Em entrevista ao Francamente, Jaloo revisitou os dez anos de #1 e falou sobre criação, amadurecimento, transição, pertencimento e liberdade artística.
Dez anos podem parecer pouco tempo. Mas, para quem atravessou internet, palco, mudança de cidade, transição, cobrança pública, reinvenções sonoras e novas formas de se ver no mundo, uma década pode carregar muitas vidas.
Foi nesse ponto da trajetória que Jaloo chegou ao Francamente, em conversa com Tainan Franco, pouco antes de se apresentar no SESC Jundiaí. A entrevista parte dos dez anos de #1, seu primeiro álbum, mas não fica presa à celebração do passado — o disco abre caminho para uma conversa sobre amadurecimento, criação, identidade, amor, produção musical e a coragem de mudar sem romper com aquilo que se foi.
Antes de ser reconhecida como cantora, Jaloo já era uma artista de estúdio. Produzia, remixava e circulava mais nos bastidores do que no centro do palco. A virada aconteceu quase por acaso, em uma apresentação como DJ em Brasília, quando decidiu cantar uma das músicas do set e percebeu a reação do público.
“Eu nunca decidi. Eu gostava muito de produzir música, de manipular áudio, fazia remix. Tinha esse lugar de produtora, mais de backstage.”
Essa origem ajuda a entender a singularidade de sua obra. Jaloo não chega à música apenas pela voz ou pela performance, mas também pela escuta, pela montagem, pelo timbre e pelo modo como sons diferentes podem ocupar o mesmo corpo. Desde os primeiros remixes até os discos autorais, sua trajetória mistura pop, tecnobrega, música eletrônica, referências amazônicas, drama, humor e experimentação.
Pertencimento, distância e reencontro
A conversa também passa por Castanhal, Belém, São Paulo e pelas ambiguidades de pertencimento que atravessam sua trajetória. Jaloo relembra que parte de sua projeção inicial veio da internet e de olhares externos, antes de ganhar atenção mais ampla no Sudeste e, depois, no próprio Pará.
Esse percurso revela uma questão maior da música brasileira: o que costuma ser chamado de “regional” quase sempre depende do ponto de vista. Quando uma produção nasce fora do eixo Rio-São Paulo, ela é frequentemente lida como expressão de território; quando nasce no centro do mercado, tende a ser tratada simplesmente como música brasileira, pop ou urbana.
Jaloo fala de Os Amantes como uma carta de amor ao Pará, às raízes e à música feita por lá. Às vezes, é preciso olhar de fora para reconhecer com mais liberdade aquilo que sempre esteve dentro.
Reencontrar o primeiro disco
Ao falar de #1, Jaloo não olha para o disco como quem quer corrigir o passado. Pelo contrário. O reencontro com o álbum traz uma espécie de reconciliação com a artista que existia ali: perfeccionista, intensa, exigente, atravessada por cobranças e ainda tentando entender o tamanho do que estava começando.
“Eu olho com tanto orgulho para aquela pessoa de dez anos atrás.”
A frase diz muito sobre o tom da entrevista. Jaloo reconhece que havia imaturidade, autocobrança e tensão nos processos, mas também havia descoberta, força e uma intuição artística que permitiu que aquele disco abrisse caminhos. O mundo era outro, a artista era outra, o corpo era outro, a relação com o público era outra. E tudo isso faz parte da obra.
Imagem, transição e liberdade
A entrevista ganha camadas mais pessoais quando Jaloo fala da relação com a exposição pública. Depois do primeiro disco, veio também a sensação de ser colocada em um lugar quase intocável, como se precisasse sempre falar certo, acertar o tom, representar algo e não falhar.
Essa cobrança atravessou sua imagem, sua saúde emocional e sua forma de lidar com o reconhecimento. A transição de gênero, nesse contexto, é entendida em retrospecto como experiência íntima e pública ao mesmo tempo, marcada pelo recolhimento, pelo começo difícil do processo e pela diferença entre viver uma transformação e ter que explicá-la aos outros.
A visibilidade importa, especialmente em um país ainda marcado pela transfobia, mas Jaloo reivindica algo além do lugar de símbolo: o direito de ser múltipla, contraditória, vulnerável, engraçada, talentosa, técnica, vaidosa, insegura, sedutora, cansada, criadora e em movimento.
A música como lugar de encontro
Mesmo quando fala de tecnologia, produção e carreira, Jaloo retorna muitas vezes ao afeto. Ao lembrar apresentações em grandes festivais, Jaloo fala da música como espaço de aproximação – em um país tantas vezes dividido, o show aparece como lugar em que pessoas diferentes cantam juntas, sem precisar saber tudo umas sobre as outras.
A Jaloo produtora segue tão presente quanto a artista de palco. Na entrevista, ela fala sobre o desejo de colaborar mais, sair um pouco da própria cabeça e escutar outros mundos. Depois de álbuns em que assumiu quase todos os processos, há agora uma vontade maior de troca, parceria e experimentação compartilhada.
Esse movimento aparece no reencontro com Os Amantes, projeto com Léo Chermont e Arthur Kunz.
No Francamente, Jaloo celebra dez anos de um disco importante, mas já voltada para outras formas de criar. Revisitando o passado, mas sem ficar presa a ele. Falando de amor, mas também de trabalho. Falando de identidade, mas também de som. Falando de palco, mas também de estúdio.
Sua trajetória mostra que mudar não significa abandonar o que veio antes. Às vezes, mudar é justamente conseguir olhar para trás com carinho — e seguir adiante com mais liberdade.
Assista à entrevista completa com Jaloo no Francamente, curta, comente e siga o programa para acompanhar outras conversas sobre música, cultura, criação e trajetórias que movimentam a cena brasileira.
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