez maiores, atravessando rádio, televisão, revistas, festivais e grandes turnês. Em pouco tempo, a banda passou de promessa da cena paulistana a símbolo de uma juventude urbana que via no rock nacional uma nova linguagem.
Mas o sucesso veio rápido demais. Deluqui reconhece que a explosão comercial, a exposição intensa e as expectativas do mercado criaram uma pressão difícil de administrar. A banda, segundo ele, talvez não estivesse preparada para o tamanho do fenômeno que se formou ao seu redor:
“Aí começa uma saída de controle do RPM. Tudo bem, foi legal, Rádio Pirata; contra o sucesso não tem contraindicação. Mas aquilo começou um tamanho de sucesso que talvez fosse bom a gente ter freado e falado: ‘não, vamos fazer uma carreira longa, sem tantos sobressaltos’.”
O que parecia apenas ascensão também trazia desgaste, disputa de espaço, mercado e decisões tomadas no calor de uma velocidade que ninguém conseguia prever. Como ele resume em outro momento da entrevista:
“Mas a gente não estava preparado. É fácil falar agora, mas na hora você está naquele turbilhão, você não vê.”
Entre pausas, retornos e caminhos próprios
Depois da primeira grande fase do RPM, Deluqui seguiu por muitos caminhos. Gravou projetos próprios e também integrou uma fase dos Engenheiros do Hawaii, em um momento de transição da própria banda gaúcha. Na entrevista, ele relembra essa experiência como um período musicalmente forte, no qual criou laços com Humberto Gessinger e Carlos Maltz: participou de um álbum que considera relevante em sua carreira (o Simples de Coração, 1995), além de ter gravado novamente com Humberto em outro momento.
Ao mesmo tempo, a passagem pelos Engenheiros também reforçou uma inquietação que já vinha de antes. Deluqui queria abrir mais espaço para suas próprias composições, registrar ideias e organizar uma produção autoral que, muitas vezes, ficava guardada enquanto ele atravessava bandas, projetos e retomadas. Em uma banda marcada pela escrita de Humberto, percebeu que, apesar da admiração e da boa experiência musical, precisava respirar e colocar seu próprio trabalho para fora.
Esse movimento atravessa a entrevista inteira: Deluqui aparece como um artista em reencontro com a própria obra, alguém que não quer ser lembrado apenas como guitarrista de uma marca histórica, mas também como compositor, produtor e músico interessado em documentar, lançar e dar continuidade ao que construiu ao longo dos anos.
Nesse processo, ele destaca também a parceria com Virgínia Carvalho Deluqui, sua esposa, que passou a ter papel importante na organização de sua carreira e documentação de seus projetos. Se nos anos 1980 havia gravadora, rádio, televisão e uma engrenagem industrial sustentando o movimento, hoje o trabalho exige outra lógica: produção própria, redes, estúdio, selo, equipe, memória e presença constante.
RPM – O Legado
É nesse contexto que surge a fase atual RPM – O Legado. O projeto nasce após as disputas em torno do uso do nome RPM e se apresenta como continuidade, homenagem e nova etapa de uma história que Deluqui ajudou a construir desde o início.
“Quando eu tava lá com o RPM tinha gravadora. A gente era uns porra-louca: ‘vai pra estrada, se joga e toca o rock & roll, e a gente se vira aqui.’ Hoje em dia não é mais assim.”
A frase marca bem a diferença entre dois tempos. Se nos anos 1980 a banda era impulsionada por gravadora – rádio, televisão e uma indústria fonográfica em expansão – hoje a continuidade do repertório exige outro tipo de construção: mais autônoma, mais documentada e mais organizada.
“A gente tem uma estrutura grande. Eu costumo dizer que a gente tá com um tabuleiro com muitas pedras boas: nós temos a banda, temos a equipe, temos o nosso estúdio, temos o nosso selo, temos o nosso empresário.”

Ao lado de Kiko Zara, Fábio Pelissioni e Tato Andreatta, Deluqui leva ao palco clássicos do RPM, lados B, novas versões e músicas inéditas. O passado segue presente, mas não como repetição: RPM – O Legado aparece como trabalho de continuidade, no qual memória, estrada e novas canções se encontram para manter a história em movimento.
Um legado em disputa com o tempo
Falar de RPM é falar de memória, mas também de futuro. O repertório que marcou uma geração continua vivo porque ainda encontra novos ouvintes, novas formações e novos palcos. Ao mesmo tempo, essa permanência exige escolhas: como revisitar uma obra sem congelá-la? Como respeitar uma história sem transformar o show em nostalgia pura? Como seguir criando depois de ter participado de um dos maiores fenômenos do rock brasileiro?
Fernando Deluqui parece responder a essas perguntas com estrada. Em vez de encerrar a história no passado, ele continua tocando, compondo, organizando arquivos, gravando novas músicas e levando o repertório para o palco. A guitarra que ajudou a dar identidade ao RPM segue como fio condutor de uma trajetória que atravessou danceterias, grandes arenas, estúdios, crises, recomeços e novas formações.
Ao final da conversa, o que fica é a imagem de um artista que não trata sua própria história como arquivo fechado. Deluqui revisita o RPM, os bastidores, os erros e os reencontros com a consciência de quem sabe o peso do passado, mas também com a disposição de seguir colocando a guitarra na estrada.
Assista à entrevista completa no Francamente e aproveite para curtir, comentar e seguir o programa, fortalecendo as vozes e histórias que passam por essa mesa:
E, se a conversa despertou vontade de ouvir mais, visite também o canal oficial de RPM – O Legado no YouTube. Por lá, é possível acompanhar essa nova etapa da trajetória de Fernando Deluqui, conhecer a formação atual, ouvir os materiais da banda e seguir de perto os próximos movimentos do projeto:
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