Categoria: Programa Francamente

  • Aury Porto e o teatro como memória viva

    Aury Porto e o teatro como memória viva

    Em conversa no Francamente, ator, diretor e dramaturgo fala sobre trajetória, Teatro Oficina, “Meu Nome, Mamãe” e o podcast Perdigoto.

    Há artistas que falam de teatro como profissão. Outros falam como quem fala de uma forma de existir. Aury Porto parece estar mais perto desse segundo grupo. Ator, diretor, dramaturgo e ativista cultural, ele esteve no Francamente, em conversa com Tainan Franco, para revisitar uma trajetória marcada por deslocamentos, encontros, processos coletivos e uma relação profunda com a memória.

    Nascido no Ceará, Aury conta que o teatro apareceu cedo, embora não fosse um caminho óbvio em sua família. Vindo de um ambiente ligado à roça, à terra e aos animais, ele reconhece hoje pequenas sementes artísticas espalhadas pela própria história familiar: o avô que sabia longos poemas de cor, a memória dos “dramas” encenados por mulheres no sertão, o gosto pela novidade herdado do pai. Antes de virar profissão, a arte já estava ali como modo de narrar, cantar, e olhar o mundo.

    A chegada a São Paulo, em 1987, foi decisiva. Aury diz ter sentido que a cidade era sua casa. Em pouco tempo, encontrou sua geração teatral, participou de montagens importantes e passou a construir uma carreira atravessada por experiências coletivas. Mais tarde, com a Mundana Companhia, criada ao lado de Luah Guimarãez, consolidou uma forma de trabalho aberta, horizontal e mutável, capaz de se reorganizar a partir de cada projeto.

    Um dos momentos mais marcantes da conversa é a lembrança do Teatro Oficina e da montagem de Os Sertões, de Euclides da Cunha. Aury conta que a ideia de montar a obra no Oficina passou por ele e chegou a Zé Celso, iniciando um processo que se estendeu por anos e resultou em cinco espetáculos: A Terra, O Homem I, O Homem II, A Luta I e A Luta II. Ao todo, foram cerca de 25 horas de teatro – uma travessia artística, física e política.

    Mas o centro mais sensível da entrevista está em Meu Nome, Mamãe, espetáculo em que Aury leva ao palco sua relação com a mãe, que vive com Alzheimer há muitos anos. Ele conta que, durante muito tempo, resistiu à ideia de transformar essa experiência em cena. Era preciso encontrar o ponto em que uma história íntima pudesse se comunicar com outras pessoas, sem virar apenas exposição privada.

    Esse ponto apareceu quando a peça passou a dialogar com uma questão coletiva: o envelhecimento da sociedade brasileira. A partir daí, a relação entre mãe e filho se tornou também uma reflexão sobre cuidado, memória, velhice, linguagem e presença.

    A dramaturgia de Meu Nome, Mamãe nasce da autoficção. Os fatos são reais, mas a cena reorganiza acontecimentos, desloca tempos e cria uma estrutura mais próxima da forma como a memória se comporta. Aury fala do Alzheimer como uma espécie de roteiro surrealista: lembranças se misturam, tempos se atravessam, palavras escapam e outros modos de comunicação aparecem. O teatro, então, surge como espaço para acolher aquilo que já não cabe na lógica comum da fala.

    A dimensão sonora também é importante na peça. Aury lembra que esta dimensão é uma das últimas memórias a se perder. Por isso, a sonoplastia parte de referências afetivas da mãe, especialmente Roberto Carlos e Luiz Gonzaga. A música entra como acesso a uma memória que ainda pulsa.

    Na conversa, Aury também fala do Perdigoto, podcast dedicado à memória do teatro brasileiro. Com 25 episódios já realizados, o projeto busca registrar histórias de artistas de diferentes regiões do país, fugindo da centralização no eixo Rio-São Paulo. Para Aury, ouvir o teatro feito em outros lugares é reencontrar o Brasil em suas vozes, sotaques, invenções e formas de resistência.

    Entre o Ceará e São Paulo, entre o Oficina e a Mundana, entre a mãe e a cena, Aury Porto reafirma o teatro como lugar de memória viva. Uma arte que não serve apenas para distrair, mas para provocar, elaborar, reunir e devolver às pessoas novas formas de sentir o tempo.

    Assista no Youtube.

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  • IARAH: a jovem voz do rock que aprendeu a cantar a própria história

    IARAH: a jovem voz do rock que aprendeu a cantar a própria história

    Em conversa no Francamente, artista fala sobre infância no palco, amadurecimento vocal, oportunidades internacionais e a nova fase autoral em português.

