Em conversa no Francamente, ator, diretor e dramaturgo fala sobre trajetória, Teatro Oficina, “Meu Nome, Mamãe” e o podcast Perdigoto.
Há artistas que falam de teatro como profissão. Outros falam como quem fala de uma forma de existir. Aury Porto parece estar mais perto desse segundo grupo. Ator, diretor, dramaturgo e ativista cultural, ele esteve no Francamente, em conversa com Tainan Franco, para revisitar uma trajetória marcada por deslocamentos, encontros, processos coletivos e uma relação profunda com a memória.
Nascido no Ceará, Aury conta que o teatro apareceu cedo, embora não fosse um caminho óbvio em sua família. Vindo de um ambiente ligado à roça, à terra e aos animais, ele reconhece hoje pequenas sementes artísticas espalhadas pela própria história familiar: o avô que sabia longos poemas de cor, a memória dos “dramas” encenados por mulheres no sertão, o gosto pela novidade herdado do pai. Antes de virar profissão, a arte já estava ali como modo de narrar, cantar, e olhar o mundo.
A chegada a São Paulo, em 1987, foi decisiva. Aury diz ter sentido que a cidade era sua casa. Em pouco tempo, encontrou sua geração teatral, participou de montagens importantes e passou a construir uma carreira atravessada por experiências coletivas. Mais tarde, com a Mundana Companhia, criada ao lado de Luah Guimarãez, consolidou uma forma de trabalho aberta, horizontal e mutável, capaz de se reorganizar a partir de cada projeto.
Um dos momentos mais marcantes da conversa é a lembrança do Teatro Oficina e da montagem de Os Sertões, de Euclides da Cunha. Aury conta que a ideia de montar a obra no Oficina passou por ele e chegou a Zé Celso, iniciando um processo que se estendeu por anos e resultou em cinco espetáculos: A Terra, O Homem I, O Homem II, A Luta I e A Luta II. Ao todo, foram cerca de 25 horas de teatro – uma travessia artística, física e política.
Mas o centro mais sensível da entrevista está em Meu Nome, Mamãe, espetáculo em que Aury leva ao palco sua relação com a mãe, que vive com Alzheimer há muitos anos. Ele conta que, durante muito tempo, resistiu à ideia de transformar essa experiência em cena. Era preciso encontrar o ponto em que uma história íntima pudesse se comunicar com outras pessoas, sem virar apenas exposição privada.
Esse ponto apareceu quando a peça passou a dialogar com uma questão coletiva: o envelhecimento da sociedade brasileira. A partir daí, a relação entre mãe e filho se tornou também uma reflexão sobre cuidado, memória, velhice, linguagem e presença.
A dramaturgia de Meu Nome, Mamãe nasce da autoficção. Os fatos são reais, mas a cena reorganiza acontecimentos, desloca tempos e cria uma estrutura mais próxima da forma como a memória se comporta. Aury fala do Alzheimer como uma espécie de roteiro surrealista: lembranças se misturam, tempos se atravessam, palavras escapam e outros modos de comunicação aparecem. O teatro, então, surge como espaço para acolher aquilo que já não cabe na lógica comum da fala.
A dimensão sonora também é importante na peça. Aury lembra que esta dimensão é uma das últimas memórias a se perder. Por isso, a sonoplastia parte de referências afetivas da mãe, especialmente Roberto Carlos e Luiz Gonzaga. A música entra como acesso a uma memória que ainda pulsa.
Na conversa, Aury também fala do Perdigoto, podcast dedicado à memória do teatro brasileiro. Com 25 episódios já realizados, o projeto busca registrar histórias de artistas de diferentes regiões do país, fugindo da centralização no eixo Rio-São Paulo. Para Aury, ouvir o teatro feito em outros lugares é reencontrar o Brasil em suas vozes, sotaques, invenções e formas de resistência.
Entre o Ceará e São Paulo, entre o Oficina e a Mundana, entre a mãe e a cena, Aury Porto reafirma o teatro como lugar de memória viva. Uma arte que não serve apenas para distrair, mas para provocar, elaborar, reunir e devolver às pessoas novas formas de sentir o tempo.
Assista no Youtube.
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Em seu oitavo ano e com mais de mil programas produzidos, o Francamente se consolida como um acervo vivo da cultura independente, reunindo histórias, artistas e cenas que ajudam a contar a vida cultural de Jundiaí e região.
