Nabil Bonduki: quando urbanismo também é cidadania

Em entrevista ao Francamente, arquiteto, urbanista, professor e político falou sobre habitação, mobilidade, participação popular, espaços públicos e os desafios de construir cidades mais justas e sustentáveis.

Falar de cidade é falar da vida cotidiana. Da casa onde se mora, do ônibus que se pega, da escola que fica perto ou longe, da praça que existe ou desaparece, da água que chega ou falta, do tempo perdido no trânsito e das escolhas públicas que moldam tudo isso.

Foi por esse caminho que passou a conversa de Tainan Franco com Nabil Bonduki no Francamente, gravada nos estúdios da MOV8 Produções durante passagem do arquiteto e urbanista por Jundiaí. Professor titular da USP, escritor, vencedor do Prêmio Jabuti e vereador em São Paulo, Nabil construiu uma trajetória que aproxima pesquisa acadêmica, atuação profissional e política pública.

Na entrevista, ele conta que essa relação começou ainda nos anos 1970, quando entrou na FAU-USP e passou a se aproximar da realidade concreta das cidades: o patrimônio histórico, a autoconstrução nas periferias, os movimentos sociais de moradia e os debates sobre habitação de interesse social.

Abertura da Virada Cultural 2016. Fonte: Wikipedia.

“Para mim, essas coisas não se separam muito”, afirma Nabil, ao falar da relação entre academia, profissão e política. Essa ideia atravessa toda a conversa: urbanismo, para ele, não é apenas desenho urbano ou planejamento técnico, mas uma forma de disputar o modo como a cidade organiza oportunidades, direitos e desigualdades.

Da periferia sem infraestrutura à nova crise urbana

Ao lembrar suas pesquisas nas periferias de São Paulo nos anos 1970, Nabil descreve um cenário em que muitos bairros ainda tinham “terra e casa semiacabada”, sem pavimentação, esgoto, água ou iluminação pública. Eram áreas formadas por trabalhadores que chegavam à cidade em busca de moradia e condições mínimas de vida.

Cinco décadas depois, parte dessas demandas foi conquistada, muitas vezes pela luta dos próprios bairros e movimentos populares. Mas isso não significa que os problemas tenham desaparecido. Eles mudaram de forma.

Hoje, além da moradia e da infraestrutura básica, entram com força temas como mobilidade, crise climática, acesso à cultura, equipamentos públicos, áreas verdes, saneamento, segurança hídrica e qualidade de vida. Para Nabil, as cidades melhoraram em muitos aspectos, mas ainda carregam desigualdades profundas e agora precisam responder também aos impactos ambientais.

Em vez de cidades pensadas para caminhar, conviver e aproximar serviços, muitas políticas urbanas priorizaram o automóvel, o alargamento de vias e a expansão horizontal. Nabil defende outro caminho: cidades mais compactas, com melhor aproveitamento de áreas já consolidadas, imóveis vazios e terrenos ociosos, em vez da expansão constante para regiões distantes e sem infraestrutura.

Plano diretor, participação e cidade de 15 minutos

Um dos pontos centrais da entrevista é o papel do plano diretor. Para Nabil, ele deveria ser entendido como um instrumento de médio e longo prazo para discutir “a cidade que nós queremos” diante dos desafios atuais.

Isso inclui repensar a mobilidade, fortalecer o transporte coletivo, incentivar deslocamentos a pé e de bicicleta e aproximar moradia, trabalho, educação, saúde e cultura. Ele cita a ideia da cidade de 15 minutos, em que parte importante das necessidades cotidianas possa ser atendida perto de casa.

Mas esse tipo de transformação exige participação real da população. Não basta abrir audiências públicas formais se as pessoas não compreendem o que está em jogo. A entrevista chama atenção justamente para esse ponto: participar da cidade também exige informação, formação política e acesso a debates que muitas vezes ficam restritos a especialistas.

Nesse sentido, a conversa aproxima urbanismo e cidadania. Entender o plano diretor, a habitação social, a mobilidade urbana e o uso dos espaços públicos é também entender para onde vai o dinheiro público, quem ganha com certas decisões e quem fica de fora delas.

