Tag: música autoral

  • Guilherme Ribeiro transforma memórias do interior em música instrumental

    Guilherme Ribeiro transforma memórias do interior em música instrumental

    Em conversa no Francamente, músico, arranjador e acordeonista fala sobre trajetória, acordeon, música popular e o lançamento do EP Bodoque Requer Traquejo.

    A música de Guilherme Ribeiro parece nascer de um ponto de encontro: entre o conservatório e a rua, entre o piano e o acordeon, entre a música popular brasileira e as memórias de uma infância no interior paulista. Músico, arranjador, compositor, pianista e acordeonista, ele esteve no Francamente, em conversa com Tainan Franco, para falar de sua trajetória e do lançamento do EP Bodoque Requer Traquejo.

    Filho de músico, Guilherme cresceu em Agudos, no interior de São Paulo, em uma casa onde instrumentos, partituras e repertórios faziam parte do cotidiano. O pai, músico de baile e pianista, foi uma presença decisiva nessa formação. O primeiro caminho veio pelo conservatório, pelo piano e pela música erudita; depois, na Unicamp, a música popular passou a ocupar um lugar cada vez mais central.

    Foi nesse processo que o acordeon entrou de vez em sua vida. Embora o instrumento já estivesse presente na memória familiar, ele só se tornou parte de sua identidade musical mais tarde, durante a vivência universitária e a participação em grupos de música popular.

    A música instrumental como conversa

    Na entrevista, Guilherme fala da música instrumental sem tratá-la como algo distante ou reservado a especialistas. Para ele, há uma dimensão emocional no som que independe da letra. A escuta pode chegar pela melodia, pelo timbre, pelo gesto, pela presença do instrumento.

    Esse ponto é importante porque ajuda a desfazer uma ideia comum: a de que música instrumental seria “música para músico”. Guilherme lembra que muitas pessoas se emocionam com esse repertório mesmo sem conhecer teoria musical ou sem ter familiaridade com o gênero. A diferença, muitas vezes, está em ser apresentado a esse universo.

    Talvez por isso ele também dê tanta importância às histórias por trás das composições. Ao contar de onde vem um título, uma expressão ou uma imagem, o músico abre uma porta de entrada para o público. A música segue sem letra, mas ganha contexto, afeto e paisagem.

    Bodoque Requer Traquejo

    O novo EP, Bodoque Requer Traquejo, nasce justamente desse encontro entre música e memória. Beneficiado pela PNAB de Jundiaí, o projeto reúne cinco faixas instrumentais compostas especialmente para o disco, tendo o acordeon solo como centro.

    Guilherme define o trabalho como um conjunto de “canções interioranas”. A ideia era revisitar um universo ligado ao interior, às expressões familiares, aos sons de infância e a uma musicalidade que atravessa forró paulista, polca, choro e baião.

    O título já carrega esse espírito. “Bodoque” vem da forma como se fala “estilingue” em Agudos, palavra que puxa uma memória local, afetiva e linguística. Ao longo do EP, outros nomes seguem essa lógica de colecionar expressões e pequenas histórias: “Cois qui esse?”, “Borocoxôxo“, “Assim, de Chofre!” e “Viravento” aparecem na conversa como exemplos de um repertório que nasce também da língua falada, da vida doméstica e das invenções do cotidiano.

    Esses títulos ajudam a construir uma escuta — antes mesmo de ouvir a faixa, o público já entra em contato com um universo: uma palavra de casa, uma expressão antiga, uma frase dita sem querer, uma lembrança transformada em música.

    Entre técnica, processo e escuta

    Ao falar de composição, Guilherme mostra um artista atento ao processo. Algumas ideias vêm da “gaveta”, aquela pasta onde ficam fragmentos, gravações e intuições ainda sem forma definida. Outras nascem sob pressão, a partir de um projeto, de um desafio ou de uma entrega concreta.

    Essa relação com a composição também aparece em sua vida como professor. Guilherme conta que leva ideias para a sala de aula, testa materiais com alunos e usa esse espaço como laboratório de escuta. O ensino, nesse sentido, não fica separado da criação: um alimenta o outro.

