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  • Leci Brandão: quando samba e compromisso caminham juntos

    Leci Brandão: quando samba e compromisso caminham juntos

    Durante passagem por Jundiaí, Leci Brandão esteve no Francamente para uma conversa sobre música, memória popular, espiritualidade, atuação parlamentar e a responsabilidade de cantar o Brasil profundo.

    Poucas trajetórias na cultura brasileira atravessam tantos territórios quanto a de Leci Brandão. Cantora, compositora, sambista, mulher negra, artista popular e deputada estadual, ela construiu uma obra em que música e compromisso social nunca caminharam separados. Suas canções falam de comunidade, desigualdade, respeito, religiosidade, afeto, cotidiano e luta — temas que, mais tarde, também se tornariam parte de sua atuação política.

    Em passagem por Jundiaí, antes de show esgotado no Sesc Jundiaí, Leci esteve no Francamente, em conversa com Tainan Franco, para revisitar capítulos importantes de sua vida. A entrevista atravessou a infância no Rio de Janeiro, a entrada no samba, a relação com São Paulo, o início da carreira fonográfica, a pausa nos anos 1980, o retorno com “Zé do Caroço”, a chegada à política institucional e a forma como ela mantém, até hoje, a simplicidade como princípio.

    Leci Brandão no Francamente, com Tainan Franco.

    Embora nascida no Rio de Janeiro e profundamente ligada à Mangueira, foi em São Paulo que sua primeira gravadora abriu caminho para registros fundamentais de sua carreira. Ela lembra a importância da gravadora Marcus Pereira, do produtor Sérgio Cabral e dos espaços que ajudaram a aproximá-la de nomes centrais do samba brasileiro.

    Na conversa, Leci recorda também o ambiente do Teatro Opinião, onde conviveu com artistas como Dona Ivone Lara, Cartola, Nelson Sargento, Clara Nunes e Beth Carvalho. Essa rede de encontros ajuda a dimensionar a força de uma artista que não apenas entrou na história do samba, mas também abriu caminho dentro dela: Leci foi a primeira mulher a integrar a ala de compositores da Estação Primeira de Mangueira.

    Uma obra feita de vivência

    A entrevista mostra que o compromisso de Leci veio de sua própria história. Filha de Dona Lecy, servente de escola pública, ela cresceu em contato direto com a realidade de quem trabalha, luta e depende da estrutura pública mais básica para viver com dignidade — escola, saúde, saneamento, moradia, e outros direitos que deveriam sustentar a vida cotidiana. Ao relembrar a infância, as escolas onde morou e as salas de aula que ajudou a varrer, Leci aponta a mãe como a grande referência de sua formação humana — uma base que atravessa sua obra, sua conduta e sua presença pública.

    “A educação que eu tenho foi minha mãe, dona Lecy, servente de escola pública, que me ajudou na minha formação principal de educação, a forma como eu trato as pessoas, a minha forma de vida, o meu comportamento.”

    Essa dimensão aparece em músicas como As Coisas que Mamãe me Ensinou e também em sua leitura sobre o Brasil.

    Para Leci, falar de saúde, educação, moradia, cultura e igualdade não é favor nem abstração. É falar das condições mínimas para que as pessoas possam existir com dignidade.

    “Zé do Caroço” e a força da memória popular

    A conversa também passa por “Zé do Caroço”, uma das músicas mais conhecidas do repertório de Leci. Composta em 1978, a canção só foi gravada por ela em 1985, em um disco que marcou sua retomada fonográfica depois de um período difícil, quando o teor social de suas composições também limitava as oportunidades nas gravadoras.

    Na entrevista, Leci conta que não pensou em abandonar a música, mas se entristeceu ao não enxergar caminhos para continuar gravando. O convite da gravadora Copacabana mudou esse cenário e permitiu que “Zé do Caroço” chegasse ao registro que se tornaria um dos grandes marcos de seu repertório.

    Ao falar do personagem do Morro do Pau da Bandeira, Leci registrou uma forma comunitária de comunicação, crítica e mobilização. Como observa Tainan na entrevista, há histórias que, quando não entram na arte, correm o risco de desaparecer da memória coletiva. Em Leci, o samba guarda aquilo que o Brasil muitas vezes tenta esquecer.

    Da arte à política

    Antes de se tornar deputada estadual, Leci atuou em conselhos ligados às políticas para mulheres e à igualdade racial, no governo federal. Depois, recebeu o convite para disputar uma eleição em São Paulo.

    A decisão de aceitar o convite passou por sua espiritualidade e pela compreensão de que aquele poderia ser outro caminho para falar das mesmas coisas que já apareciam em sua arte. A política, nesse sentido, surge como nova forma de compromisso: um espaço para transformar em ação pública aquilo que, durante décadas, ela cantou.

    Eleita pela primeira vez em 2010, com posse em 2011, Leci se tornou a segunda mulher negra eleita deputada estadual na história da Assembleia Legislativa de São Paulo. Desde então, construiu uma trajetória parlamentar marcada por pautas ligadas à cultura, educação, combate ao racismo, direitos humanos, mulheres, diversidade, economia solidária e respeito às populações historicamente excluídas.

    Na entrevista, ela conta que, ao receber o chamado para a política, revisitou seus próprios discos para entender se havia coerência entre o que cantava e o que poderia fazer como parlamentar. A resposta estava ali: sua atuação política precisaria ser fiel às causas já presentes em sua obra.

    Respeito como princípio

    Leci volta, na conversa, muitas vezes ao ensinamento da mãe e à importância de tratar as pessoas com dignidade, independentemente de cargo, partido, religião, origem ou posição social. Mesmo falando de política em um tempo marcado por violência verbal e falta de diálogo, ela afirma que não se permite ofender, porque também não quer ser ofendida.