    Antes de transformar suas próprias histórias em música, Iarah aprendeu a habitar o palco por muitos caminhos. Foi criança fã de Kiss, aluna de teatro musical, voz em formação na School of Rock, finalista de programa de TV, além de artista selecionada para uma oportunidade ligada a um dos maiores programas de talentos dos Estados Unidos. No Francamente, em conversa com Tainan Franco, ela revisita essas histórias com humor, sinceridade e uma maturidade que não apaga a leveza de quem ainda está construindo a própria trajetória.

    Da “Iarinha Kiss” à School of Rock

    A relação de Iarah com o rock começou ainda na infância. Aos quatro anos, ela já era fã de Kiss, frequentava a 89 Rádio Rock e chegou a ganhar o apelido de “Iarinha Kiss”. Na entrevista, ela conta histórias que parecem roteiro de filme: vinheta gravada na rádio, ida ao show da banda ainda criança e até aniversário infantil com banda cover de Kiss.

    Iarinha – fonte: Yotube (https://youtu.be/bozjVQSuBO8)

    Antes de assumir a música como caminho principal, ela passou pela publicidade, pelo teatro e pelo teatro musical. Essas experiências ajudaram a construir presença de palco, projeção vocal e familiaridade com a performance.

    Em 2019, entrou na School of Rock, inicialmente por causa de uma montagem do musical School of Rock. A ideia era aprender baixo para um teste, mas a escola acabou se tornando decisiva em sua trajetória musical. Foi ali que ela se descobriu melhor como cantora, percebeu a força dos graves de sua voz e precisou reaprender o equilíbrio entre potência, técnica e cuidado vocal.

    Técnica, palco e televisão

    A entrevista mostra uma artista jovem, mas muito consciente de que cantar exige trabalho. Iarah fala sobre estudo vocal, respiração, belting, extensão, graves, agudos e o cuidado necessário para não transformar potência em excesso de peso na voz.

    Esse amadurecimento também passou pela televisão. Depois de tentar diferentes programas musicais, ela chegou ao Canta Comigo Teen, onde levantou os 100 jurados em uma das apresentações e chegou à final. A experiência não terminou com a vitória, mas abriu portas, rendeu entrevistas e novas oportunidades.

    No programa, Iarah também se aproximou de nomes ligados ao rock e ao metal, como Bruno Sutter, citado com carinho na conversa — e no episódio contado a seguir.

    A viagem que quase foi

    Selecionada para o AllStars, programa da School of Rock que reúne alunos de destaque para apresentações nos Estados Unidos, Iarah mobilizou uma campanha para conseguir viajar. Fez vaquinha, movimentou as redes, pediu apoio e conseguiu reunir o valor necessário praticamente na semana da viagem, com apoios que incluíram até uma contribuição de Bruno Sutter.

    Ela embarcou com a mãe, fez escala no Panamá e estava a caminho dos Estados Unidos quando a viagem precisou ser interrompida antes de chegar ao destino. Na entrevista, Iarah conta que o episódio envolveu uma denúncia anônima sobre supostas inconsistências no visto — informação que foi posteriormente desmentida na embaixada, mas que naquele momento foi suficiente para impedir o embarque. A situação também se cruzava com outra oportunidade internacional: a aprovação para o America’s Got Talent.

    A história, contada no Francamente entre frustração e bom humor, ficou como um dos grandes perrengues de uma trajetória ainda jovem, mas já cheia de tentativas, portas abertas e recomeços.

    Do metal em inglês ao pop rock em português

    Durante muito tempo, Iarah imaginou sua carreira autoral ligada ao metal em inglês. Ela chegou a lançar duas músicas nesse estilo, mas uma conversa com o produtor Thiago Bianchi abriu outro caminho.

    Depois de ouvi-la em um contexto da School of Rock, Thiago propôs produzir um álbum e sugeriu uma mudança: em vez de seguir pelo metal em inglês, buscar um caminho mais próximo do pop rock em português.

    Capa de “Não me Olhe assim”, single no Spotify. Fonte: https://open.spotify.com/intl-pt/album/45irmK7pysqP5tnNLBmaYh

    No começo, Iarah resistiu à ideia. O inglês parecia mais próximo das referências que ela consumia e também oferecia certa proteção emocional. Escrever em português, como ela reconhece na entrevista, expõe mais. A língua materna deixa tudo mais direto.

    A transição exigiu tempo. Ela estudou composição, passou pelo Midas Academy, escola de Rick Bonadio, trabalhou melodias, letras e estruturas musicais, até começar a encontrar uma forma mais própria de escrever.