    Na trajetória do músico, também há discos autorais, trabalhos como arranjador, projetos com cantores, participações internacionais e passagens por festivais no Canadá, Estados Unidos, França, Bélgica, África do Sul e Itália. Mas o que parece atravessar tudo isso é a busca por dar unidade a cada projeto, como uma fotografia de determinado momento artístico.

    Uma fotografia de 2026

    Bodoque Requer Traquejo aparece, então, como a fotografia de um Guilherme Ribeiro em 2026: um músico maduro, com ampla experiência de palco, estúdio e sala de aula, olhando novamente para o interior, para o acordeon e para as palavras que formaram sua escuta.

    É um trabalho que não tenta separar técnica e afeto. Ao contrário: junta composição, memória, instrumento e linguagem para lembrar que a música instrumental também conta histórias — às vezes sem dizer uma palavra.

    Assista à entrevista no Youtube:

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  • Programa Francamente: cultura independente também precisa circular

    Programa Francamente: cultura independente também precisa circular

    Em seu oitavo ano e com mais de mil programas produzidos, o Francamente se consolida como um acervo vivo da cultura independente, reunindo histórias, artistas e cenas que ajudam a contar a vida cultural de Jundiaí e região.

    Quem faz arte de forma independente sabe que o palco é um dos lugares mais honestos do mundo. Ali, não há muito truque: é o artista, sua presença e a troca real com o público.

    Mas quando as luzes se apagam e o show precisa seguir para o mundo digital, a lógica muda. Entramos no terreno dos algoritmos, das métricas e de uma disputa por atenção que costuma premiar o conteúdo fácil, a fofoca rápida e o clickbait em vez da escuta, da memória e da profundidade.

    Aqui na MOV8, o Programa Francamente fez uma escolha consciente desde o início: amplificar a voz de quem tem algo a dizer.

    Criado há sete anos, o Francamente nasceu no rádio e sempre esteve também no YouTube e em outras plataformas digitais. Depois da pandemia, passou a ser gravado nos estúdios da MOV8, mantendo sua retransmissão na Rádio Difusora e chegando também a diversas rádios comunitárias pelo Brasil.

    Ao longo dessa trajetória, ultrapassou a marca de mil programas produzidos. Pelo programa já passaram artistas de reconhecimento nacional e internacional. Mas, acima de tudo, o Francamente abriu espaço para a efervescência das garagens, das bandas locais, dos artistas independentes, dos produtores culturais, dos pesquisadores, dos comunicadores, dos representantes de coletivos e de tantas pessoas que ajudam a contar a história viva da região.

    Construir essa vitrine audiovisual exige constância, curadoria e cuidado. E fazemos isso porque acreditamos que uma cidade também se reconhece pelas conversas que registra, pelas cenas que valoriza e pelas histórias que decide não deixar passar em silêncio.

    Esse registro, no entanto, não termina quando a câmera desliga. Uma entrevista publicada hoje pode ser descoberta amanhã, reencontrada daqui a alguns anos, usada como memória de uma cena, de uma geração, de uma cidade. Para isso, ela precisa circular.

    O verdadeiro boca a boca digital

    Muitas vezes, caímos na armadilha de achar que o trabalho termina quando o link do YouTube vai ao ar. Esperamos que a plataforma faça, sozinha, a mágica da distribuição.

    Mas o algoritmo não entende o valor poético de uma letra, o percurso de uma banda independente ou a importância de uma conversa para a memória cultural de uma cidade. Ele responde a sinais: visualizações, comentários, curtidas, compartilhamentos, tempo de exibição.

    Quando alguém passa pela nossa bancada e espera que a plataforma faça todo o resto, algo se perde no caminho. A força de uma cena cultural de nicho raramente vem de grandes patrocínios comerciais, impulsionamentos ou anúncios pagos. Ela depende, sobretudo, do trabalho de formiga da própria comunidade.

    O Francamente é um espaço construído com aqueles que se sentam à nossa mesa, com o público que acompanha, com quem comenta, compartilha, indica, volta para assistir e ajuda a fazer circular uma cultura com mais substância.