Quem faz arte de forma independente sabe que o palco é um dos lugares mais honestos do mundo. Ali, não há muito truque: é o artista, sua presença e a troca real com o público.
Mas quando as luzes se apagam e o show precisa seguir para o mundo digital, a lógica muda. Entramos no terreno dos algoritmos, das métricas e de uma disputa por atenção que costuma premiar o conteúdo fácil, a fofoca rápida e o clickbait em vez da escuta, da memória e da profundidade.
Aqui na MOV8, o Programa Francamente fez uma escolha consciente desde o início: amplificar a voz de quem tem algo a dizer.
Criado há sete anos, o Francamente nasceu no rádio e sempre esteve também no YouTube e em outras plataformas digitais. Depois da pandemia, passou a ser gravado nos estúdios da MOV8, mantendo sua retransmissão na Rádio Difusora e chegando também a diversas rádios comunitárias pelo Brasil.
Ao longo dessa trajetória, ultrapassou a marca de mil programas produzidos. Pelo programa já passaram artistas de reconhecimento nacional e internacional. Mas, acima de tudo, o Francamente abriu espaço para a efervescência das garagens, das bandas locais, dos artistas independentes, dos produtores culturais, dos pesquisadores, dos comunicadores, dos representantes de coletivos e de tantas pessoas que ajudam a contar a história viva da região.
Construir essa vitrine audiovisual exige constância, curadoria e cuidado. E fazemos isso porque acreditamos que uma cidade também se reconhece pelas conversas que registra, pelas cenas que valoriza e pelas histórias que decide não deixar passar em silêncio.
Esse registro, no entanto, não termina quando a câmera desliga. Uma entrevista publicada hoje pode ser descoberta amanhã, reencontrada daqui a alguns anos, usada como memória de uma cena, de uma geração, de uma cidade. Para isso, ela precisa circular.
O verdadeiro boca a boca digital
Muitas vezes, caímos na armadilha de achar que o trabalho termina quando o link do YouTube vai ao ar. Esperamos que a plataforma faça, sozinha, a mágica da distribuição.
Mas o algoritmo não entende o valor poético de uma letra, o percurso de uma banda independente ou a importância de uma conversa para a memória cultural de uma cidade. Ele responde a sinais: visualizações, comentários, curtidas, compartilhamentos, tempo de exibição.
Quando alguém passa pela nossa bancada e espera que a plataforma faça todo o resto, algo se perde no caminho. A força de uma cena cultural de nicho raramente vem de grandes patrocínios comerciais, impulsionamentos ou anúncios pagos. Ela depende, sobretudo, do trabalho de formiga da própria comunidade.
O Francamente é um espaço construído com aqueles que se sentam à nossa mesa, com o público que acompanha, com quem comenta, compartilha, indica, volta para assistir e ajuda a fazer circular uma cultura com mais substância.
Com o Portal MOV8, passamos a ampliar ainda mais o alcance dessas conversas, transformando entrevistas em matérias, registros, reflexões e conteúdos editoriais com mais contexto. A ideia é não esperar que outros veículos reconheçam o valor dessas histórias para só então fazê-las circular. Nós mesmos estamos criando novos caminhos para que elas cheguem a mais pessoas. Uma conversa gravada no Francamente pode virar memória, pauta, notícia, reflexão cultural e ponto de partida para novos encontros.
Como você pode fazer a diferença hoje?
Se a nossa comunidade não regar o próprio jardim, a cena local enfraquece. Apoiar o espaço onde você — ou seus amigos de profissão — se apresentam passa por atitudes simples, mas capazes de mudar o alcance de um vídeo, de uma entrevista, de uma matéria e de toda uma rede de produção cultural.
Engaje o conteúdo. Viu a entrevista nas plataformas digitais? Deixe o gostei e gaste 30 segundos escrevendo um comentário real. Isso ajuda a mostrar para a plataforma que aquele conteúdo importa.
Fortaleça o colega de bancada. Se você é músico, artista, produtor cultural, pesquisador, comunicador ou simplesmente alguém que já passou pelo Francamente, não divulgue apenas o seu episódio. Compartilhe também a entrevista da outra banda da cidade, da artista que lançou um projeto novo, do produtor que está movimentando a cena, da pesquisadora que trouxe uma boa reflexão, do convidado que contou uma história importante. O público deles pode se tornar também o seu público amanhã.