    Para ela, a simplicidade é uma forma de não se afastar de onde veio. Ao falar dos trabalhadores de limpeza e serviços gerais, Leci diz que enxerga a própria mãe nos corredores da Assembleia Legislativa. Essa frase ajuda a entender por que sua atuação política não se separa de sua memória pessoal: cada pauta carrega uma história, e cada história carrega um compromisso.

    “Você tem que entender que está ali por escolha do povo, que você tem um compromisso com as pessoas simples. Porque eu sou uma pessoa simples.”

    Palco, fé e compromisso

    Mesmo com quatro mandatos parlamentares, Leci segue artista. Na entrevista, ela fala do palco com naturalidade: comenta o carinho pelo público do Sesc, a relação de respeito com a banda que a acompanha e a espiritualidade que orienta sua preparação. Sem grandes exigências ou rituais complexos, diz que pede proteção a Deus e aos seus guias de luz para que o show aconteça bem.

    Aos 81 anos, prestes a completar 82 em setembro, Leci mantém no palco a mesma base que atravessa sua vida pública: simplicidade, respeito e compromisso com as pessoas. São mais de cinco décadas de carreira, dezenas de registros, sambas, discursos, memórias e encontros que atravessam a história recente do país.

    Por isso, ouvir Leci Brandão é reencontrar uma parte importante do Brasil — não o Brasil dos discursos prontos, mas o Brasil das escolas públicas, dos morros, dos sambas, das mães trabalhadoras, das comunidades, dos palcos e das lutas cotidianas. No Francamente, ela aparece como aquilo que sempre foi: uma voz popular que transformou vivência em música, música em consciência e consciência em ação.

    Assista à entrevista completa no Francamente e aproveite para curtir, comentar e seguir o programa, fortalecendo as vozes e histórias que passam por essa mesa:

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  • Fernando Deluqui revisita a história do RPM e fala sobre a nova fase com RPM – O Legado

    Fernando Deluqui revisita a história do RPM e fala sobre a nova fase com RPM – O Legado

    Guitarrista fundador de uma das maiores bandas do rock brasileiro passou pelo Francamente para falar sobre memória, estrada, bastidores e o desafio de manter vivo um repertório que atravessou gerações.

    Há artistas que não aparecem apenas nos discos: aparecem na memória afetiva de uma geração inteira. Fernando Deluqui é um desses nomes. Guitarrista fundador do RPM, ele ajudou a construir uma das sonoridades mais marcantes do rock brasileiro dos anos 1980, em uma época em que guitarras, sintetizadores, danceterias, programas de televisão e gravadoras faziam do rock nacional um fenômeno de massa.

    Fernando Deluqui – fonte: Facebook do artista

    No Francamente, em conversa com Tainan Franco, Deluqui revisitou esse caminho sem tratar o passado como “peça de museu”. A entrevista atravessa as origens musicais, a explosão do RPM, os bastidores de uma carreira marcada por sucessos gigantescos, pausas, retornos, tensões internas e, agora, uma nova fase: RPM – O Legado, projeto que mantém Deluqui à frente de um repertório que segue mobilizando públicos pelo país.

    Deluqui relembra, na entrevista, a infância em São Paulo, a relação com o som que vinha dos discos do pai, as primeiras experiências com bateria, violão e guitarra, além da paixão por artistas que ajudaram a formar sua escuta. Rock progressivo, surf music, trilhas de cinema, Beatles, Pink Floyd, Genesis, Deep Purple, Jimi Hendrix, Caetano Veloso e Raul Seixas aparecem como parte de um repertório amplo, anterior às divisões rígidas que muitas vezes tentam organizar a música em gavetas. Essa formação ajuda a entender a própria abertura estética que apareceria depois no RPM. Como Deluqui resume na conversa:

    “A década de 70, especificamente, foi uma década que misturou muita coisa. Porque tinha o rock progressivo, o punk, o pop, a new wave. O RPM tinha isso.”

    Essa mistura ajuda a entender por que a banda que surgiria nos anos 1980 nunca foi apenas uma banda de “rock de rádio”. Outro detalhe lembrado por Deluqui ilumina essa formação: ele, Luiz Schiavon e Paulo Ricardo estiveram no histórico show do Genesis no Ibirapuera, em 1977, ainda sem se conhecer. Anos depois, algo daquela experiência de escala, luz e impacto visual reapareceria no palco do RPM.

    O estouro do RPM

    Formado em São Paulo, o RPM entrou para a história como um dos maiores fenômenos comerciais do rock nacional. O primeiro álbum, Revoluções por Minuto, lançado em 1985, abriu caminho para uma sequência de sucessos que marcaria definitivamente a década. Mas foi com Rádio Pirata ao Vivo, de 1986, que a banda alcançou uma dimensão rara: o disco ultrapassou a casa dos milhões de cópias vendidas e se tornou um dos álbuns mais lembrados da indústria fonográfica brasileira.

    Na conversa, Deluqui fala desse período como um turbilhão. O RPM saiu das danceterias e casas noturnas para palcos cada vez maiores, atravessando rádio, televisão, revistas, festivais e grandes turnês. Em pouco tempo, a banda passou de promessa da cena paulistana a símbolo de uma juventude urbana que via no rock nacional uma nova linguagem.

    Mas o sucesso veio rápido demais. Deluqui reconhece que a explosão comercial, a exposição intensa e as expectativas do mercado criaram uma pressão difícil de administrar. A banda, segundo ele, talvez não estivesse preparada para o tamanho do fenômeno que se formou ao seu redor:

    “Aí começa uma saída de controle do RPM. Tudo bem, foi legal, Rádio Pirata; contra o sucesso não tem contraindicação. Mas aquilo começou um tamanho de sucesso que talvez fosse bom a gente ter freado e falado: ‘não, vamos fazer uma carreira longa, sem tantos sobressaltos’.”