    Cantar em primeira pessoa

    A fase atual de Iarah parece ser menos sobre escolher um rótulo e mais sobre construir uma linguagem. Rock, metal, teatro musical, pop rock e televisão fazem parte de sua formação, mas agora aparecem filtrados por uma busca autoral.

    Na entrevista, ela fala sobre músicas já lançadas, como “Judas”, “Ignorância” e “Não me Olha Assim”, além do próximo lançamento, “Ao Menos Uma Vez”. A nova faixa, segundo ela, fala sobre luto e integra uma sequência de lançamentos que deve formar um álbum.

    O mais interessante é acompanhar esse momento de passagem: Iarah deixa de ser apenas a jovem intérprete de grandes referências para se afirmar como artista que escreve, escolhe, testa caminhos e aprende a cantar a própria história.

    Assista à entrevista no Youtube:

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  • Ki’MBANDA: afro rock, ancestralidade e o direito de ocupar o palco

    Ki’MBANDA: afro rock, ancestralidade e o direito de ocupar o palco

    Em conversa no Francamente, banda fala sobre lançamento de álbum, resistência preta, espiritualidade, composição coletiva e a faixa “Respeita os Nego… Véio!”

    Há bandas que nascem de um projeto musical. Outras nascem de uma urgência. A Ki’MBANDA parece ocupar os dois lugares ao mesmo tempo: é som, é manifesto, é encontro, é tambor, é rock, é espiritualidade, é memória e é também uma resposta direta a uma pergunta que atravessa a história da música brasileira: quem tem o direito de ocupar o palco do rock?

    Formada por Henrique Krispim, o Krisx, no vocal; Yves Remont, na guitarra; Rogério Luís, o Menudo, no baixo; Marcos Guarujá e Anderson Kafé, na percussão; Igor Mamuth, na bateria; e Nissa e Mayra Costa nos backing vocals, a Ki’MBANDA esteve no Francamente representada por Krisx, Rogério Menudo e Anderson Kafé, em conversa conduzida por Tainan Franco, nos estúdios da MOV8 Produções.

    Na conversa, a banda falou sobre o lançamento de seu álbum, definido como um manifesto de afro rock, ancestralidade e resistência. Gravado “ao vivo e sem filtros”, o trabalho reforça a identidade do grupo, que usa o rock como ferramenta de combate ao racismo, ao apagamento cultural e ao etarismo na música brasileira.

    Um quilombo musical

    A história da banda começa em torno de uma mesa, em uma conversa que misturava amizade e música, além do desejo da criação de uma banda de rock formada por homens pretos. O nome Ki’MBANDA, conforme explica Krisx, é associado à ideia de cura, e a banda passa a se definir como um espaço em que o rock se encontra com ancestralidade, espiritualidade e resistência.

    A Ki’MBANDA se entende como um “quilombo musical”, expressão que aparece na entrevista para explicar o modo como o grupo cria, decide e se organiza. Não há apenas um líder que determina tudo. Cada músico traz sua história, sua escuta, sua técnica, sua vivência e sua responsabilidade dentro do coletivo.

    Essa ideia aparece também no processo de composição. Durante a pandemia, parte das músicas foi surgindo à distância, em trocas por WhatsApp, com bases, ideias, letras e arranjos circulando entre os integrantes. Quando os ensaios voltaram, já havia uma massa criativa em ebulição. A banda fala desse processo como algo coletivo, generoso, em que a vaidade precisa ceder espaço para que a música cresça.

    Na Ki’MBANDA, uma letra pode nascer de um integrante, o riff de outro, a levada de outro, mas a música só se completa quando passa pelo corpo inteiro da banda.

    O tambor na frente da história

    Se o rock é muitas vezes associado à guitarra, à bateria e ao peso elétrico, a Ki’MBANDA desloca esse centro. Na conversa, a banda afirma que tudo ali passa pelo tambor. A guitarra é tambor. O baixo é tambor. A bateria é tambor. A voz também é percussiva.

    Essa concepção dá ao som da banda uma identidade própria: peso, swing, ritualidade e presença. A percussão não aparece como adorno, nem como camada decorativa colocada por cima do rock. Ela conduz. Em certo momento, a banda chega a dizer que os tambores da Ki’MBANDA são como os “violinos” da orquestra: estão à frente da história.

    É nessa escolha estética que o afro rock da Ki’MBANDA se afirma politicamente. A banda não apenas mistura gêneros. Ela reposiciona a escuta. Coloca no centro aquilo que muitas vezes foi tratado como margem: o terreiro, o tambor, a ancestralidade preta, as referências afro-brasileiras e a força coletiva da música.