Espalhe no analógico. Mande o link daquela entrevista bonita, densa ou divertida no grupo de WhatsApp da família, dos amigos do trabalho, dos colegas de banda, de quem realmente gosta de música, cultura e boas conversas.
Nadar contra a correnteza dos conteúdos vazios da internet tem um custo alto — incluindo o custo de não agradar ao algoritmo. Mas é também uma forma de preservar identidade, memória e presença cultural.
O espaço está aberto. Os microfones continuam ligados. As conversas seguem sendo gravadas. Mas o alcance desse som depende do eco que cada um de nós ajuda a produzir nas ruas e nas redes.
O Francamente é feito com quem senta à mesa, com quem acompanha de casa e com quem acredita que essas histórias merecem seguir circulando.
Em conversa no Francamente, artista fala sobre infância no palco, amadurecimento vocal, oportunidades internacionais e a nova fase autoral em português.
Antes de transformar suas próprias histórias em música, Iarah aprendeu a habitar o palco por muitos caminhos. Foi criança fã de Kiss, aluna de teatro musical, voz em formação na School of Rock, finalista de programa de TV, além de artista selecionada para uma oportunidade ligada a um dos maiores programas de talentos dos Estados Unidos. No Francamente, em conversa com Tainan Franco, ela revisita essas histórias com humor, sinceridade e uma maturidade que não apaga a leveza de quem ainda está construindo a própria trajetória.
Da “Iarinha Kiss” à School of Rock
A relação de Iarah com o rock começou ainda na infância. Aos quatro anos, ela já era fã de Kiss, frequentava a 89 Rádio Rock e chegou a ganhar o apelido de “Iarinha Kiss”. Na entrevista, ela conta histórias que parecem roteiro de filme: vinheta gravada na rádio, ida ao show da banda ainda criança e até aniversário infantil com banda cover de Kiss.
Antes de assumir a música como caminho principal, ela passou pela publicidade, pelo teatro e pelo teatro musical. Essas experiências ajudaram a construir presença de palco, projeção vocal e familiaridade com a performance.
Em 2019, entrou na School of Rock, inicialmente por causa de uma montagem do musical School of Rock. A ideia era aprender baixo para um teste, mas a escola acabou se tornando decisiva em sua trajetória musical. Foi ali que ela se descobriu melhor como cantora, percebeu a força dos graves de sua voz e precisou reaprender o equilíbrio entre potência, técnica e cuidado vocal.
Técnica, palco e televisão
A entrevista mostra uma artista jovem, mas muito consciente de que cantar exige trabalho. Iarah fala sobre estudo vocal, respiração, belting, extensão, graves, agudos e o cuidado necessário para não transformar potência em excesso de peso na voz.
Esse amadurecimento também passou pela televisão. Depois de tentar diferentes programas musicais, ela chegou ao Canta Comigo Teen, onde levantou os 100 jurados em uma das apresentações e chegou à final. A experiência não terminou com a vitória, mas abriu portas, rendeu entrevistas e novas oportunidades.
No programa, Iarah também se aproximou de nomes ligados ao rock e ao metal, como Bruno Sutter, citado com carinho na conversa — e no episódio contado a seguir.
A viagem que quase foi
Selecionada para o AllStars, programa da School of Rock que reúne alunos de destaque para apresentações nos Estados Unidos, Iarah mobilizou uma campanha para conseguir viajar. Fez vaquinha, movimentou as redes, pediu apoio e conseguiu reunir o valor necessário praticamente na semana da viagem, com apoios que incluíram até uma contribuição de Bruno Sutter.
Ela embarcou com a mãe, fez escala no Panamá e estava a caminho dos Estados Unidos quando a viagem precisou ser interrompida antes de chegar ao destino. Na entrevista, Iarah conta que o episódio envolveu uma denúncia anônima sobre supostas inconsistências no visto — informação que foi posteriormente desmentida na embaixada, mas que naquele momento foi suficiente para impedir o embarque. A situação também se cruzava com outra oportunidade internacional: a aprovação para o America’s Got Talent.
