Luis Reys transforma música em viagem, escuta e encontro

Criador do “Music es un Voyage” esteve no Francamente para falar sobre educação musical, Austrália e encontros com artistas ao redor do mundo.

A música entrou na vida de Luis Reys primeiro como admiração. Fã de artistas como Humberto Gessinger, ele cresceu olhando para bandas, discos e guitarras como quem enxerga um mundo distante. Não vinha de uma família de músicos, nem descreve sua relação com a música como algo “natural”. Ao contrário: no Francamente, em conversa com Tainan Franco, Luís conta que precisou escolher estudar, insistir e construir esse caminho com método.

Essa relação mais racional com a música acabou revelando outro talento: o de ensinar. Depois de estudar no Conservatório Souza Lima e fazer bacharelado em guitarra, Luís se tornou professor no mesmo lugar onde havia sido aluno. Também atuou no Programa Vocacional, da Prefeitura de São Paulo, experiência que marcou profundamente sua visão sobre educação musical.

No Vocacional, ele encontrou um jeito de trabalhar que ia além da aula tradicional. Em vez de levar uma fórmula pronta para os territórios, o projeto buscava entender o que já existia em cada comunidade: bandas, grupos, repertórios, desejos e formas próprias de ocupação cultural. Luís relembra com carinho a experiência no CEU Guarapiranga, onde uma banda local passou a assumir aulas, organizar encontros e transformar o espaço público em lugar de pertencimento.

Esse olhar para a música como ferramenta de encontro seguiu com ele quando decidiu ir para a Austrália, em 2015, para fazer mestrado. A mudança nasceu de uma oportunidade quase inesperada, mas acabou abrindo um período de dez anos fora do Brasil. Lá, Luis passou a pesquisar criatividade, composição e educação musical, interessado em usar a criação como parte do processo de aprendizagem.

A Austrália também mudou sua relação com o mundo. Ao conviver com músicos de diferentes países, Luís começou a aceitar convites: Coreia, Japão, África, China, Rússia e outros destinos entraram no mapa. Aos poucos, aquilo que poderia virar uma pesquisa acadêmica ganhou outro formato. Incentivado pelo produtor Robert Regonati, no Japão, ele começou a gravar encontros com músicos e publicar esses registros no YouTube. Nascia ali o caminho que daria forma ao Music es un Voyage.

A proposta é simples e poderosa: viajar, encontrar músicos, conversar, tocar e descobrir como a música vive em cada lugar. Ao longo do processo, Luís percebeu que, apesar das diferenças de língua, comida, religião, política ou costumes, muitos artistas compartilham desejos parecidos. O sonho de viver de música, o medo de não conseguir pagar as contas, a vontade de criar e a busca por reconhecimento aparecem em diferentes países, com sotaques distintos, mas com uma humanidade comum.

Alguns encontros viraram histórias improváveis. Na Austrália, Luis chegou a tocar na Sydney Opera House a convite de um saxofonista coreano apaixonado por Tom Jobim, vivendo a emoção de representar a música brasileira em um dos palcos mais simbólicos do mundo. Na Rússia, encontrou uma banda que traduzia músicas da Tropicália para o russo e tocava Caetano Veloso em Moscou. Na China, se surpreendeu ao ouvir músicos dizendo que viviam de música com naturalidade, algo que contrastava com respostas encontradas em muitos outros países.

Mais do que uma coleção de viagens, a trajetória de Luis Reys revela uma escolha de escuta. Em vez de olhar para o outro como exótico ou distante, ele se aproxima pela música. Pergunta, observa, toca, aprende e se deixa transformar. Como aparece na conversa, talvez o projeto não tenha mudado o mundo inteiro — mas mudou o próprio viajante. E, quando alguém muda a forma de escutar, alguma coisa no mundo também se desloca.

No Francamente, Luis Reys mostra que música pode ser carreira, aula, pesquisa, viagem, ponte e encontro. Pode ser também um jeito de atravessar fronteiras sem apagar diferenças. Uma forma de lembrar que, antes de qualquer rótulo, há sempre alguém tentando encontrar seu lugar no mundo através de uma canção.

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