Em sua 38ª edição, a Festa Italiana de Jundiaí marca uma história que começou com fé, imigração, trabalho voluntário e o desejo de uma comunidade voltar a se reunir.
Antes de ser uma das festas mais tradicionais de Jundiaí, a Festa Italiana foi uma ideia compartilhada à mesa da comunidade. Antes de reunir milhares de pessoas em torno da massa, da polenta, do vinho, da música e das receitas de família, ela nasceu da inquietação local de “movimentar novamente a Colônia”, fortalecer seus encontros e celebrar uma herança que já fazia parte da vida daquele território.
No centro dessa história está o padre Giuseppe Bortolato, um dos nomes ligados à origem da festa. Italiano de nascimento, brasileiro por trajetória e jundiaiense por afeto, padre Giuseppe esteve em 2024 no Programa Francamente, com Tainan Franco, em entrevista gravada no contexto da divulgação da festa daquele ano. A conversa acabou se tornando também um registro precioso da memória da Festa Italiana de Jundiaí, da vida comunitária da Colônia e de sua própria história — e aproveitamos para deixar aqui o convite para ele voltar ao Francamente este ano!

Nascido nas redondezas de Veneza, no período de fim da Segunda Guerra Mundial, Giuseppe entrou no seminário ainda criança, aos 12 anos. Na conversa, contou que sua vocação nasceu em um tempo no qual a igreja ocupava lugar central na vida das pequenas comunidades. Era espaço de fé, mas também de convivência, juventude, música, esporte, festas e formação humana.
Ordenado padre em 1971, veio ao Brasil como missionário de uma congregação dedicada aos migrantes. E sua primeira destinação foi justamente Jundiaí, no Bairro da Colônia — território marcado pela presença italiana e pela memória das famílias que ajudaram a construir a cidade.
Ao longo da vida, padre Giuseppe passou também por Santo André, Rio de Janeiro, São Paulo e São Bernardo do Campo. Trabalhou com comunidades paroquiais, migrantes, pessoas em situação de vulnerabilidade e até com a pastoral carcerária. Em todos esses lugares, sua atuação parece ter seguido a mesma intuição: a de que a missão religiosa também se realiza no acolhimento, na escuta e na reconstrução dos laços comunitários.
Foi ao retornar a Jundiaí, na segunda metade dos anos 1980, que essa história se encontrou com a origem da Festa Italiana. Na entrevista, padre Giuseppe lembra que 1987 foi “o ano da virada”. Ao voltar para a mesma igreja e para o mesmo seminário da Colônia, encontrou “pessoas fantásticas” que traziam a “ideia de fazer uma festa inspirada nas tradicionais festas italianas de São Paulo” (como as de San Gennaro e Nossa Senhora Achiropita). Segundo ele conta, a ideia “casou”. Dentre estas pessoas está Alfredo Paoletti – empresário filho de italianos.
Foi em 1988, ano em que se comemorou o centenário da imigração italiana em Jundiaí, que a primeira edição ocorreu. A festa nasceu no bairro, ao redor da Paróquia Sagrado Coração de Jesus, com participação direta de lideranças locais, famílias, voluntários e da própria comunidade. No começo, tudo era mais simples. A festa acontecia nas ruas próximas à igreja, no salão paroquial e nos espaços disponíveis da comunidade. Mas o que poderia ter sido apenas uma pequena confraternização local rapidamente ganhou outra dimensão. Como contou padre Giuseppe a Tainan, a Colônia estava sem as antigas quermesses, a comunidade parecia um pouco parada, e havia uma grande vontade de “fazer alguma coisa”. A resposta veio maior do que o esperado: e a cidade toda abraçou a festa.
Com o passar dos anos, a Festa Italiana cresceu, ganhou estrutura, público, patrocinadores, visibilidade regional e lugar no calendário cultural de Jundiaí. Mas sua força continuou ligada ao mesmo ponto de origem: o Bairro Colônia. Não por acaso, padre Giuseppe sempre defendeu que a festa permanecesse ali, onde nasceu. Para ele, sua identidade estava no vínculo com o território, com a paróquia, com as famílias e com a memória comunitária.

É justamente por isso que a Festa Italiana atravessa gerações. Ela não é apenas uma celebração da gastronomia italiana, embora a comida seja parte essencial da experiência. É também uma festa de pertencimento. Uma festa feita por voluntários, por famílias, por jovens, adultos, casais, descendentes de italianos e pessoas que, mesmo sem origem italiana, reconhecem na Colônia um pedaço afetivo de Jundiaí.
Na entrevista, padre Giuseppe resume essa ideia ao dizer que o verdadeiro lucro da festa é a comunidade que se une, cresce, participa e vive feliz aquele momento. A arrecadação ajuda nas necessidades da igreja e em ações comunitárias, mas o sentido mais profundo da festa está na mobilização das pessoas.
Em 2026, a Festa Italiana de Jundiaí chega à sua 38ª edição.
A abertura acontece no dia 16 de maio, com jantar no salão da Paróquia Sagrado Coração de Jesus (cujos ingressos, como todos os anos, se esgotaram rapidamente). Já a festa na Praça José Orlandi, com entrada gratuita, será realizada nos dias 23, 24, 30 e 31 de maio, e 6, 7, 13 e 14 de junho, aos sábados, das 18h às 22h, e aos domingos, das 11h às 16h.
O público encontrará pratos tradicionais como macarrão, nhoque, risoto, lasanha, frango, polenta, focaccia, crustuli, doces e bebidas, além de apresentações musicais e o ambiente familiar que se tornou marca da festa ao longo das décadas. Na conversa com Tainan (realizada em 2024), que você pode conferir na íntegra no link abaixo, padre Giuseppe disse que a Colônia ainda conserva um “cheiro de colônia”, uma marca feita de família, espiritualidade, trabalho e valores comunitários.
A festa nasceu na Colônia, mas há muito tempo pertence a todas as pessoas de Jundiaí.