    Rock também é território preto

    Um dos pontos mais fortes da entrevista é a afirmação de que o rock também é preto. A conversa passa por referências como blues, samba, baião, Sepultura, Gangrena Gasosa, Gilberto Gil, Baden Powell, Nação Zumbi e tantas outras misturas que mostram como a música brasileira sempre foi atravessada por encontros, apagamentos e disputas de narrativa.

    A Ki’MBANDA se coloca dentro dessa linhagem, mas também aponta uma ausência: no rock nacional, ainda há pouco espaço para bandas que assumam, de forma frontal, a ancestralidade afro-brasileira, os orixás, o tambor e a experiência preta como matéria central da criação.

    Por isso, quando a banda diz “afro é rock, afro é pop, afro é tudo”, não está apenas criando uma boa frase. Está recusando a ideia de que a cultura preta deva ocupar apenas determinados gêneros ou lugares previamente autorizados.

    “Respeita os Nego… Véio!”

    Entre os temas da entrevista está a faixa inédita “Respeita os Nego… Véio!”, que aparece como síntese bem-humorada e contundente de uma questão importante: a presença de músicos pretos mais velhos em uma cena que muitas vezes valoriza apenas a juventude, a novidade e a aparência de frescor.

    A faixa conversa com o etarismo, mas também com a experiência acumulada. A Ki’MBANDA não nasce de jovens tentando descobrir uma identidade de palco. Ela nasce de músicos que já atravessaram muitas noites, muitos trabalhos, muitas formações, muitos palcos possíveis e impossíveis.

    Essa maturidade aparece na forma como a banda fala de si. Não há ingenuidade sobre o mercado, nem romantização das dificuldades. Há consciência de que música também exige estratégia, estudo, produção, comunicação, presença e trabalho contínuo.

    Fé, corpo e linguagem

    Outro aspecto importante da conversa é a presença da espiritualidade. A Ki’MBANDA fala de orixás, de terreiro, de ancestralidade e de fundamentos sem transformar isso em exotismo. A espiritualidade aparece como parte da vida, da criação e da linguagem da banda.

    Essa dimensão dá ao trabalho uma força que vai além do discurso. A Ki’MBANDA não apenas canta sobre ancestralidade. Ela tenta fazer com que a ancestralidade esteja na estrutura da música: no compasso, no peso, na levada, na voz, na percussão e na presença de palco.

    Uma conversa com peso e riso

    A entrevista no Francamente tem algo que combina muito com a própria Ki’MBANDA: alterna densidade e riso sem pedir desculpas por isso. Fala de racismo, escravidão, apagamento histórico, indústria cultural e resistência, mas também passa por piadas, histórias de bastidor, provocações e cumplicidade.

    A Ki’MBANDA ocupa o rock com tambor, guitarra, fé, corpo e memória. E, ao fazer isso, lembra que a música brasileira ainda tem muitos espaços a reconhecer, muitas histórias a reparar e muitos palcos a abrir.

    Assista à entrevista no Youtube!

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  • De Jundiaí a Berlim: Teko Porã leva o cotidiano Guarani ao cinema internacional

    De Jundiaí a Berlim: Teko Porã leva o cotidiano Guarani ao cinema internacional

    Premiado no Berlin Women Cinema Festival, o documentário foi tema de conversa no Francamente com a diretora Luciana Alves e o diretor de fotografia Claudio Alves.

    O documentário “Teko Porã: Retrato Atual da Vida Cotidiana na Aldeia Guarani Rio Silveira” ganhou reconhecimento internacional ao ser premiado na 15ª edição do Berlin Women Cinema Festival, realizado em Berlim.

    Gravado na Aldeia Rio Silveira, localizada entre Bertioga e São Sebastião, no litoral norte paulista, o longa apresenta um retrato atual do cotidiano Guarani Mbya. Com direção da jornalista Luciana Alves, codireção do Cacique Adolfo Timoteo e fotografia de Claudio Alves, a produção aproxima o público de diferentes gerações, saberes, tradições e transformações vividas dentro da aldeia.

    Antes da premiação internacional, Luciana e Claudio participaram de uma conversa no Francamente, com Tainan Franco. Na entrevista os dois falaram sobre o processo de criação do documentário, a construção de confiança com a comunidade, os desafios de filmar sem impor um olhar externo e a importância das políticas públicas para que histórias como essa possam circular.

    Uma aldeia a menos de três horas de São Paulo

    Um dos pontos mais fortes da conversa é a surpresa provocada pela localização da aldeia. Durante as gravações, Luciana conta que muitas pessoas, ao verem as imagens nas redes sociais, perguntavam se a equipe estava no Xingu ou na Amazônia. A resposta causava estranhamento: a filmagem acontecia no litoral de São Paulo, a cerca de duas horas e meia da capital.