    O que parecia apenas ascensão também trazia desgaste, disputa de espaço, mercado e decisões tomadas no calor de uma velocidade que ninguém conseguia prever. Como ele resume em outro momento da entrevista:

    “Mas a gente não estava preparado. É fácil falar agora, mas na hora você está naquele turbilhão, você não vê.”

    Entre pausas, retornos e caminhos próprios

    Depois da primeira grande fase do RPM, Deluqui seguiu por muitos caminhos. Gravou projetos próprios e também integrou uma fase dos Engenheiros do Hawaii, em um momento de transição da própria banda gaúcha. Na entrevista, ele relembra essa experiência como um período musicalmente forte, no qual criou laços com Humberto Gessinger e Carlos Maltz: participou de um álbum que considera relevante em sua carreira (o Simples de Coração, 1995), além de ter gravado novamente com Humberto em outro momento.

    Ao mesmo tempo, a passagem pelos Engenheiros também reforçou uma inquietação que já vinha de antes. Deluqui queria abrir mais espaço para suas próprias composições, registrar ideias e organizar uma produção autoral que, muitas vezes, ficava guardada enquanto ele atravessava bandas, projetos e retomadas. Em uma banda marcada pela escrita de Humberto, percebeu que, apesar da admiração e da boa experiência musical, precisava respirar e colocar seu próprio trabalho para fora.

    Esse movimento atravessa a entrevista inteira: Deluqui aparece como um artista em reencontro com a própria obra, alguém que não quer ser lembrado apenas como guitarrista de uma marca histórica, mas também como compositor, produtor e músico interessado em documentar, lançar e dar continuidade ao que construiu ao longo dos anos.

    Nesse processo, ele destaca também a parceria com Virgínia Carvalho Deluqui, sua esposa, que passou a ter papel importante na organização de sua carreira e documentação de seus projetos. Se nos anos 1980 havia gravadora, rádio, televisão e uma engrenagem industrial sustentando o movimento, hoje o trabalho exige outra lógica: produção própria, redes, estúdio, selo, equipe, memória e presença constante.

    RPM – O Legado

    É nesse contexto que surge a fase atual RPM – O Legado. O projeto nasce após as disputas em torno do uso do nome RPM e se apresenta como continuidade, homenagem e nova etapa de uma história que Deluqui ajudou a construir desde o início.

    “Quando eu tava lá com o RPM tinha gravadora. A gente era uns porra-louca: ‘vai pra estrada, se joga e toca o rock & roll, e a gente se vira aqui.’ Hoje em dia não é mais assim.”

    A frase marca bem a diferença entre dois tempos. Se nos anos 1980 a banda era impulsionada por gravadora – rádio, televisão e uma indústria fonográfica em expansão – hoje a continuidade do repertório exige outro tipo de construção: mais autônoma, mais documentada e mais organizada.

    “A gente tem uma estrutura grande. Eu costumo dizer que a gente tá com um tabuleiro com muitas pedras boas: nós temos a banda, temos a equipe, temos o nosso estúdio, temos o nosso selo, temos o nosso empresário.”

    RPM – O Legado

    Ao lado de Kiko Zara, Fábio Pelissioni e Tato Andreatta, Deluqui leva ao palco clássicos do RPM, lados B, novas versões e músicas inéditas. O passado segue presente, mas não como repetição: RPM – O Legado aparece como trabalho de continuidade, no qual memória, estrada e novas canções se encontram para manter a história em movimento.

    Um legado em disputa com o tempo

    Falar de RPM é falar de memória, mas também de futuro. O repertório que marcou uma geração continua vivo porque ainda encontra novos ouvintes, novas formações e novos palcos. Ao mesmo tempo, essa permanência exige escolhas: como revisitar uma obra sem congelá-la? Como respeitar uma história sem transformar o show em nostalgia pura? Como seguir criando depois de ter participado de um dos maiores fenômenos do rock brasileiro?

    Fernando Deluqui parece responder a essas perguntas com estrada. Em vez de encerrar a história no passado, ele continua tocando, compondo, organizando arquivos, gravando novas músicas e levando o repertório para o palco. A guitarra que ajudou a dar identidade ao RPM segue como fio condutor de uma trajetória que atravessou danceterias, grandes arenas, estúdios, crises, recomeços e novas formações.

    Ao final da conversa, o que fica é a imagem de um artista que não trata sua própria história como arquivo fechado. Deluqui revisita o RPM, os bastidores, os erros e os reencontros com a consciência de quem sabe o peso do passado, mas também com a disposição de seguir colocando a guitarra na estrada.

    Assista à entrevista completa no Francamente e aproveite para curtir, comentar e seguir o programa, fortalecendo as vozes e histórias que passam por essa mesa:

    E, se a conversa despertou vontade de ouvir mais, visite também o canal oficial de RPM – O Legado no YouTube. Por lá, é possível acompanhar essa nova etapa da trajetória de Fernando Deluqui, conhecer a formação atual, ouvir os materiais da banda e seguir de perto os próximos movimentos do projeto:

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  • MOV8 Play reúne documentários, shows e programas da MOV8 Produções

    MOV8 Play reúne documentários, shows e programas da MOV8 Produções

    Plataforma organiza conteúdos ligados à cultura, à memória regional, à música brasileira e à produção audiovisual independente, com acesso gratuito pelo site.

    A MOV8 Produções acaba de reunir parte de sua trajetória audiovisual em um novo espaço digital: o MOV8 Play. Disponível no site da produtora, a plataforma reúne documentários, shows, entrevistas, programas e registros de projetos culturais produzidos, dirigidos, geridos, distribuídos ou realizados em diferentes momentos da história da MOV8 e de sua idealizadora, Tainan Franco.

    A plataforma funciona como um acervo audiovisual em movimento. A proposta é facilitar o acesso do público a conteúdos que antes estavam dispersos em diferentes canais, páginas e fases de produção, criando uma navegação mais organizada para quem deseja conhecer ou revisitar programas, documentários, shows e projetos culturais.