A história, contada no Francamente entre frustração e bom humor, ficou como um dos grandes perrengues de uma trajetória ainda jovem, mas já cheia de tentativas, portas abertas e recomeços.
Do metal em inglês ao pop rock em português
Durante muito tempo, Iarah imaginou sua carreira autoral ligada ao metal em inglês. Ela chegou a lançar duas músicas nesse estilo, mas uma conversa com o produtor Thiago Bianchi abriu outro caminho.
Depois de ouvi-la em um contexto da School of Rock, Thiago propôs produzir um álbum e sugeriu uma mudança: em vez de seguir pelo metal em inglês, buscar um caminho mais próximo do pop rock em português.
No começo, Iarah resistiu à ideia. O inglês parecia mais próximo das referências que ela consumia e também oferecia certa proteção emocional. Escrever em português, como ela reconhece na entrevista, expõe mais. A língua materna deixa tudo mais direto.
A transição exigiu tempo. Ela estudou composição, passou pelo Midas Academy, escola de Rick Bonadio, trabalhou melodias, letras e estruturas musicais, até começar a encontrar uma forma mais própria de escrever.
Cantar em primeira pessoa
A fase atual de Iarah parece ser menos sobre escolher um rótulo e mais sobre construir uma linguagem. Rock, metal, teatro musical, pop rock e televisão fazem parte de sua formação, mas agora aparecem filtrados por uma busca autoral.
Na entrevista, ela fala sobre músicas já lançadas, como “Judas”, “Ignorância” e “Não me Olha Assim”, além do próximo lançamento, “Ao Menos Uma Vez”. A nova faixa, segundo ela, fala sobre luto e integra uma sequência de lançamentos que deve formar um álbum.
O mais interessante é acompanhar esse momento de passagem: Iarah deixa de ser apenas a jovem intérprete de grandes referências para se afirmar como artista que escreve, escolhe, testa caminhos e aprende a cantar a própria história.
Assista à entrevista no Youtube:
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Em conversa no Francamente, banda fala sobre lançamento de álbum, resistência preta, espiritualidade, composição coletiva e a faixa “Respeita os Nego… Véio!”
Há bandas que nascem de um projeto musical. Outras nascem de uma urgência. AKi’MBANDA parece ocupar os dois lugares ao mesmo tempo: é som, é manifesto, é encontro, é tambor, é rock, é espiritualidade, é memória e é também uma resposta direta a uma pergunta que atravessa a história da música brasileira: quem tem o direito de ocupar o palco do rock?
Formada por Henrique Krispim, o Krisx, no vocal; Yves Remont, na guitarra; Rogério Luís, o Menudo, no baixo; Marcos Guarujá e Anderson Kafé, na percussão; Igor Mamuth, na bateria; e Nissa e Mayra Costa nos backing vocals, a Ki’MBANDA esteve no Francamente representada por Krisx, Rogério Menudo e Anderson Kafé, em conversa conduzida por Tainan Franco, nos estúdios da MOV8 Produções.
Na conversa, a banda falou sobre o lançamento de seu álbum, definido como um manifesto de afro rock, ancestralidade e resistência. Gravado “ao vivo e sem filtros”, o trabalho reforça a identidade do grupo, que usa o rock como ferramenta de combate ao racismo, ao apagamento cultural e ao etarismo na música brasileira.
Um quilombo musical
A história da banda começa em torno de uma mesa, em uma conversa que misturava amizade e música, além do desejo da criação de uma banda de rock formada por homens pretos. O nome Ki’MBANDA, conforme explica Krisx, é associado à ideia de cura, e a banda passa a se definir como um espaço em que o rock se encontra com ancestralidade, espiritualidade e resistência.
A Ki’MBANDA se entende como um “quilombo musical”, expressão que aparece na entrevista para explicar o modo como o grupo cria, decide e se organiza. Não há apenas um líder que determina tudo. Cada músico traz sua história, sua escuta, sua técnica, sua vivência e sua responsabilidade dentro do coletivo.
Essa ideia aparece também no processo de composição. Durante a pandemia, parte das músicas foi surgindo à distância, em trocas por WhatsApp, com bases, ideias, letras e arranjos circulando entre os integrantes. Quando os ensaios voltaram, já havia uma massa criativa em ebulição. A banda fala desse processo como algo coletivo, generoso, em que a vaidade precisa ceder espaço para que a música cresça.