    Com o Portal MOV8, passamos a ampliar ainda mais o alcance dessas conversas, transformando entrevistas em matérias, registros, reflexões e conteúdos editoriais com mais contexto. A ideia é não esperar que outros veículos reconheçam o valor dessas histórias para só então fazê-las circular. Nós mesmos estamos criando novos caminhos para que elas cheguem a mais pessoas. Uma conversa gravada no Francamente pode virar memória, pauta, notícia, reflexão cultural e ponto de partida para novos encontros.

    Como você pode fazer a diferença hoje?

    Se a nossa comunidade não regar o próprio jardim, a cena local enfraquece. Apoiar o espaço onde você — ou seus amigos de profissão — se apresentam passa por atitudes simples, mas capazes de mudar o alcance de um vídeo, de uma entrevista, de uma matéria e de toda uma rede de produção cultural.

    Engaje o conteúdo.
    Viu a entrevista nas plataformas digitais? Deixe o gostei e gaste 30 segundos escrevendo um comentário real. Isso ajuda a mostrar para a plataforma que aquele conteúdo importa.

    Fortaleça o colega de bancada.
    Se você é músico, artista, produtor cultural, pesquisador, comunicador ou simplesmente alguém que já passou pelo Francamente, não divulgue apenas o seu episódio. Compartilhe também a entrevista da outra banda da cidade, da artista que lançou um projeto novo, do produtor que está movimentando a cena, da pesquisadora que trouxe uma boa reflexão, do convidado que contou uma história importante. O público deles pode se tornar também o seu público amanhã.

    Espalhe no analógico.
    Mande o link daquela entrevista bonita, densa ou divertida no grupo de WhatsApp da família, dos amigos do trabalho, dos colegas de banda, de quem realmente gosta de música, cultura e boas conversas.

    Nadar contra a correnteza dos conteúdos vazios da internet tem um custo alto — incluindo o custo de não agradar ao algoritmo. Mas é também uma forma de preservar identidade, memória e presença cultural.

    O espaço está aberto. Os microfones continuam ligados. As conversas seguem sendo gravadas. Mas o alcance desse som depende do eco que cada um de nós ajuda a produzir nas ruas e nas redes.

    O Francamente é feito com quem senta à mesa, com quem acompanha de casa e com quem acredita que essas histórias merecem seguir circulando.

    Vamos fazer esse som circular?

  • IARAH: a jovem voz do rock que aprendeu a cantar a própria história

    IARAH: a jovem voz do rock que aprendeu a cantar a própria história

    Em conversa no Francamente, artista fala sobre infância no palco, amadurecimento vocal, oportunidades internacionais e a nova fase autoral em português.

    Antes de transformar suas próprias histórias em música, Iarah aprendeu a habitar o palco por muitos caminhos. Foi criança fã de Kiss, aluna de teatro musical, voz em formação na School of Rock, finalista de programa de TV, além de artista selecionada para uma oportunidade ligada a um dos maiores programas de talentos dos Estados Unidos. No Francamente, em conversa com Tainan Franco, ela revisita essas histórias com humor, sinceridade e uma maturidade que não apaga a leveza de quem ainda está construindo a própria trajetória.

    Da “Iarinha Kiss” à School of Rock

    A relação de Iarah com o rock começou ainda na infância. Aos quatro anos, ela já era fã de Kiss, frequentava a 89 Rádio Rock e chegou a ganhar o apelido de “Iarinha Kiss”. Na entrevista, ela conta histórias que parecem roteiro de filme: vinheta gravada na rádio, ida ao show da banda ainda criança e até aniversário infantil com banda cover de Kiss.

    Iarinha – fonte: Yotube (https://youtu.be/bozjVQSuBO8)

    Antes de assumir a música como caminho principal, ela passou pela publicidade, pelo teatro e pelo teatro musical. Essas experiências ajudaram a construir presença de palco, projeção vocal e familiaridade com a performance.