    Esse dado revela uma das camadas centrais de Teko Porã. A cultura Guarani Mbya está próxima geograficamente, mas permanece distante do imaginário de grande parte da população. A aldeia Rio Silveira faz parte de um território indígena que abriga cinco aldeias e se estende até áreas de Mata Atlântica próximas a regiões turísticas do litoral paulista.

    Filmar no ritmo da aldeia

    Ao longo de mais de um ano, a equipe realizou cerca de 20 diárias de gravação. O processo, segundo Luciana e Claudio, exigiu tempo, presença e respeito. A cada nova visita, a relação com a comunidade se aprofundava um pouco mais. Algumas portas se abriam; outras permaneciam fechadas. E isso também fazia parte do filme.

    Luciana conta que, desde o início, percebeu a importância de acompanhar o ritmo da aldeia. Havia dias em que a equipe chegava com expectativa de filmar mais, de aproveitar uma luz bonita ou de seguir determinada ideia de roteiro, mas a própria dinâmica da comunidade indicava outro caminho. Em alguns momentos, a gravação terminava antes do previsto. Em outros, a câmera precisava ficar desligada.

    Assim, o filme observa, acompanha e acolhe aquilo que a comunidade aceita mostrar. A diretora chegou a dizer, na entrevista, que desejava ter entrado mais no cotidiano das casas e das famílias, mas entendeu que o limite imposto pelos moradores precisava ser respeitado.

    O resultado é um documentário construído menos pela pressa da produção e mais pela maturação do vínculo.

    Entre dois mundos

    A conversa também passa por uma questão essencial: o modo como os Guarani Mbya retratados no filme vivem entre tradições preservadas e pressões do mundo contemporâneo.

    Na aldeia, há celular, escola, compras no mercado, venda de artesanato e contato constante com a sociedade não indígena. Ao mesmo tempo, seguem presentes a língua Guarani, a espiritualidade, os cantos, a casa de reza, o respeito às lideranças e uma relação com o território muito diferente daquela que predomina nas cidades.

    Luciana menciona uma imagem emblemática do documentário: um indígena com o cachimbo em uma mão e o celular na outra. A força dessa cena está justamente em romper com estereótipos. O uso da tecnologia não anula a identidade indígena. A presença do celular não apaga a tradição. O que aparece ali é a complexidade de uma cultura viva, atravessada pelo presente, sem deixar de carregar sua ancestralidade.

    Território, memória e sobrevivência

    Em outro momento da entrevista, Tainan, Luciana e Claudio falam sobre a pressão da especulação imobiliária no litoral norte paulista. A aldeia está situada em uma região de grande interesse econômico, próxima a áreas turísticas e condomínios de alto padrão. Para a comunidade, no entanto, aquele território não representa uma mercadoria. Representa continuidade.

    A terra, para os Guarani Mbya retratados no documentário, está ligada à vida cotidiana, à espiritualidade, à alimentação, à memória e à permanência coletiva. Preservar a mata é preservar um modo de vida.

    Por isso, o filme também dialoga com uma discussão mais ampla sobre meio ambiente, desenvolvimento e formas de habitar o mundo. Ao entrar em contato com a aldeia, a equipe se deparou com outra relação com o tempo, com o trabalho, com o alimento, com a coletividade e com o espaço comum.

    Claudio comenta, na entrevista, como a experiência alterou seu próprio olhar. A lógica da produtividade, tão presente na vida urbana, perde força diante de um cotidiano em que o dia pode seguir outro ritmo. Há planejamento, tarefas e responsabilidades, mas há também uma disponibilidade diferente para o tempo, para a convivência e para aquilo que acontece.

    A imagem como aproximação

    A fotografia é um dos elementos centrais do documentário. Claudio Alves explica que a intenção não era apenas registrar belas imagens da aldeia, da mata e do litoral, mas fazer com que o público pudesse sentir a atmosfera daquele lugar.

    As imagens de drone revelam a dimensão do território. Os detalhes da luz, das folhas, dos animais, das crianças e dos olhares durante as entrevistas ajudam a construir uma experiência mais sensível. O filme também valoriza os sons da aldeia: a floresta, os cantos, os ruídos do cotidiano e até os sinais da presença do mundo externo, como o carro do gás e o vendedor de sorvete.

    A trilha sonora segue esse princípio. As músicas foram gravadas na própria aldeia, executadas pelos indígenas. A escolha reforça o compromisso de dar protagonismo à comunidade retratada.