    Com acesso gratuito pelo site da MOV8, a plataforma combina curadoria própria, organização visual e integração com o YouTube. Assim, o público pode assistir aos conteúdos de forma simples, em diferentes dispositivos, como computador, tablet e celular, sem necessidade de aplicativo, cadastro ou assinatura.

    “O MOV8 Play nasce para dar nova circulação a produções que contam parte da nossa história e também da história cultural da região. São conteúdos que passaram por diferentes formatos e projetos, mas que agora podem ser vistos juntos”, afirma Tainan Franco, fundadora da MOV8.

    Uma trajetória que passa pela televisão regional, pela web TV e pelos projetos culturais

    O acervo do MOV8 Play reúne produções próprias e conteúdos ligados de diferentes formas à trajetória da MOV8 — da direção e do roteiro à produção executiva, gestão de projetos, captação, distribuição e circulação audiovisual.

    Parte importante desse percurso tem relação com a antiga Rede Paulista de Televisão, emissora regional que foi afiliada à TV Cultura e à TV Brasil em Jundiaí e marcou uma fase significativa da produção audiovisual local. Foi nesse ambiente que Tainan Franco atuou por anos no departamento de projetos, participando da realização de documentários, curtas, programas de TV e conteúdos voltados à memória, à cultura e à identidade da região.

    A presença desse material também vai além da história da produtora: é uma forma de preservar e recolocar em circulação o trabalho de artistas, produtores, roteiristas, apresentadores, diretores, equipes técnicas e profissionais que fizeram parte dessas realizações.

    Entre os conteúdos ligados a esse período estão documentários como Caminho dos Bandeirantes e Imigrantes, que integram o acervo e aparecem entre os materiais de maior interesse do público.

    Também estão disponíveis programas do Canal 8, web TV criada pela MOV8, em parceria de Tainan Franco com Renato Janczur Klovrza, e voltada à produção de programas e conteúdos independentes. Ativa entre 2014 e 2016, a iniciativa surgiu em um momento em que a ideia de uma programação audiovisual feita para a internet ainda precisava ser explicada a anunciantes, parceiros e público.

    Hoje, quando podcasts, produtoras, marcas e plataformas investem cada vez mais em programas próprios e distribuição digital, o Canal 8 pode ser visto como uma experiência pioneira dentro da realidade regional em que foi criado. Agora, parte dessa produção retorna como integrante do acervo do MOV8 Play. Entre os programas em destaque está o Culturando, programa de entrevistas sobre a cena cultural da região.

    Música MOV: shows, entrevistas e alcance nacional

    Entre os destaques do MOV8 Play está o Festival Música MOV, que reuniu shows e entrevistas com 16 artistas de diferentes gerações, cenas e linguagens da música brasileira.

    A programação passou pelo rap, trap, pop, rock, música instrumental, MPB, soul, R&B e novas cenas independentes. Entre os artistas participantes estão Helião, Yung Buda, Érika Martins, Arismar do Espírito Santo, Fernanda Porto, Roberta Campos, Nila Branco, Felipe Flip, Katú Mirim, GAVI, Renan Cavolik e nomes da cena regional.

    Os conteúdos foram disponibilizados no YouTube e também passaram a integrar o catálogo da Music Box Brazil, com distribuição em plataformas como o Prime Video. Os números ajudam a dimensionar o alcance da iniciativa: o Festival Música MOV já soma mais de 500 mil visualizações no YouTube. Somando YouTube e distribuição pela Music Box Brazil, o projeto ultrapassa a marca de 1 milhão de visualizações em suas diferentes janelas de exibição.

    Programa Francamente e outros projetos

    O MOV8 Play também reúne conteúdos ligados ao Programa Francamente, apresentado por Tainan Franco, que em seu oitavo ano de existência já se consolidou como espaço de entrevistas com artistas, bandas, produtores, agentes culturais e personagens da cena independente.

    O acervo também inclui documentários, programas, projetos executados por meio de leis de fomento, conteúdos realizados em parceria e produções distribuídas pela MOV8. Em alguns casos, a atuação da produtora está na realização direta. Em outros, passa pela produção executiva, gestão, captação, distribuição ou apoio à circulação.

    Essa diversidade é parte da proposta do MOV8 Play: reunir conteúdos que ajudam a contar uma história audiovisual construída em múltiplas frentes.

    Acervo, memória e circulação

    Ao organizar produções de diferentes fases em um único ambiente digital, o MOV8 Play reforça uma das marcas da atuação da MOV8: pensar o audiovisual como forma de ampliar o alcance dos projetos culturais, formar memória e alcançar novas audiências.

    Com isso, o MOV8 Play transforma registros, entrevistas, shows e documentários em um acervo vivo, aberto ao público e disponível para novas formas de circulação.

    A plataforma pode ser acessada gratuitamente pelo site da MOV8:
    mov8.com.br/play/

  • Festival de Música de Jundiaí abre inscrições para artistas da região

    Festival de Música de Jundiaí abre inscrições para artistas da região

    Com inscrições gratuitas até 31 de julho, a quinta edição do festival seleciona compositores, intérpretes e músicos instrumentistas da Região Metropolitana de Jundiaí. As apresentações acontecem em outubro, no Centro das Artes.

    Artistas da Região Metropolitana de Jundiaí já podem se inscrever no 5º Festival de Música de Jundiaí (promovido pela Secretaria Municipal de Cultura). A seleção é voltada a compositores, cantores e músicos instrumentistas residentes em Jundiaí, Cabreúva, Campo Limpo Paulista, Itupeva, Jarinu, Louveira e Várzea Paulista.

    As inscrições são gratuitas e seguem até 31 de julho de 2026. Os selecionados se apresentam entre os dias 1º e 4 de outubro, no Centro das Artes — Sala Glória Rocha, em Jundiaí, com entrada gratuita para o público.

