Deafkids lança disco novo e transforma ruído, corpo e futuro em linguagem

Em conversa no Francamente, Mariano fala sobre o novo álbum da banda, as cicatrizes deixadas pela tecnologia, a retomada das turnês e a construção de um som cada vez mais eletrônico e orgânico.

O Deafkids nunca foi uma banda fácil de colocar em uma caixa. Punk, eletrônico, percussivo, industrial, psicodélico, afrolatino, experimental: qualquer definição parece funcionar por alguns segundos, até o som escapar por outro caminho.

De volta ao Francamente, em conversa com Tainan Franco, Mariano falou sobre o novo disco da banda, lançado 29 de maio, depois de um intervalo sem álbum cheio de estúdio desde 2019. No caminho, a conversa passou pela pandemia, pelas turnês internacionais, pelo processo de composição à distância, pelas novas formas de tocar ao vivo e por um mundo atravessado por redes sociais, inteligência artificial, apatia e excesso de ruído.

Duas faixas já estavam na pista antes do lançamento, “Cicatrizes” e “Reflexo”, abrindo caminho para um trabalho que parece levar adiante aquilo que o Deafkids sempre fez: transformar inquietação em som.

Depois da pausa, o movimento

Em 2019, o Deafkids vivia um dos períodos mais ativos de sua trajetória. A banda passou pela Europa, pelos Estados Unidos e pelo Canadá, em uma sequência intensa de shows e projetos. Havia turnês marcadas para 2020, inclusive com previsão de passagem pelo México, mas a pandemia interrompeu o movimento praticamente às vésperas da estrada.

O que veio depois foi um período de reorganização. A banda lançou EPs feitos à distância e também incorporou músicas criadas para o jogo Cyberpunk 2077. Mas ainda faltava um registro que desse conta da nova configuração sonora do grupo.

Esse novo disco surge justamente daí: da vontade de condensar o que mudou desde então. Mudaram os integrantes, os lugares, os instrumentos, as formas de tocar, as camadas eletrônicas, a presença da percussão ao vivo e a relação com o palco.

Eletrônico, orgânico e tocado com o corpo

Mariano define bateria e percussão como seus instrumentos nativos. Mesmo quando está tocando baixo, teclas, efeitos ou outras camadas, é essa lógica rítmica que parece informar seu jeito de fazer música.

No novo disco, essa característica aparece com força. O trabalho é descrito como o álbum mais eletrônico do Deafkids, mas também como um dos mais orgânicos. A contradição é só aparente: muitos sons eletrônicos são tocados humanamente, com instrumentos, controladores, percussões e gestos físicos. Como resume a própria conversa, há ali couro, madeira, metal e plástico.

O resultado é uma música de textura. Uma música que não se organiza pela lógica convencional de verso e refrão, mas por camadas, sinais internos, ciclos, estouros, secagens, crescimentos e cortes. Em vez de conduzir o ouvinte por um caminho previsível, o Deafkids parece criar um ambiente em constante transformação.

É som para ouvir, mas também para tentar entender de onde vem. E talvez por isso o palco seja parte tão importante da experiência: ver o Deafkids ao vivo é também acompanhar uma espécie de investigação visual, tentando descobrir quem está produzindo cada ruído, cada pulso, cada virada.

Cicatrizes do futuro

O título e a ideia de “Cicatrizes do Futuro” aparecem na entrevista como uma chave para compreender o disco. Não se trata apenas das marcas que carregamos do passado, mas também das marcas produzidas por um futuro que já começou a nos atravessar.

Mariano fala das redes sociais, da dependência das plataformas, da inteligência artificial generativa, da deterioração do debate público e da dificuldade crescente de lidar com nuance, ironia, contexto e linguagem. O disco nasce desse mal-estar: um mundo em que estamos cada vez mais indignados, mas também cada vez mais paralisados.

Nesse sentido, o som do Defkids parece incorporar essa tensão na própria forma: ruído, repetição, excesso, quebra, dança, colapso, corpo e máquina convivendo no mesmo espaço.

É como se o disco perguntasse que tipo de marca o futuro já está deixando em nós — e que tipo de resposta ainda conseguimos produzir com o corpo.

Um som que não quer virar algoritmo de si mesmo

Uma das ideias mais fortes da conversa é a recusa de transformar referência em ponto de chegada. Mariano fala sobre música indiana, guinaua do Marrocos, música afrolatina, punk, música industrial e outras tradições não como modelos a serem copiados, mas como tecnologias de criação.

O Deafkids parece se alimentar dessas linguagens sem tentar reproduzi-las de forma decorativa. Há uma espécie de “desrespeito respeitoso”: conhecer o suficiente para poder deslocar, inverter, tensionar e criar outra coisa.

Essa postura ajuda a explicar por que a banda continua soando difícil de classificar mesmo depois de tantos anos. O objetivo não é se tornar homenagem de um gênero, nem repetir a própria fórmula. É seguir atravessando referências até que elas virem outra coisa.

Como aparece na conversa, a banda segue “metendo louco” há 16 anos. E talvez seja justamente aí que esteja sua coerência.

Um disco para um tempo inquieto

O novo álbum do Deafkids chega em um momento em que muita coisa parece pedir simplificação: músicas mais curtas, conteúdos mais rápidos, imagens mais diretas, discursos mais fechados. A banda faz o caminho contrário. Cria um trabalho denso, físico, eletrônico, percussivo e cheio de camadas.

Não é um disco que tenta acalmar o presente. É um disco que assume o atrito. Que transforma a ansiedade do tempo em ritmo, a saturação das redes em ruído e a sensação de futuro danificado em linguagem.

No Francamente, Mariano ajuda a revelar o que há por trás desse som: estrada, pesquisa, improviso, técnica, colaboração, política, tecnologia e uma vontade contínua de não deixar a música se acomodar.

O Deafkids volta com um álbum cheio, mas sem voltar ao mesmo lugar. O que retorna é o movimento.

Assista aqui:

Siga pelo Portal MOV8 para conhecer outras histórias, conversas e ideias que movimentam a cultura.