Em conversa no Francamente, banda fala sobre lançamento de álbum, resistência preta, espiritualidade, composição coletiva e a faixa “Respeita os Nego… Véio!”
Há bandas que nascem de um projeto musical. Outras nascem de uma urgência. A Ki’MBANDA parece ocupar os dois lugares ao mesmo tempo: é som, é manifesto, é encontro, é tambor, é rock, é espiritualidade, é memória e é também uma resposta direta a uma pergunta que atravessa a história da música brasileira: quem tem o direito de ocupar o palco do rock?
Formada por Henrique Krispim, o Krisx, no vocal; Yves Remont, na guitarra; Rogério Luís, o Menudo, no baixo; Marcos Guarujá e Anderson Kafé, na percussão; Igor Mamuth, na bateria; e Nissa e Mayra Costa nos backing vocals, a Ki’MBANDA esteve no Francamente representada por Krisx, Rogério Menudo e Anderson Kafé, em conversa conduzida por Tainan Franco, nos estúdios da MOV8 Produções.

Na conversa, a banda falou sobre o lançamento de seu álbum, definido como um manifesto de afro rock, ancestralidade e resistência. Gravado “ao vivo e sem filtros”, o trabalho reforça a identidade do grupo, que usa o rock como ferramenta de combate ao racismo, ao apagamento cultural e ao etarismo na música brasileira.
Um quilombo musical
A história da banda começa em torno de uma mesa, em uma conversa que misturava amizade e música, além do desejo da criação de uma banda de rock formada por homens pretos. O nome Ki’MBANDA, conforme explica Krisx, é associado à ideia de cura, e a banda passa a se definir como um espaço em que o rock se encontra com ancestralidade, espiritualidade e resistência.
A Ki’MBANDA se entende como um “quilombo musical”, expressão que aparece na entrevista para explicar o modo como o grupo cria, decide e se organiza. Não há apenas um líder que determina tudo. Cada músico traz sua história, sua escuta, sua técnica, sua vivência e sua responsabilidade dentro do coletivo.
Essa ideia aparece também no processo de composição. Durante a pandemia, parte das músicas foi surgindo à distância, em trocas por WhatsApp, com bases, ideias, letras e arranjos circulando entre os integrantes. Quando os ensaios voltaram, já havia uma massa criativa em ebulição. A banda fala desse processo como algo coletivo, generoso, em que a vaidade precisa ceder espaço para que a música cresça.
Na Ki’MBANDA, uma letra pode nascer de um integrante, o riff de outro, a levada de outro, mas a música só se completa quando passa pelo corpo inteiro da banda.
O tambor na frente da história
Se o rock é muitas vezes associado à guitarra, à bateria e ao peso elétrico, a Ki’MBANDA desloca esse centro. Na conversa, a banda afirma que tudo ali passa pelo tambor. A guitarra é tambor. O baixo é tambor. A bateria é tambor. A voz também é percussiva.
Essa concepção dá ao som da banda uma identidade própria: peso, swing, ritualidade e presença. A percussão não aparece como adorno, nem como camada decorativa colocada por cima do rock. Ela conduz. Em certo momento, a banda chega a dizer que os tambores da Ki’MBANDA são como os “violinos” da orquestra: estão à frente da história.
É nessa escolha estética que o afro rock da Ki’MBANDA se afirma politicamente. A banda não apenas mistura gêneros. Ela reposiciona a escuta. Coloca no centro aquilo que muitas vezes foi tratado como margem: o terreiro, o tambor, a ancestralidade preta, as referências afro-brasileiras e a força coletiva da música.
Rock também é território preto
Um dos pontos mais fortes da entrevista é a afirmação de que o rock também é preto. A conversa passa por referências como blues, samba, baião, Sepultura, Gangrena Gasosa, Gilberto Gil, Baden Powell, Nação Zumbi e tantas outras misturas que mostram como a música brasileira sempre foi atravessada por encontros, apagamentos e disputas de narrativa.
A Ki’MBANDA se coloca dentro dessa linhagem, mas também aponta uma ausência: no rock nacional, ainda há pouco espaço para bandas que assumam, de forma frontal, a ancestralidade afro-brasileira, os orixás, o tambor e a experiência preta como matéria central da criação.
Por isso, quando a banda diz “afro é rock, afro é pop, afro é tudo”, não está apenas criando uma boa frase. Está recusando a ideia de que a cultura preta deva ocupar apenas determinados gêneros ou lugares previamente autorizados.
“Respeita os Nego… Véio!”
Entre os temas da entrevista está a faixa inédita “Respeita os Nego… Véio!”, que aparece como síntese bem-humorada e contundente de uma questão importante: a presença de músicos pretos mais velhos em uma cena que muitas vezes valoriza apenas a juventude, a novidade e a aparência de frescor.
A faixa conversa com o etarismo, mas também com a experiência acumulada. A Ki’MBANDA não nasce de jovens tentando descobrir uma identidade de palco. Ela nasce de músicos que já atravessaram muitas noites, muitos trabalhos, muitas formações, muitos palcos possíveis e impossíveis.
Essa maturidade aparece na forma como a banda fala de si. Não há ingenuidade sobre o mercado, nem romantização das dificuldades. Há consciência de que música também exige estratégia, estudo, produção, comunicação, presença e trabalho contínuo.
Fé, corpo e linguagem
Outro aspecto importante da conversa é a presença da espiritualidade. A Ki’MBANDA fala de orixás, de terreiro, de ancestralidade e de fundamentos sem transformar isso em exotismo. A espiritualidade aparece como parte da vida, da criação e da linguagem da banda.
Essa dimensão dá ao trabalho uma força que vai além do discurso. A Ki’MBANDA não apenas canta sobre ancestralidade. Ela tenta fazer com que a ancestralidade esteja na estrutura da música: no compasso, no peso, na levada, na voz, na percussão e na presença de palco.
Uma conversa com peso e riso
A entrevista no Francamente tem algo que combina muito com a própria Ki’MBANDA: alterna densidade e riso sem pedir desculpas por isso. Fala de racismo, escravidão, apagamento histórico, indústria cultural e resistência, mas também passa por piadas, histórias de bastidor, provocações e cumplicidade.
A Ki’MBANDA ocupa o rock com tambor, guitarra, fé, corpo e memória. E, ao fazer isso, lembra que a música brasileira ainda tem muitos espaços a reconhecer, muitas histórias a reparar e muitos palcos a abrir.
Assista à entrevista no Youtube!
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