Na Ki’MBANDA, uma letra pode nascer de um integrante, o riff de outro, a levada de outro, mas a música só se completa quando passa pelo corpo inteiro da banda.
O tambor na frente da história
Se o rock é muitas vezes associado à guitarra, à bateria e ao peso elétrico, a Ki’MBANDA desloca esse centro. Na conversa, a banda afirma que tudo ali passa pelo tambor. A guitarra é tambor. O baixo é tambor. A bateria é tambor. A voz também é percussiva.
Essa concepção dá ao som da banda uma identidade própria: peso, swing, ritualidade e presença. A percussão não aparece como adorno, nem como camada decorativa colocada por cima do rock. Ela conduz. Em certo momento, a banda chega a dizer que os tambores da Ki’MBANDA são como os “violinos” da orquestra: estão à frente da história.
É nessa escolha estética que o afro rock da Ki’MBANDA se afirma politicamente. A banda não apenas mistura gêneros. Ela reposiciona a escuta. Coloca no centro aquilo que muitas vezes foi tratado como margem: o terreiro, o tambor, a ancestralidade preta, as referências afro-brasileiras e a força coletiva da música.
Rock também é território preto
Um dos pontos mais fortes da entrevista é a afirmação de que o rock também é preto. A conversa passa por referências como blues, samba, baião, Sepultura, Gangrena Gasosa, Gilberto Gil, Baden Powell, Nação Zumbi e tantas outras misturas que mostram como a música brasileira sempre foi atravessada por encontros, apagamentos e disputas de narrativa.
A Ki’MBANDA se coloca dentro dessa linhagem, mas também aponta uma ausência: no rock nacional, ainda há pouco espaço para bandas que assumam, de forma frontal, a ancestralidade afro-brasileira, os orixás, o tambor e a experiência preta como matéria central da criação.
Por isso, quando a banda diz “afro é rock, afro é pop, afro é tudo”, não está apenas criando uma boa frase. Está recusando a ideia de que a cultura preta deva ocupar apenas determinados gêneros ou lugares previamente autorizados.
“Respeita os Nego… Véio!”
Entre os temas da entrevista está a faixa inédita “Respeita os Nego… Véio!”, que aparece como síntese bem-humorada e contundente de uma questão importante: a presença de músicos pretos mais velhos em uma cena que muitas vezes valoriza apenas a juventude, a novidade e a aparência de frescor.
A faixa conversa com o etarismo, mas também com a experiência acumulada. A Ki’MBANDA não nasce de jovens tentando descobrir uma identidade de palco. Ela nasce de músicos que já atravessaram muitas noites, muitos trabalhos, muitas formações, muitos palcos possíveis e impossíveis.
Essa maturidade aparece na forma como a banda fala de si. Não há ingenuidade sobre o mercado, nem romantização das dificuldades. Há consciência de que música também exige estratégia, estudo, produção, comunicação, presença e trabalho contínuo.
Fé, corpo e linguagem
Outro aspecto importante da conversa é a presença da espiritualidade. A Ki’MBANDA fala de orixás, de terreiro, de ancestralidade e de fundamentos sem transformar isso em exotismo. A espiritualidade aparece como parte da vida, da criação e da linguagem da banda.
Essa dimensão dá ao trabalho uma força que vai além do discurso. A Ki’MBANDA não apenas canta sobre ancestralidade. Ela tenta fazer com que a ancestralidade esteja na estrutura da música: no compasso, no peso, na levada, na voz, na percussão e na presença de palco.
Uma conversa com peso e riso
A entrevista no Francamente tem algo que combina muito com a própria Ki’MBANDA: alterna densidade e riso sem pedir desculpas por isso. Fala de racismo, escravidão, apagamento histórico, indústria cultural e resistência, mas também passa por piadas, histórias de bastidor, provocações e cumplicidade.
A Ki’MBANDA ocupa o rock com tambor, guitarra, fé, corpo e memória. E, ao fazer isso, lembra que a música brasileira ainda tem muitos espaços a reconhecer, muitas histórias a reparar e muitos palcos a abrir.
Assista à entrevista no Youtube!
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Premiado no Berlin Women Cinema Festival, o documentário foi tema de conversa no Francamente com a diretora Luciana Alves e o diretor de fotografia Claudio Alves.