    Luciana afirma que decidiu não conduzir o filme com uma locução explicativa. Preferiu ampliar a voz dos próprios indígenas, permitindo que o espectador se aproximasse da aldeia a partir das falas, dos gestos, dos silêncios e das cenas do cotidiano.

    Política pública também conta histórias

    Teko Porã foi realizado com apoio do Programa de Ação Cultural (ProAC), da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativa do Estado de São Paulo, com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) e do Sistema Nacional de Cultura do Ministério da Cultura.

    Projetos como esse movimentam profissionais do audiovisual, da produção, da fotografia, do som, da montagem, da comunicação e da assessoria. Também geram renda para a própria comunidade envolvida, já que indígenas participaram do processo como intérpretes, produtores e coordenadores locais.

    Mas a dimensão econômica é apenas uma parte da história. O filme mostra como o investimento em cultura pode criar pontes entre mundos que, apesar de próximos, seguem separados por desconhecimento, preconceito e invisibilidade.

    Da aldeia à tela

    Antes do lançamento oficial em Jundiaí, realizado em 29 de abril na Sala de Cinema São Paulo–Minas, no Espaço Expressa, o documentário teve uma apresentação especial na própria aldeia Rio Silveira, em 17 de abril, durante a Semana dos Povos Indígenas.

    Esse primeiro encontro da comunidade com sua imagem na tela carrega um significado particular. O filme retorna ao território antes de circular para outros públicos. Depois, chega a Jundiaí. Agora, com a premiação em Berlim, amplia seu alcance internacional.

    Ao levar a aldeia Rio Silveira para as telas, o documentário também nos devolve uma pergunta: quanto ainda desconhecemos sobre os povos, territórios e modos de vida que existem tão perto de nós?

    No Francamente, Luciana Alves e Claudio Alves ajudam a responder parte dessa pergunta. E o prêmio em Berlim confirma que essa história, nascida no encontro entre a Mata Atlântica, a cultura Guarani Mbya e o audiovisual brasileiro, tem força para atravessar fronteiras. Assista à entrevista:

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  • Festa Italiana de Jundiaí: padre Giuseppe relembra as origens da tradição

    Festa Italiana de Jundiaí: padre Giuseppe relembra as origens da tradição

    Em sua 38ª edição, a Festa Italiana de Jundiaí marca uma história que começou com fé, imigração, trabalho voluntário e o desejo de uma comunidade voltar a se reunir.

    Antes de ser uma das festas mais tradicionais de Jundiaí, a Festa Italiana foi uma ideia compartilhada à mesa da comunidade. Antes de reunir milhares de pessoas em torno da massa, da polenta, do vinho, da música e das receitas de família, ela nasceu da inquietação local de “movimentar novamente a Colônia”, fortalecer seus encontros e celebrar uma herança que já fazia parte da vida daquele território.

    No centro dessa história está o padre Giuseppe Bortolato, um dos nomes ligados à origem da festa. Italiano de nascimento, brasileiro por trajetória e jundiaiense por afeto, padre Giuseppe esteve em 2024 no Programa Francamente, com Tainan Franco, em entrevista gravada no contexto da divulgação da festa daquele ano. A conversa acabou se tornando também um registro precioso da memória da Festa Italiana de Jundiaí, da vida comunitária da Colônia e de sua própria história — e aproveitamos para deixar aqui o convite para ele voltar ao Francamente este ano!

    Padre Giuseppe em entrevista ao Francamente, com Tainan Franco – 2024.

    Nascido nas redondezas de Veneza, no período de fim da Segunda Guerra Mundial, Giuseppe entrou no seminário ainda criança, aos 12 anos. Na conversa, contou que sua vocação nasceu em um tempo no qual a igreja ocupava lugar central na vida das pequenas comunidades. Era espaço de fé, mas também de convivência, juventude, música, esporte, festas e formação humana.

    Ordenado padre em 1971, veio ao Brasil como missionário de uma congregação dedicada aos migrantes. E sua primeira destinação foi justamente Jundiaí, no Bairro da Colônia — território marcado pela presença italiana e pela memória das famílias que ajudaram a construir a cidade.

    Ao longo da vida, padre Giuseppe passou também por Santo André, Rio de Janeiro, São Paulo e São Bernardo do Campo. Trabalhou com comunidades paroquiais, migrantes, pessoas em situação de vulnerabilidade e até com a pastoral carcerária. Em todos esses lugares, sua atuação parece ter seguido a mesma intuição: a de que a missão religiosa também se realiza no acolhimento, na escuta e na reconstrução dos laços comunitários.

