Leci Brandão: quando samba e compromisso caminham juntos

Durante passagem por Jundiaí, Leci Brandão esteve no Francamente para uma conversa sobre música, memória popular, espiritualidade, atuação parlamentar e a responsabilidade de cantar o Brasil profundo.

Poucas trajetórias na cultura brasileira atravessam tantos territórios quanto a de Leci Brandão. Cantora, compositora, sambista, mulher negra, artista popular e deputada estadual, ela construiu uma obra em que música e compromisso social nunca caminharam separados. Suas canções falam de comunidade, desigualdade, respeito, religiosidade, afeto, cotidiano e luta — temas que, mais tarde, também se tornariam parte de sua atuação política.

Em passagem por Jundiaí, antes de show esgotado no Sesc Jundiaí, Leci esteve no Francamente, em conversa com Tainan Franco, para revisitar capítulos importantes de sua vida. A entrevista atravessou a infância no Rio de Janeiro, a entrada no samba, a relação com São Paulo, o início da carreira fonográfica, a pausa nos anos 1980, o retorno com “Zé do Caroço”, a chegada à política institucional e a forma como ela mantém, até hoje, a simplicidade como princípio.

Leci Brandão no Francamente, com Tainan Franco.

Embora nascida no Rio de Janeiro e profundamente ligada à Mangueira, foi em São Paulo que sua primeira gravadora abriu caminho para registros fundamentais de sua carreira. Ela lembra a importância da gravadora Marcus Pereira, do produtor Sérgio Cabral e dos espaços que ajudaram a aproximá-la de nomes centrais do samba brasileiro.

Na conversa, Leci recorda também o ambiente do Teatro Opinião, onde conviveu com artistas como Dona Ivone Lara, Cartola, Nelson Sargento, Clara Nunes e Beth Carvalho. Essa rede de encontros ajuda a dimensionar a força de uma artista que não apenas entrou na história do samba, mas também abriu caminho dentro dela: Leci foi a primeira mulher a integrar a ala de compositores da Estação Primeira de Mangueira.

Uma obra feita de vivência

A entrevista mostra que o compromisso de Leci veio de sua própria história. Filha de Dona Lecy, servente de escola pública, ela cresceu em contato direto com a realidade de quem trabalha, luta e depende da estrutura pública mais básica para viver com dignidade — escola, saúde, saneamento, moradia, e outros direitos que deveriam sustentar a vida cotidiana. Ao relembrar a infância, as escolas onde morou e as salas de aula que ajudou a varrer, Leci aponta a mãe como a grande referência de sua formação humana — uma base que atravessa sua obra, sua conduta e sua presença pública.

“A educação que eu tenho foi minha mãe, dona Lecy, servente de escola pública, que me ajudou na minha formação principal de educação, a forma como eu trato as pessoas, a minha forma de vida, o meu comportamento.”

Essa dimensão aparece em músicas como As Coisas que Mamãe me Ensinou e também em sua leitura sobre o Brasil.

Para Leci, falar de saúde, educação, moradia, cultura e igualdade não é favor nem abstração. É falar das condições mínimas para que as pessoas possam existir com dignidade.

“Zé do Caroço” e a força da memória popular

A conversa também passa por “Zé do Caroço”, uma das músicas mais conhecidas do repertório de Leci. Composta em 1978, a canção só foi gravada por ela em 1985, em um disco que marcou sua retomada fonográfica depois de um período difícil, quando o teor social de suas composições também limitava as oportunidades nas gravadoras.

Na entrevista, Leci conta que não pensou em abandonar a música, mas se entristeceu ao não enxergar caminhos para continuar gravando. O convite da gravadora Copacabana mudou esse cenário e permitiu que “Zé do Caroço” chegasse ao registro que se tornaria um dos grandes marcos de seu repertório.

Ao falar do personagem do Morro do Pau da Bandeira, Leci registrou uma forma comunitária de comunicação, crítica e mobilização. Como observa Tainan na entrevista, há histórias que, quando não entram na arte, correm o risco de desaparecer da memória coletiva. Em Leci, o samba guarda aquilo que o Brasil muitas vezes tenta esquecer.

Da arte à política

Antes de se tornar deputada estadual, Leci atuou em conselhos ligados às políticas para mulheres e à igualdade racial, no governo federal. Depois, recebeu o convite para disputar uma eleição em São Paulo.

A decisão de aceitar o convite passou por sua espiritualidade e pela compreensão de que aquele poderia ser outro caminho para falar das mesmas coisas que já apareciam em sua arte. A política, nesse sentido, surge como nova forma de compromisso: um espaço para transformar em ação pública aquilo que, durante décadas, ela cantou.

Eleita pela primeira vez em 2010, com posse em 2011, Leci se tornou a segunda mulher negra eleita deputada estadual na história da Assembleia Legislativa de São Paulo. Desde então, construiu uma trajetória parlamentar marcada por pautas ligadas à cultura, educação, combate ao racismo, direitos humanos, mulheres, diversidade, economia solidária e respeito às populações historicamente excluídas.

Na entrevista, ela conta que, ao receber o chamado para a política, revisitou seus próprios discos para entender se havia coerência entre o que cantava e o que poderia fazer como parlamentar. A resposta estava ali: sua atuação política precisaria ser fiel às causas já presentes em sua obra.

Respeito como princípio

Leci volta, na conversa, muitas vezes ao ensinamento da mãe e à importância de tratar as pessoas com dignidade, independentemente de cargo, partido, religião, origem ou posição social. Mesmo falando de política em um tempo marcado por violência verbal e falta de diálogo, ela afirma que não se permite ofender, porque também não quer ser ofendida.

Para ela, a simplicidade é uma forma de não se afastar de onde veio. Ao falar dos trabalhadores de limpeza e serviços gerais, Leci diz que enxerga a própria mãe nos corredores da Assembleia Legislativa. Essa frase ajuda a entender por que sua atuação política não se separa de sua memória pessoal: cada pauta carrega uma história, e cada história carrega um compromisso.

“Você tem que entender que está ali por escolha do povo, que você tem um compromisso com as pessoas simples. Porque eu sou uma pessoa simples.”

Palco, fé e compromisso

Mesmo com quatro mandatos parlamentares, Leci segue artista. Na entrevista, ela fala do palco com naturalidade: comenta o carinho pelo público do Sesc, a relação de respeito com a banda que a acompanha e a espiritualidade que orienta sua preparação. Sem grandes exigências ou rituais complexos, diz que pede proteção a Deus e aos seus guias de luz para que o show aconteça bem.

Aos 81 anos, prestes a completar 82 em setembro, Leci mantém no palco a mesma base que atravessa sua vida pública: simplicidade, respeito e compromisso com as pessoas. São mais de cinco décadas de carreira, dezenas de registros, sambas, discursos, memórias e encontros que atravessam a história recente do país.

Por isso, ouvir Leci Brandão é reencontrar uma parte importante do Brasil — não o Brasil dos discursos prontos, mas o Brasil das escolas públicas, dos morros, dos sambas, das mães trabalhadoras, das comunidades, dos palcos e das lutas cotidianas. No Francamente, ela aparece como aquilo que sempre foi: uma voz popular que transformou vivência em música, música em consciência e consciência em ação.

Assista à entrevista completa no Francamente e aproveite para curtir, comentar e seguir o programa, fortalecendo as vozes e histórias que passam por essa mesa:

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