O documentário “Teko Porã: Retrato Atual da Vida Cotidiana na Aldeia Guarani Rio Silveira” ganhou reconhecimento internacional ao ser premiado na 15ª edição do Berlin Women Cinema Festival, realizado em Berlim.
Gravado na Aldeia Rio Silveira, localizada entre Bertioga e São Sebastião, no litoral norte paulista, o longa apresenta um retrato atual do cotidiano Guarani Mbya. Com direção da jornalista Luciana Alves, codireção do Cacique Adolfo Timoteo e fotografia de Claudio Alves, a produção aproxima o público de diferentes gerações, saberes, tradições e transformações vividas dentro da aldeia.
Antes da premiação internacional, Luciana e Claudio participaram de uma conversa no Francamente, com Tainan Franco. Na entrevista os dois falaram sobre o processo de criação do documentário, a construção de confiança com a comunidade, os desafios de filmar sem impor um olhar externo e a importância das políticas públicas para que histórias como essa possam circular.
Uma aldeia a menos de três horas de São Paulo
Um dos pontos mais fortes da conversa é a surpresa provocada pela localização da aldeia. Durante as gravações, Luciana conta que muitas pessoas, ao verem as imagens nas redes sociais, perguntavam se a equipe estava no Xingu ou na Amazônia. A resposta causava estranhamento: a filmagem acontecia no litoral de São Paulo, a cerca de duas horas e meia da capital.
Esse dado revela uma das camadas centrais de Teko Porã. A cultura Guarani Mbya está próxima geograficamente, mas permanece distante do imaginário de grande parte da população. A aldeia Rio Silveira faz parte de um território indígena que abriga cinco aldeias e se estende até áreas de Mata Atlântica próximas a regiões turísticas do litoral paulista.
Filmar no ritmo da aldeia
Ao longo de mais de um ano, a equipe realizou cerca de 20 diárias de gravação. O processo, segundo Luciana e Claudio, exigiu tempo, presença e respeito. A cada nova visita, a relação com a comunidade se aprofundava um pouco mais. Algumas portas se abriam; outras permaneciam fechadas. E isso também fazia parte do filme.
Luciana conta que, desde o início, percebeu a importância de acompanhar o ritmo da aldeia. Havia dias em que a equipe chegava com expectativa de filmar mais, de aproveitar uma luz bonita ou de seguir determinada ideia de roteiro, mas a própria dinâmica da comunidade indicava outro caminho. Em alguns momentos, a gravação terminava antes do previsto. Em outros, a câmera precisava ficar desligada.
Assim, o filme observa, acompanha e acolhe aquilo que a comunidade aceita mostrar. A diretora chegou a dizer, na entrevista, que desejava ter entrado mais no cotidiano das casas e das famílias, mas entendeu que o limite imposto pelos moradores precisava ser respeitado.
O resultado é um documentário construído menos pela pressa da produção e mais pela maturação do vínculo.
Entre dois mundos
A conversa também passa por uma questão essencial: o modo como os Guarani Mbya retratados no filme vivem entre tradições preservadas e pressões do mundo contemporâneo.
Na aldeia, há celular, escola, compras no mercado, venda de artesanato e contato constante com a sociedade não indígena. Ao mesmo tempo, seguem presentes a língua Guarani, a espiritualidade, os cantos, a casa de reza, o respeito às lideranças e uma relação com o território muito diferente daquela que predomina nas cidades.
Luciana menciona uma imagem emblemática do documentário: um indígena com o cachimbo em uma mão e o celular na outra. A força dessa cena está justamente em romper com estereótipos. O uso da tecnologia não anula a identidade indígena. A presença do celular não apaga a tradição. O que aparece ali é a complexidade de uma cultura viva, atravessada pelo presente, sem deixar de carregar sua ancestralidade.
Território, memória e sobrevivência
Em outro momento da entrevista, Tainan, Luciana e Claudio falam sobre a pressão da especulação imobiliária no litoral norte paulista. A aldeia está situada em uma região de grande interesse econômico, próxima a áreas turísticas e condomínios de alto padrão. Para a comunidade, no entanto, aquele território não representa uma mercadoria. Representa continuidade.