Parques, espaços públicos e pertencimento

A entrevista também passa pela privatização e concessão de parques e áreas públicas. Para Nabil, a ideia de que o Estado não tem condições de cuidar desses espaços precisa ser enfrentada com mais cuidado. Ele reconhece que há diferentes formas de gestão, inclusive com participação comunitária, mas critica quando o espaço público vira simplesmente modelo de negócio.

Parques, praças e áreas verdes não são apenas lugares de lazer. São espaços de convivência, saúde, pertencimento e contato com a natureza. Quando começam a ser cercados por interesses comerciais, publicidade, cobrança indireta e eventos privados, a fruição pública pode ser prejudicada.

Na conversa, Tainan lembra que entrar em um parque pode até ser gratuito, mas permanecer e usufruir plenamente daquele espaço nem sempre é. Esse ponto sintetiza bem a discussão: o problema não está apenas no acesso formal, mas na qualidade da experiência pública e na garantia de que a cidade continue sendo de todos.

Quando a cidade vira aposta

Outro tema que atravessa a entrevista é a expansão das bets e sua presença cada vez maior no esporte, na publicidade e nos eventos. Nabil comenta um projeto apresentado em São Paulo para impedir que a prefeitura patrocine ou se envolva em eventos financiados por empresas de apostas.

Para ele, as bets exploram a sensação de falta de mobilidade social. Vendem a promessa de mudança de vida rápida em um país onde muitas famílias convivem com renda baixa, endividamento e frustração. A crítica aparece como parte de uma reflexão maior sobre consumo, cidade e desesperança: quando a ascensão pelo trabalho parece bloqueada, a aposta se apresenta como atalho.

Cultura, comunicação e política pública

A conversa também chega à cultura. Ao falar das leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc, Tainan e Nabil comentam a importância da descentralização de recursos, mas também a necessidade de diretrizes, fiscalização e políticas de Estado mais consistentes.

A comparação com o SUS aparece como horizonte: um sistema nacional de cultura (o “SUS da Cultura”) capaz de organizar repasses, critérios, acompanhamento e responsabilidades. Para quem trabalha com produção cultural, essa discussão é decisiva. Sem regras claras e participação social, recursos podem ser mal distribuídos, concentrados ou usados sem compromisso com políticas culturais duradouras.

No fim da entrevista, Nabil destaca também o papel da comunicação. Em um tempo de fake news, cortes rápidos e disputa permanente de narrativa, espaços de conversa qualificada se tornam ainda mais importantes.

A própria entrevista mostra isso. Ao falar de habitação, mobilidade, meio ambiente, cultura, participação popular e democracia, o Francamente busca transformar temas aparentemente técnicos em conversa acessível, sem esvaziar sua complexidade.

Jundiaí também está nessa conversa

Foto aérea de Jundiaí. Fonte: site da Prefeitura de Jundiaí.

Embora muitos exemplos venham de São Paulo, a entrevista toca diretamente Jundiaí e outras cidades médias brasileiras. Problemas antes associados às grandes capitais já aparecem com força em municípios do interior: trânsito, pressão imobiliária, falta de água, expansão urbana, desigualdade no acesso a equipamentos públicos e disputa pelos espaços verdes.

Jundiaí já não pode ser pensada apenas como uma “cidade do interior” isolada desses processos. Ela faz parte de uma dinâmica metropolitana mais ampla, inclusive como moradia de pessoas que trabalham em São Paulo e buscam melhor qualidade de vida. Como observa Nabil, “Jundiaí hoje também é moradia de muita gente que trabalha em São Paulo” e, apesar dos problemas, “tem uma qualidade de vida muito boa” para quem vem de uma realidade mais estressante da capital. Por isso, discutir planejamento urbano, sustentabilidade e participação popular é uma urgência concreta.

A entrevista com Nabil Bonduki lembra que a cidade não acontece por acaso. Ela é resultado de escolhas, disputas, leis, interesses econômicos e formas de participação. Pensar a cidade é perguntar quem pode morar bem, circular com dignidade, acessar cultura, viver perto dos serviços essenciais e ocupar os espaços públicos sem que tudo vire mercadoria.

No fim, a pergunta que fica é simples: que cidade queremos construir?

Assista à entrevista completa no Francamente e acompanhe o Portal MOV8 para conhecer outras conversas, ideias e debates que ajudam a pensar cultura, cidadania e vida pública.