    Abaixo, o Portal MOV8 reúne alguns pontos de atenção para quem pretende participar. A matéria tem caráter informativo e busca facilitar a leitura do edital, mas não substitui o regulamento oficial publicado pela Secretaria Municipal de Cultura de Jundiaí. Em caso de dúvida, valem sempre as informações do edital e dos canais oficiais.

    Quem pode participar

    O festival é dividido em três módulos.

    No módulo de compositores, serão selecionadas 12 músicas autorais inéditas, sem restrição de gênero musical. Cada compositor selecionado receberá premiação de R$ 1.000,00 e deverá apresentar a música inscrita ao vivo.

    No módulo de cantores, serão selecionados 12 intérpretes, amadores ou profissionais, para cantar músicas já existentes, de livre escolha. Cada selecionado receberá R$ 750,00. O edital prevê que ao menos seis vagas sejam destinadas a jovens regularmente matriculados na rede pública ou privada de ensino.

    Já o módulo de músicos profissionais selecionará quatro instrumentistas para formar a banda de apoio do festival: guitarra/violão, contrabaixo elétrico, bateria e teclado. Cada músico selecionado receberá R$ 2.000,00. Entre eles, um será indicado como arranjador e receberá premiação extra de R$ 1.500,00.

    Para compositores e músicos da banda de apoio, é necessário ter 18 anos completos até o fim das inscrições. Para cantores, podem participar artistas a partir de 14 anos. O edital não permite que o mesmo proponente se inscreva em mais de um módulo.

    O que preparar antes da inscrição

    Cada módulo pede materiais diferentes. Por isso, vale ler o edital completo antes de preencher o formulário.

    Compositores devem informar dados da música, como título, duração, gênero, letra digitada no caso de canção e gravação em áudio. Quem optar pela banda de apoio também deve enviar arranjos escritos com partitura e/ou letra com cifras digitalizadas.

    Cantores devem enviar um vídeo simples, feito no celular, sem edições ou efeitos, cantando a música na íntegra. O vídeo deve estar hospedado no Google Drive.

    Músicos interessados na banda de apoio devem informar o instrumento, indicar se têm interesse em atuar como arranjador e enviar links ou vídeos de atuação musical. O edital também permite o envio de portfólio, currículo ou outras documentações de atuação artística.

    Na prática, a inscrição exige atenção aos detalhes: links funcionando, arquivos acessíveis, informações conferidas e materiais organizados antes do envio.

    Como será a seleção

    Todos os inscritos serão avaliados por uma Comissão de Análise Técnica a partir do áudio e/ou vídeo enviado na inscrição. A qualidade do material enviado é responsabilidade do próprio proponente.

    No módulo de compositores, os critérios serão criatividade e originalidade, qualidade artística, qualidade técnica e interpretação.

    Para cantores, serão avaliadas qualidade artística, qualidade técnica — como afinação e ritmo — e interpretação.

    Para músicos da banda de apoio, os critérios serão qualidade técnica, histórico, formação e experiência, além de versatilidade.

    Proponentes com nota final inferior a 5 serão desclassificados.

    Documentos e prazos

    As inscrições devem ser feitas por formulário online até 31 de julho. O edital recomenda que o proponente faça capturas de tela durante o preenchimento e envio da inscrição, além de guardar a confirmação automática recebida após o envio do formulário.

    Somente os selecionados precisarão enviar documentos complementares na etapa de habilitação. Entre eles, estão RG e CPF, comprovante de endereço de 2026, declaração de matrícula para cantores que concorrerem às vagas reservadas a estudantes e autorização dos responsáveis no caso de menores de idade.

    O cronograma prevê publicação dos selecionados em 14 de agosto, etapa de habilitação entre 24 e 28 de agosto e divulgação do resultado final em 11 de setembro. As apresentações acontecem de 1º a 4 de outubro.

    Leia o edital completo

    Para quem atua com música na região, o Festival de Música de Jundiaí pode ser uma boa oportunidade de circulação e apresentação. Mas, como em outros editais e chamamentos públicos, participar exige atenção às regras.

    Antes de se inscrever, confira o regulamento completo, separe os materiais necessários, teste os links de áudio e vídeo, organize os documentos e guarde os comprovantes do processo.

    O edital completo e o formulário de inscrição estão disponíveis no site oficial da Cultura de Jundiaí, na página de Editais e Regulamentos: cultura.jundiai.sp.gov.br/editais-e-regulamentos/

  • Arte também é trabalho: como editais culturais impulsionam a profissionalização dos artistas

    Arte também é trabalho: como editais culturais impulsionam a profissionalização dos artistas

    Ao exigir documentos, portfólio e planejamento, editais como a PNAB revelam um desafio importante: fortalecer a autonomia profissional dos artistas sem transformar o acesso à cultura em barreira burocrática.

    O artista já trabalha — mesmo antes do edital

    Muitos artistas, produtores, coletivos e agentes culturais constroem trajetórias longas antes de acessar qualquer edital público. Organizam apresentações, ensaios, oficinas, intervenções, shows, exposições, rodas, festas, saraus, formações e ações comunitárias. Mobilizam públicos, ocupam espaços, criam linguagens, mantêm tradições, experimentam formatos e movimentam cenas locais.

    Nem sempre, porém, esse trabalho aparece organizado como “trajetória profissional”. Muitas vezes, a produção cultural acontece de forma contínua, mas sem portfólio atualizado, registros bem guardados, documentos reunidos, currículo artístico estruturado ou planejamento formalizado. O artista trabalha, mas nem sempre possui meios de apresentar esse trabalho em uma linguagem reconhecida pelos instrumentos de fomento.

    É aí que editais como os da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, a PNAB, produzem um efeito importante: tornar visível uma dimensão muitas vezes invisível do trabalho cultural – a necessidade de organização, documentação, planejamento e apresentação pública da própria trajetória.