A terra, para os Guarani Mbya retratados no documentário, está ligada à vida cotidiana, à espiritualidade, à alimentação, à memória e à permanência coletiva. Preservar a mata é preservar um modo de vida.
Por isso, o filme também dialoga com uma discussão mais ampla sobre meio ambiente, desenvolvimento e formas de habitar o mundo. Ao entrar em contato com a aldeia, a equipe se deparou com outra relação com o tempo, com o trabalho, com o alimento, com a coletividade e com o espaço comum.
Claudio comenta, na entrevista, como a experiência alterou seu próprio olhar. A lógica da produtividade, tão presente na vida urbana, perde força diante de um cotidiano em que o dia pode seguir outro ritmo. Há planejamento, tarefas e responsabilidades, mas há também uma disponibilidade diferente para o tempo, para a convivência e para aquilo que acontece.
A imagem como aproximação
A fotografia é um dos elementos centrais do documentário. Claudio Alves explica que a intenção não era apenas registrar belas imagens da aldeia, da mata e do litoral, mas fazer com que o público pudesse sentir a atmosfera daquele lugar.
As imagens de drone revelam a dimensão do território. Os detalhes da luz, das folhas, dos animais, das crianças e dos olhares durante as entrevistas ajudam a construir uma experiência mais sensível. O filme também valoriza os sons da aldeia: a floresta, os cantos, os ruídos do cotidiano e até os sinais da presença do mundo externo, como o carro do gás e o vendedor de sorvete.
A trilha sonora segue esse princípio. As músicas foram gravadas na própria aldeia, executadas pelos indígenas. A escolha reforça o compromisso de dar protagonismo à comunidade retratada.
Luciana afirma que decidiu não conduzir o filme com uma locução explicativa. Preferiu ampliar a voz dos próprios indígenas, permitindo que o espectador se aproximasse da aldeia a partir das falas, dos gestos, dos silêncios e das cenas do cotidiano.
Política pública também conta histórias
Teko Porã foi realizado com apoio do Programa de Ação Cultural (ProAC), da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativa do Estado de São Paulo, com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) e do Sistema Nacional de Cultura do Ministério da Cultura.
Projetos como esse movimentam profissionais do audiovisual, da produção, da fotografia, do som, da montagem, da comunicação e da assessoria. Também geram renda para a própria comunidade envolvida, já que indígenas participaram do processo como intérpretes, produtores e coordenadores locais.
Mas a dimensão econômica é apenas uma parte da história. O filme mostra como o investimento em cultura pode criar pontes entre mundos que, apesar de próximos, seguem separados por desconhecimento, preconceito e invisibilidade.
Da aldeia à tela
Antes do lançamento oficial em Jundiaí, realizado em 29 de abril na Sala de Cinema São Paulo–Minas, no Espaço Expressa, o documentário teve uma apresentação especial na própria aldeia Rio Silveira, em 17 de abril, durante a Semana dos Povos Indígenas.
Esse primeiro encontro da comunidade com sua imagem na tela carrega um significado particular. O filme retorna ao território antes de circular para outros públicos. Depois, chega a Jundiaí. Agora, com a premiação em Berlim, amplia seu alcance internacional.
Ao levar a aldeia Rio Silveira para as telas, o documentário também nos devolve uma pergunta: quanto ainda desconhecemos sobre os povos, territórios e modos de vida que existem tão perto de nós?
No Francamente, Luciana Alves e Claudio Alves ajudam a responder parte dessa pergunta. E o prêmio em Berlim confirma que essa história, nascida no encontro entre a Mata Atlântica, a cultura Guarani Mbya e o audiovisual brasileiro, tem força para atravessar fronteiras. Assista à entrevista:
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Entre os dias 21, 22 e 23 de abril, Jundiaí recebeu a segunda edição local do World Creativity Day. O festival, que integra uma mobilização global em torno da criatividade, reuniu na cidade uma programação gratuita com painéis, oficinas, experiências e encontros voltados à inovação, educação, tecnologia, bem-estar, sustentabilidade, cultura e economia criativa.
Com quase 30 inspiradores, a proposta foi oferecer um espaço para quem busca trocar conhecimentos, ampliar repertórios e se conectar com novas possibilidades criativas. A edição de 2026 também reforçou o lugar de Jundiaí dentro de um movimento maior: o maior festival colaborativo de criatividade do mundo, com atividades realizadas em diferentes cidades entre 19 e 23 de abril de 2026.