    Foi ao retornar a Jundiaí, na segunda metade dos anos 1980, que essa história se encontrou com a origem da Festa Italiana. Na entrevista, padre Giuseppe lembra que 1987 foi “o ano da virada”. Ao voltar para a mesma igreja e para o mesmo seminário da Colônia, encontrou “pessoas fantásticas” que traziam a “ideia de fazer uma festa inspirada nas tradicionais festas italianas de São Paulo” (como as de San Gennaro e Nossa Senhora Achiropita). Segundo ele conta, a ideia “casou”. Dentre estas pessoas está Alfredo Paoletti – empresário filho de italianos.

    Foi em 1988, ano em que se comemorou o centenário da imigração italiana em Jundiaí, que a primeira edição ocorreu. A festa nasceu no bairro, ao redor da Paróquia Sagrado Coração de Jesus, com participação direta de lideranças locais, famílias, voluntários e da própria comunidade. No começo, tudo era mais simples. A festa acontecia nas ruas próximas à igreja, no salão paroquial e nos espaços disponíveis da comunidade. Mas o que poderia ter sido apenas uma pequena confraternização local rapidamente ganhou outra dimensão. Como contou padre Giuseppe a Tainan, a Colônia estava sem as antigas quermesses, a comunidade parecia um pouco parada, e havia uma grande vontade de “fazer alguma coisa”. A resposta veio maior do que o esperado: e a cidade toda abraçou a festa.

    Com o passar dos anos, a Festa Italiana cresceu, ganhou estrutura, público, patrocinadores, visibilidade regional e lugar no calendário cultural de Jundiaí. Mas sua força continuou ligada ao mesmo ponto de origem: o Bairro Colônia. Não por acaso, padre Giuseppe sempre defendeu que a festa permanecesse ali, onde nasceu. Para ele, sua identidade estava no vínculo com o território, com a paróquia, com as famílias e com a memória comunitária.

    Fotos de voluntários da Festa Italiana (créditos: Tamires Neves)

    É justamente por isso que a Festa Italiana atravessa gerações. Ela não é apenas uma celebração da gastronomia italiana, embora a comida seja parte essencial da experiência. É também uma festa de pertencimento. Uma festa feita por voluntários, por famílias, por jovens, adultos, casais, descendentes de italianos e pessoas que, mesmo sem origem italiana, reconhecem na Colônia um pedaço afetivo de Jundiaí.

    Na entrevista, padre Giuseppe resume essa ideia ao dizer que o verdadeiro lucro da festa é a comunidade que se une, cresce, participa e vive feliz aquele momento. A arrecadação ajuda nas necessidades da igreja e em ações comunitárias, mas o sentido mais profundo da festa está na mobilização das pessoas.

    Em 2026, a Festa Italiana de Jundiaí chega à sua 38ª edição.

    A abertura acontece no dia 16 de maio, com jantar no salão da Paróquia Sagrado Coração de Jesus (cujos ingressos, como todos os anos, se esgotaram rapidamente). Já a festa na Praça José Orlandi, com entrada gratuita, será realizada nos dias 23, 24, 30 e 31 de maio, e 6, 7, 13 e 14 de junho, aos sábados, das 18h às 22h, e aos domingos, das 11h às 16h.

    O público encontrará pratos tradicionais como macarrão, nhoque, risoto, lasanha, frango, polenta, focaccia, crustuli, doces e bebidas, além de apresentações musicais e o ambiente familiar que se tornou marca da festa ao longo das décadas. Na conversa com Tainan (realizada em 2024), que você pode conferir na íntegra no link abaixo, padre Giuseppe disse que a Colônia ainda conserva um “cheiro de colônia”, uma marca feita de família, espiritualidade, trabalho e valores comunitários.

    A festa nasceu na Colônia, mas há muito tempo pertence a todas as pessoas de Jundiaí.

  • Reforma agrária é sobre comida, clima e futuro

    Reforma agrária é sobre comida, clima e futuro

    No Francamente, Gilmar Mauro amplia o debate sobre terra, alimentação e os desafios ambientais do Brasil.

    Falar em reforma agrária ainda provoca, no Brasil, uma reação imediata. Para muita gente, o tema parece distante, restrito ao campo ou aos movimentos rurais. Mas essa talvez seja uma leitura pequena demais para um problema que atravessa a história, a economia, a alimentação e o meio ambiente.

    A forma como um país organiza seu território define muito mais do que quem planta e quem colhe. Define o que chega à mesa, quanto custa a comida, quais áreas são preservadas, como as cidades crescem e que futuro climático estamos ajudando a construir.