    Quando a criação encontra a burocracia

    Para participar de um edital, não basta ter uma boa ideia. É preciso explicar o que será feito, por que a proposta é relevante, onde ela será realizada, quem será beneficiado, qual será a equipe envolvida, quanto custará cada etapa, qual será o cronograma, como o projeto será divulgado e de que forma seus resultados serão comprovados.

    Essa exigência pode parecer distante da criação artística, mas faz parte da realidade do fomento público. Quando há recurso público envolvido, é necessário que existam critérios objetivos, documentação, transparência e acompanhamento. O desafio está em fazer com que esses procedimentos fortaleçam o trabalho cultural, e não afastem justamente aqueles que a política deveria alcançar.

    Esse ponto aparece nos próprios modelos oficiais da PNAB. Nos materiais de orientação do Ciclo 2 disponibilizados pelo Ministério da Cultura, há formulários de inscrição, plano de trabalho, critérios de avaliação, termo de execução cultural, relatório de execução de objeto e declarações específicas para coletivos sem CNPJ. Ou seja, o fomento cultural não se limita à seleção de uma ideia artística: ele também exige que o agente cultural saiba apresentar sua proposta e, principalmente, saiba organizar sua documentação e comprovar a realização do que foi pactuado.

    Nesse sentido, os editais revelam uma tensão importante. De um lado, estimulam artistas e coletivos a se organizarem melhor. De outro, podem criar barreiras para quem tem menos familiaridade com formulários, documentos, sistemas digitais e linguagem administrativa.

    Por isso, discutir a profissionalização dos artistas não significa simplesmente dizer que cada agente cultural deve “se adequar” sozinho. Significa reconhecer que o campo cultural precisa de mais autonomia, mas também de editais mais claros, acessíveis e compatíveis com a diversidade das formas de produção cultural existentes no país.

    Documentação também é autonomia

    Ter documentos em dia, portfólio organizado e registros de trajetória não deve ser visto apenas como exigência burocrática. Para artistas e coletivos, isso também é ferramenta de autonomia.

    Um portfólio bem construído ajuda a contar uma história. Registros fotográficos, vídeos, matérias, certificados, declarações, releases, clippings e publicações em redes sociais podem demonstrar que determinada prática cultural existe, tem continuidade, alcança pessoas e produz sentido no território.

    Da mesma forma, documentos básicos, dados bancários, comprovantes, cadastros e formas de representação coletiva permitem acessar editais, firmar contratos, receber pagamentos, emitir notas quando necessário e comprovar a realização de atividades.

    Quando artistas organizam sua documentação, eles não estão apenas se preparando para um edital específico. Estão fortalecendo sua presença profissional diante de instituições públicas, empresas, centros culturais, produtores, patrocinadores e outros parceiros.

    A PNAB como escola prática de profissionalização

    A PNAB colocou muitos artistas diante dessa realidade de forma concreta. Em vários municípios, agentes culturais que nunca haviam participado de editais passaram a lidar com chamadas públicas, formulários, critérios de avaliação, comprovantes de trajetória, planos de trabalho, termos de execução cultural e relatórios de realização.

    Esse processo pode ser difícil, especialmente para quem sempre produziu cultura a partir da prática cotidiana, da oralidade, da coletividade, da informalidade ou de redes locais de confiança. Ao mesmo tempo, ele pode abrir caminhos. O artista que aprende a escrever um projeto, organizar um orçamento, comprovar sua trajetória e registrar suas ações passa a ter mais condições de acessar outras oportunidades.

    A profissionalização, nesse sentido, não deve ser entendida como uma forma de engessar a arte. Ela pode ser uma maneira de proteger o trabalho artístico da precariedade, da improvisação permanente e da desvalorização.

    Afinal, arte exige tempo, estudo, pesquisa, técnica, deslocamento, materiais, equipamentos, equipe, comunicação, registro e continuidade. Quando esses elementos são nomeados e organizados, fica mais difícil tratar a cultura como favor, passatempo ou atividade secundária.

    Profissionalizar não é transformar todo artista em empresa

    É importante fazer uma distinção. Profissionalizar a cultura não significa obrigar todo artista a agir como empresa, nem reduzir a criação a planilhas, metas e relatórios. Também não significa apagar formas comunitárias, tradicionais, populares, coletivas ou informais de produção cultural.

    O risco existe: quando a linguagem dos editais se torna excessivamente técnica, quando as exigências documentais são desproporcionais ou quando os sistemas de inscrição são pouco acessíveis, quem já tem mais experiência institucional tende a sair na frente. Nesse caso, o edital pode reforçar desigualdades, em vez de combatê-las.

    Esse equilíbrio também aparece no debate jurídico recente sobre o fomento cultural. A Lei nº 14.903/2024 estabelece um marco regulatório específico para o fomento à cultura no âmbito da administração pública da União, dos estados, do Distrito Federal e dos municípios. Esse ponto é importante porque reconhece que a cultura precisa de regras públicas, transparência e responsabilidade, mas também de instrumentos próprios, compatíveis com a natureza do trabalho artístico e cultural.

    Por isso, a profissionalização dos artistas precisa caminhar junto com a responsabilidade do poder público. Editais culturais devem ter linguagem clara, critérios objetivos, prazos adequados, canais de atendimento, plantões de dúvida, busca ativa, acessibilidade e instrumentos compatíveis com diferentes realidades.

    Um coletivo periférico, uma mestra da cultura popular, um grupo tradicional, uma banda independente, um artista visual, uma produtora cultural, um ponto de cultura e uma pessoa física em início de trajetória não se relacionam da mesma forma com a burocracia. Uma política pública cultural precisa reconhecer essas diferenças.

    O edital também precisa aprender com a cultura

    Se artistas precisam aprender a lidar com editais, os editais também precisam aprender a lidar com os artistas.