Criatividade para além da arte
Um dos pontos centrais do WCD Jundiaí 2026 foi ampliar a compreensão do que significa ser criativo. A criatividade pode ser entendida como a capacidade de imaginar soluções, conectar saberes, transformar práticas e criar novas formas de agir no mundo — ideia destacada por Fabi Pincinato, líder do evento em Jundiaí, e Rosana Rodrigues, co-líder, em entrevista ao programa Francamente, apresentado por Tainan Franco, também co-líder do WCD em Jundiaí.
Na conversa, elas desafiam a ideia, ainda comum, de que a criatividade pertence apenas a artistas, designers ou profissionais da comunicação. No WCD, ela aparece como ferramenta cotidiana, presente na gestão, na saúde, no ensino, no empreendedorismo, na sustentabilidade e nas relações comunitárias.
Um formato pensado para troca
A programação deste ano apostou em painéis curtos, de cerca de 45 minutos, substituindo o modelo tradicional de palestras longas por uma dinâmica mais aberta à interação. A escolha revela o entendimento de que não basta apenas transmitir conteúdo; é preciso criar espaço para encontro, escuta, circulação de ideias e participação.
Na entrevista ao Francamente, as organizadoras também destacaram que a curadoria foi construída de forma colaborativa. Pessoas de áreas diferentes foram aproximadas para gerar trocas menos óbvias e mais férteis — conectando, por exemplo, saúde, recursos humanos, educação, cultura, tecnologia e práticas criativas.
Três dias, três espaços, muitas conexões
A programação ocupou diferentes espaços da cidade, reforçando a ideia de que a criatividade pode circular por ambientes diversos.
Painel na Mata Ciliar.
No dia 21, a abertura oficial aconteceu na Mata Ciliar, com foco em inovação e meio ambiente, pensando a criatividade também como resposta aos desafios ambientais e à necessidade de novas relações com o território.
Bateria Feminina da Escola de Samba União da Vila na Faculdade Anhanguera.
No dia 22, as atividades seguiram na Faculdade Anhanguera, com oficinas e painéis sobre tecnologia, bem-estar e criatividade. A programação foi encerrada com uma roda de conversa sobre mulheres no samba, aproximando cultura popular e protagonismo feminino.
Oficina de colagem no Senac Jundiaí.
No dia 23, o festival chegou ao Senac Jundiaí, com atividades como oficina de colagem, painéis de discussão e uma vivência de Maracatu, encerrando a edição com uma experiência marcada pelo corpo, pelo ritmo e pela presença coletiva.
Ao transitar por instituições de ensino, espaços de formação e ambientes ligados à cultura e à sustentabilidade, o WCD Jundiaí 2026 mostrou que a criatividade não cabe em um único palco. Ela se distribui pela cidade, ganha forma em diferentes linguagens e se fortalece quando encontra condições para circular.
Em uma época em que muito se fala sobre economia criativa, o WCD Jundiaí ajuda a lembrar que desenvolvimento criativo não se faz apenas com grandes estruturas ou investimentos concentrados. Ele também depende de redes locais, de pessoas dispostas a compartilhar conhecimento, de instituições abertas ao diálogo e de iniciativas que ampliem o acesso da população à formação, à inspiração e à experimentação.
A realização do evento também evidencia a força das parcerias locais. O WCD Jundiaí 2026 contou com a Adecil como mantenedora/patrocinadora principal, além do patrocínio da Agência io! e da VRS Academy. A Tribuna de Jundiaí atuou como parceira de mídia, e a rede de apoiadores contou com Tsuru Criativa, Tsuru Arte e MOV8 Produções, além das voluntárias que se somaram à mobilização criativa.
Organizadoras e voluntárias WCD 2026.
Mais do que uma programação pontual, o WCD Jundiaí se afirma como um movimento de conexão entre pessoas, instituições e iniciativas que acreditam na criatividade como força de transformação. Uma cidade que cria em rede cria também novas formas de imaginar seu próprio futuro.
Para saber mais: WCD Jundiaí no Francamente
Quem quiser conhecer melhor os bastidores, os propósitos e a visão por trás do World Creativity Day em Jundiaí pode assistir à entrevista no programa Francamente.