    Esses foram alguns dos temas abordados pelo Francamente, apresentado por Tainan Franco, ao receber Gilmar Mauro, coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST. A conversa partiu da história da luta pela terra no Brasil, mas abriu espaço para uma reflexão mais ampla: discutir reforma agrária hoje é discutir também sistemas alimentares, sustentabilidade e projeto de país.

    Terra, alimento e desigualdade

    A concentração de terras atravessa a formação histórica do Brasil e ajuda a explicar por que a desigualdade brasileira não pode ser compreendida apenas pela renda. Ela também está inscrita no território.

    Quem controla a terra controla parte importante da produção de riqueza, da circulação de alimentos, da preservação ambiental e das possibilidades de vida de milhões de pessoas. Por isso, falar de reforma agrária é falar de uma estrutura que ainda influencia o preço dos alimentos, o acesso à produção, o trabalho no campo e o crescimento das cidades.

    Quando grandes áreas são destinadas sobretudo à produção de commodities, a diversidade alimentar, os circuitos locais e o acesso a alimentos frescos passam a disputar espaço com uma lógica voltada à exportação.

    Essa discussão está longe de ser exclusivamente brasileira. Organizações internacionais têm chamado atenção para a necessidade de transformar os sistemas alimentares, considerando seus impactos sobre clima, biodiversidade, saúde e segurança alimentar. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, PNUMA, por exemplo, destaca que padrões sustentáveis de produção e consumo de alimentos devem proteger a biodiversidade, contribuir para a estabilidade climática e reduzir a poluição.

    Nesse contexto, a agroecologia aparece como uma das alternativas em debate, ao aplicar princípios ecológicos ao desenho e à gestão de sistemas alimentares sustentáveis, podendo contribuir para sistemas mais produtivos, inclusivos e resilientes.

    É nessa direção que a ideia de “reforma agrária popular”, apresentada por Gilmar Mauro, amplia o debate. Não se trata apenas de distribuir terra, mas de pensar que tipo de alimento será produzido, com quais técnicas, em quais territórios e com quais impactos para a sociedade.

    Fonte: https://mst.org.br/nossa-producao/ (acessado em 07 de maio, 2026).

    Hoje, experiências ligadas aos assentamentos envolvem formação técnica, produção orgânica, bioinsumos, cooperativas, mecanização adaptada e pesquisa aplicada. A questão, portanto, não é opor campo e tecnologia, mas sim perguntar a serviço de que projeto a tecnologia será colocada: ela pode fortalecer circuitos locais, reduzir impactos ambientais, ampliar a autonomia dos produtores e melhorar a qualidade da alimentação; ou pode continuar a aprofundar a dependência de insumos externos, a concentração produtiva e a padronização alimentar.

    A crise climática também passa pelo prato

    A emergência climática tornou impossível separar agricultura, meio ambiente e vida urbana. Enchentes, estiagens, ondas de calor, insegurança hídrica, perda de biodiversidade e degradação do solo já afetam diretamente a vida nas cidades e no campo.

    A própria UNESCO tem destacado a importância de práticas sustentáveis de manejo da terra e de recuperação da saúde do solo como parte dos desafios ambientais contemporâneos. Na mesma direção, a transformação dos sistemas alimentares aparece como um ponto decisivo para enfrentar perdas de biodiversidade e reduzir pressões sobre a natureza.

    Por isso, discutir o uso da terra deixou de ser uma pauta setorial. Agroflorestas, recuperação de áreas degradadas, preservação de nascentes, redução do uso de venenos e produção de alimentos em bases sustentáveis são respostas concretas a problemas que já aparecem no cotidiano.

    Em regiões como Jundiaí, onde a expansão urbana convive com debates sobre preservação ambiental, abastecimento, mobilidade e qualidade de vida, essa conversa ganha ainda mais proximidade. Reforma agrária, nesse sentido, não diz respeito apenas ao campo distante. Também ajuda a pensar o modo como uma cidade decide crescer.

    Uma conversa necessária para além do campo

    Falar de terra é falar de alimentação. Falar de alimentação é falar de saúde. Falar de saúde é falar de meio ambiente. E falar de meio ambiente é falar também de cidade, planejamento urbano e futuro.

    Ao abrir espaço para essa conversa, o Francamente reafirma uma de suas vocações: provocar o debate público sobre temas que atravessam a vida cotidiana, mesmo quando parecem distantes dela.

    Assista ao episódio completo do Francamente com Gilmar Mauro e acompanhe essa conversa sobre reforma agrária, agroecologia, crise climática e os caminhos possíveis para pensar o Brasil.