    Essa talvez seja uma das principais lições trazidas por políticas amplas de fomento, como a PNAB. A cultura brasileira é diversa demais para caber em um único modelo de formulário, em uma única forma de comprovação ou em uma única ideia de trajetória profissional.

    Há artistas que comprovam sua atuação por meio de matérias publicadas. Outros, por vídeos de apresentações. Outros, por declarações de comunidades, registros em redes sociais, certificados de participação, cartazes, fotografias, programas de eventos, depoimentos ou reconhecimento territorial.

    Reconhecer essa diversidade não significa abrir mão da responsabilidade pública. Significa construir instrumentos mais inteligentes, capazes de garantir transparência sem eliminar a complexidade do campo cultural.

    A boa política de fomento é aquela que consegue equilibrar duas necessidades: proteger o uso do recurso público e facilitar o acesso de quem efetivamente produz cultura.

    Arte é trabalho — e trabalho precisa ser reconhecido

    No fundo, a discussão sobre documentos, portfólio, projeto e prestação de contas aponta para uma questão maior: arte é trabalho.

    Essa afirmação parece simples, mas ainda precisa ser repetida. O trabalho cultural envolve criação, mas também envolve planejamento, administração e cuidado. Muitas vezes, envolve também riscos financeiros, instabilidade, ausência de remuneração adequada e acúmulo de funções.

    Desde 1980, a UNESCO possui uma recomendação específica sobre a condição do artista, chamando os Estados a melhorar o status profissional, social e econômico dos artistas por meio de políticas relacionadas à formação, seguridade social, emprego, renda, tributação, mobilidade e liberdade de expressão. A existência desse documento mostra que reconhecer artistas como trabalhadores da cultura é uma preocupação internacional, ligada à garantia de direitos, condições materiais e liberdade criativa.

    Outros relatórios recentes da UNESCO sobre políticas para a criatividade também reforçam a importância de tratar a cultura como bem público global. Essa perspectiva amplia a leitura dos editais: eles não são apenas mecanismos administrativos, mas instrumentos que podem fortalecer ecossistemas culturais, melhorar condições de trabalho e ampliar a diversidade das expressões culturais.

    Re|shaping policies for creativity: addressing culture as a global public good. https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000380474

    Quando um artista organiza sua trajetória, ele também reivindica reconhecimento. Mostra que sua produção não surgiu do nada, que há continuidade, pesquisa, dedicação e relação com públicos e territórios.

    Nesse sentido, editais culturais podem ter um papel formativo. Eles ajudam a consolidar uma percepção mais profissional do campo cultural. Não porque a arte precise pedir licença à burocracia para existir, mas porque o acesso a direitos, recursos e políticas públicas exige que o trabalho artístico também seja apresentado como trabalho.

    Entre a criação e o recurso

    Editais como os da PNAB revelam um desafio duplo. De um lado, artistas, produtores e coletivos precisam fortalecer sua organização profissional: manter documentos em dia, registrar atividades, estruturar portfólios, compreender orçamentos, planejar ações e prestar contas do que realizam.

    De outro, o poder público precisa garantir que essa exigência de organização não se transforme em barreira de exclusão. Acesso democrático ao fomento cultural depende de editais compreensíveis, atendimento qualificado, critérios transparentes e respeito às diferentes formas de fazer cultura.

    A profissionalização do artista não deve matar a liberdade criativa. Pelo contrário: pode criar condições para que essa liberdade tenha mais sustentação material, mais reconhecimento público e mais possibilidades de continuidade.

    Entre a criação e o recurso, existe uma etapa decisiva: aprender a apresentar o próprio trabalho como trabalho. Quando isso acontece, as exigências documentais dos editais deixam de ser apenas uma obrigação burocrática e pode se tornar uma ferramenta de autonomia para artistas, coletivos e agentes culturais.

  • PNAB: a segunda leva já começou — mas o primeiro ciclo precisa virar dado

    PNAB: a segunda leva já começou — mas o primeiro ciclo precisa virar dado

    Com novos repasses, editais e planos em andamento, a Política Nacional Aldir Blanc entra em uma nova etapa. Para que cumpra seu papel estruturante, os aprendizados do primeiro ciclo precisam se transformar em indicadores, transparência e melhores decisões públicas.

    A Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, conhecida como PNAB, é uma das mais importantes políticas públicas de financiamento continuado da cultura no Brasil. Instituída pela Lei nº 14.399/2022, ela foi criada para apoiar estados, Distrito Federal e municípios no fomento a ações, projetos, programas e iniciativas culturais em todo o país. Ao longo de cinco anos, a política prevê o repasse de R$ 3 bilhões anuais da União aos demais entes federativos, totalizando R$ 15 bilhões de investimento público no período de 2023 a 2027.

    Uma política continuada para a cultura

    Mas a PNAB não funciona como uma simples transferência automática de recursos. Para receber os valores, estados, Distrito Federal e municípios precisam cumprir etapas de adesão, planejamento e execução. Entre elas estão a apresentação de planos de ação, a organização de planos anuais de aplicação dos recursos, a realização de processos de escuta e participação social, a publicação de instrumentos de fomento, a execução dos recursos e a prestação de contas.

    Essas exigências são parte central da política. Elas indicam que a PNAB não foi criada apenas para fazer dinheiro chegar aos municípios, mas para fortalecer a cultura como política pública planejada, acompanhada e continuada. O recurso importa, evidentemente. Mas, no desenho da PNAB, ele vem acompanhado de uma pergunta maior: que estrutura pública será capaz de transformar esse recurso em desenvolvimento cultural nos territórios?

    A segunda leva e a pergunta que precisa ser feita

    É por isso que o segundo ciclo da PNAB não deve ser visto apenas como “mais uma verba” ou “mais uma rodada de editais”. A nova etapa recoloca uma questão fundamental: o que o primeiro ciclo já nos ensinou? A resposta a essa pergunta depende de dados.

