“Água é direito, não mercadoria” – Mário Maurici

Em entrevista ao Francamente, deputado estadual falou sobre saneamento, privatização, orçamento público, participação popular e os desafios de transformar política em vida concreta.

Poucos temas mostram tão bem a importância da política quanto a água. Ela chega (ou não chega!) à torneira, atravessa a saúde pública, o saneamento básico, o meio ambiente, o planejamento urbano e a dignidade cotidiana das famílias. Por isso, discutir água não é discutir apenas gestão ou tarifa: é discutir que tipo de Estado uma sociedade quer construir.

Em conversa com Mário Maurici no Francamente, conduzida por Tainan Franco nos estúdios da MOV8 Produções, o jornalista, professor, ex-vereador, ex-prefeito de Franco da Rocha e deputado estadual partiu de sua trajetória pública para tratar de temas que afetam diretamente cidades como Jundiaí e região: saneamento, planejamento, orçamento, emendas parlamentares e participação popular.

Uma das maiores bandeiras de sua atuação política é a defesa da água como direito. Ao criticar processos de privatização dos serviços de abastecimento e saneamento, Maurici chama atenção para um risco central: quando um serviço essencial passa a ser orientado principalmente pela lógica do lucro, a população pode perder controle sobre decisões que afetam sua vida mais básica.

“Não podemos transformar um direito em mercadoria.”

A frase resume o eixo mais importante da entrevista. Água não é um produto qualquer. Sem acesso regular, seguro e público à água e ao saneamento, não há saúde, escola funcionando, moradia digna, proteção ambiental nem qualidade de vida. O debate, portanto, não se resume a quem administra melhor um serviço, mas a quem responde por ele, com que transparência, com que prioridade social e com que compromisso de longo prazo.

A disputa pela água é uma disputa de futuro

A defesa da gestão pública da água também ganha força quando olhamos para experiências internacionais. Em diferentes lugares do mundo, cidades que privatizaram seus serviços de água depois voltaram atrás, retomando algum tipo de controle público sobre o abastecimento. Paris é um dos exemplos mais conhecidos: depois de décadas de gestão delegada, a capital francesa remunicipalizou o serviço e passou a operar a água por meio de uma empresa pública.

Esses casos não significam que todo serviço público funcione automaticamente bem, nem que toda gestão privada seja igual. Mas mostram que a privatização não pode ser tratada como solução mágica. Quando se fala de água, o problema não está apenas na eficiência administrativa, mas na garantia de acesso universal, controle social, capacidade de investimento e responsabilidade sobre um recurso indispensável à vida.

Essa discussão é especialmente importante no Brasil, onde saneamento básico ainda é uma das grandes marcas da desigualdade. Em muitos territórios, a falta de água tratada, coleta de esgoto e infraestrutura adequada continua afetando principalmente populações pobres, periferias e áreas historicamente negligenciadas pelo poder público.

Planejar antes de prometer

A conversa também amplia o debate para o modo como o Estado planeja suas ações. Uma obra de saneamento, uma estrada, um hospital, uma escola ou um investimento em infraestrutura não podem depender apenas de anúncio político. Precisam de estudo técnico, orçamento, continuidade e fiscalização.

Maurici critica justamente a lógica de governos que prometem antes de planejar, lançam obras sem projeto consistente e deixam para resolver depois os impactos, custos e problemas de execução.

O ponto é simples, mas decisivo: mandatos duram quatro anos, enquanto problemas como água, transporte, habitação, saúde e meio ambiente atravessam décadas. Por isso, políticas públicas estruturantes precisam ser tratadas como políticas de Estado, e não apenas como vitrines de governo.

Orçamento revela prioridades

Outro eixo importante da entrevista é o orçamento público. Em linguagem direta, Maurici lembra que governos estimam quanto vão arrecadar e definem onde pretendem gastar. Essa escolha mostra prioridades: investir em saneamento, saúde, educação, cultura, assistência social ou infraestrutura não é decisão neutra.

Nesse debate entram também as emendas parlamentares, tema que ganhou grande visibilidade nos últimos anos. Elas podem levar recursos a cidades, entidades e projetos relevantes, mas também podem fragmentar o planejamento público quando funcionam sem transparência, sem critérios claros ou como moeda de negociação.

Maurici afirma ser crítico ao modelo, mas explica que, enquanto as emendas existem, procura direcionar parte dos recursos por meio de editais e votação pública. A ideia é permitir que entidades apresentem propostas, que a população participe da escolha e que o dinheiro tenha algum grau de controle democrático.

Participação não termina no voto

A entrevista funciona, no fundo, como um convite à educação política. Votar é fundamental, mas acompanhar mandatos, entender orçamento, cobrar representantes, participar de conselhos, audiências públicas e consultas populares também faz parte da democracia.

Esse ponto é ainda mais importante quando se fala de serviços essenciais. Água, saneamento, saúde, transporte, moradia e cultura não podem ser temas restritos a técnicos, empresas ou gabinetes. São assuntos que atravessam a vida de todos e, por isso, precisam ser acompanhados pela população.

Assista à entrevista completa com Mário Maurici no Francamente, curta, comente e siga o programa para acompanhar outras conversas sobre política, cultura, sociedade e vida pública.

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