    No primeiro ciclo, os municípios foram colocados diante de uma tarefa nova e complexa: elaborar planos, organizar consultas públicas, publicar editais, definir critérios, orientar agentes culturais, analisar documentos, contratar pareceristas, acompanhar projetos, executar pagamentos e prestar contas. Em alguns lugares, esse processo encontrou equipes mais experientes e estruturas já consolidadas. Em outros, revelou dificuldades administrativas, limites de comunicação, baixa familiaridade com instrumentos de fomento e pouca capacidade de acompanhamento.

    Essas diferenças dizem respeito à capacidade de execução da própria política. Quando observadas com atenção, elas ajudam a compreender por que alguns municípios avançaram mais rapidamente, por que outros tiveram mais dificuldade, quais etapas concentraram maiores entraves e que tipos de apoio poderiam qualificar os próximos ciclos.

    Mas os dados do primeiro ciclo não se limitam à execução administrativa. Eles também podem revelar o alcance estrutural da PNAB: quais territórios conseguiram acessar melhor os recursos, quais linguagens foram mais contempladas, que perfis de agentes culturais participaram, que grupos ficaram de fora, que modelos de edital funcionaram melhor e que obstáculos apareceram com mais frequência.

    Quando a execução vira indicador

    A importância desse acompanhamento já aparece nas próprias orientações oficiais. O Ministério da Cultura publicou normas e guias voltados ao monitoramento e à avaliação dos resultados da PNAB, incluindo orientações para que estados, municípios e Distrito Federal organizem informações sobre execução, instrumentos de fomento, agentes culturais contemplados e ações realizadas.

    Esse movimento é decisivo. Uma política continuada não se fortalece apenas quando o recurso chega. Ela se fortalece quando o país aprende a observar para onde esse recurso foi, quem ele alcançou, que tipo de ação viabilizou e quais efeitos produziu nos territórios.

    Os números iniciais mostram a dimensão do desafio. Segundo relatório do Tribunal de Contas da União, até maio de 2025, estados e municípios haviam utilizado cerca de R$ 1,5 bilhão dos recursos do primeiro ciclo da PNAB, incluindo rendimentos de aplicação financeira. No mesmo período, os saldos em conta somavam R$ 1,7 bilhão, correspondendo a aproximadamente 50,2% dos recursos repassados pelo Ministério da Cultura no primeiro ciclo.

    Esse dado não deve ser lido apenas como índice contábil. Ele abre uma questão de política pública: por que parte significativa dos recursos permaneceu em conta? Houve dificuldade de execução? Os prazos foram insuficientes? Os editais demoraram a ser publicados? Os agentes culturais encontraram barreiras documentais? Faltaram equipes técnicas? Houve problemas de comunicação? As respostas podem variar de município para município, mas só aparecem com clareza quando a execução vira dado.

    Para além da prestação de contas

    O próprio TCU apontou lacunas importantes na formulação, implementação e avaliação da PNAB. Entre os problemas identificados pela auditoria operacional, estão ausência de metas, indicadores e linha de base, falhas de coordenação interfederativa e processos ainda incipientes de monitoramento e avaliação. Para o Tribunal, esses fatores comprometem a orientação da política por resultados.

    Esse diagnóstico reforça uma ideia central: a PNAB precisa produzir mais do que relatórios formais. Precisa produzir memória pública. Não basta saber que editais foram lançados ou que recursos foram pagos. É necessário compreender o que esses editais movimentaram, quem participou, quem ficou de fora, que territórios foram alcançados, que redes foram fortalecidas e que desigualdades permaneceram.

    Dados também mostram quem a política alcança

    A relevância dos dados também aparece quando observamos ações afirmativas e políticas de acesso. Em maio de 2026, o Ministério da Cultura divulgou pesquisa sobre editais publicados por estados, Distrito Federal e capitais entre 2023 e 2025, identificando mais de R$ 800 milhões destinados a ações afirmativas no âmbito da Política Aldir Blanc. O levantamento analisou 496 editais e indicou avanços na implementação de cotas e editais específicos no fomento cultural.

    Fonte: https://www.gov.br/cultura/pt-br/assuntos/noticias/acoes-afirmativas-destinam-mais-de-r-800-milhoes-da-politica-aldir-blanc-aponta-pesquisa-inedita-do-minc (acessado em 27/05/2026).

    Esse tipo de informação ajuda a compreender se a PNAB está chegando a públicos historicamente afastados dos mecanismos de financiamento. Também ajuda a avaliar se os instrumentos de fomento estão contribuindo para descentralizar recursos, ampliar diversidade, fortalecer territórios e reduzir desigualdades de acesso.

    O segundo ciclo como aprendizado público

    Por isso, a segunda leva da PNAB deve ser também uma etapa de aprendizado institucional. O primeiro ciclo colocou a política em funcionamento. O segundo pode mostrar se estados e municípios conseguirão transformar essa experiência em planejamento mais consistente, critérios mais claros, melhor distribuição territorial e maior capacidade de acompanhamento.

    Afinal, um modelo nacional só ganha sentido quando encontra a realidade local. Se os dados mostram baixa participação de determinados grupos, o edital precisa ser revisto. Se mostram concentração de recursos em uma região da cidade, a política precisa buscar descentralização. Se indicam dificuldade documental, a comunicação precisa melhorar. Se revelam baixa execução, prazos, fluxos e equipes precisam ser observados com cuidado.

    A PNAB foi criada para fortalecer a cultura de forma continuada. Para cumprir esse papel, precisa ser acompanhada não apenas como repasse financeiro, mas como processo público de construção de capacidades, redes e políticas culturais nos territórios.

    A segunda leva já começou em muitos municípios. Agora, o desafio é fazer com que ela não repita automaticamente a primeira. O primeiro ciclo precisa virar dado, indicador e aprendizado. Só assim a PNAB poderá fazer aquilo para que foi criada: não apenas distribuir recursos, mas fortalecer a cultura como política pública permanente.