    Em 2019, entrou na School of Rock, inicialmente por causa de uma montagem do musical School of Rock. A ideia era aprender baixo para um teste, mas a escola acabou se tornando decisiva em sua trajetória musical. Foi ali que ela se descobriu melhor como cantora, percebeu a força dos graves de sua voz e precisou reaprender o equilíbrio entre potência, técnica e cuidado vocal.

    Técnica, palco e televisão

    A entrevista mostra uma artista jovem, mas muito consciente de que cantar exige trabalho. Iarah fala sobre estudo vocal, respiração, belting, extensão, graves, agudos e o cuidado necessário para não transformar potência em excesso de peso na voz.

    Esse amadurecimento também passou pela televisão. Depois de tentar diferentes programas musicais, ela chegou ao Canta Comigo Teen, onde levantou os 100 jurados em uma das apresentações e chegou à final. A experiência não terminou com a vitória, mas abriu portas, rendeu entrevistas e novas oportunidades.

    No programa, Iarah também se aproximou de nomes ligados ao rock e ao metal, como Bruno Sutter, citado com carinho na conversa — e no episódio contado a seguir.

    A viagem que quase foi

    Selecionada para o AllStars, programa da School of Rock que reúne alunos de destaque para apresentações nos Estados Unidos, Iarah mobilizou uma campanha para conseguir viajar. Fez vaquinha, movimentou as redes, pediu apoio e conseguiu reunir o valor necessário praticamente na semana da viagem, com apoios que incluíram até uma contribuição de Bruno Sutter.

    Ela embarcou com a mãe, fez escala no Panamá e estava a caminho dos Estados Unidos quando a viagem precisou ser interrompida antes de chegar ao destino. Na entrevista, Iarah conta que o episódio envolveu uma denúncia anônima sobre supostas inconsistências no visto — informação que foi posteriormente desmentida na embaixada, mas que naquele momento foi suficiente para impedir o embarque. A situação também se cruzava com outra oportunidade internacional: a aprovação para o America’s Got Talent.

    A história, contada no Francamente entre frustração e bom humor, ficou como um dos grandes perrengues de uma trajetória ainda jovem, mas já cheia de tentativas, portas abertas e recomeços.

    Do metal em inglês ao pop rock em português

    Durante muito tempo, Iarah imaginou sua carreira autoral ligada ao metal em inglês. Ela chegou a lançar duas músicas nesse estilo, mas uma conversa com o produtor Thiago Bianchi abriu outro caminho.

    Depois de ouvi-la em um contexto da School of Rock, Thiago propôs produzir um álbum e sugeriu uma mudança: em vez de seguir pelo metal em inglês, buscar um caminho mais próximo do pop rock em português.

    Capa de “Não me Olhe assim”, single no Spotify. Fonte: https://open.spotify.com/intl-pt/album/45irmK7pysqP5tnNLBmaYh

    No começo, Iarah resistiu à ideia. O inglês parecia mais próximo das referências que ela consumia e também oferecia certa proteção emocional. Escrever em português, como ela reconhece na entrevista, expõe mais. A língua materna deixa tudo mais direto.

    A transição exigiu tempo. Ela estudou composição, passou pelo Midas Academy, escola de Rick Bonadio, trabalhou melodias, letras e estruturas musicais, até começar a encontrar uma forma mais própria de escrever.

    Cantar em primeira pessoa

    A fase atual de Iarah parece ser menos sobre escolher um rótulo e mais sobre construir uma linguagem. Rock, metal, teatro musical, pop rock e televisão fazem parte de sua formação, mas agora aparecem filtrados por uma busca autoral.

    Na entrevista, ela fala sobre músicas já lançadas, como “Judas”, “Ignorância” e “Não me Olha Assim”, além do próximo lançamento, “Ao Menos Uma Vez”. A nova faixa, segundo ela, fala sobre luto e integra uma sequência de lançamentos que deve formar um álbum.

    O mais interessante é acompanhar esse momento de passagem: Iarah deixa de ser apenas a jovem intérprete de grandes referências para se afirmar como artista que escreve, escolhe, testa caminhos e aprende a cantar a própria história.

    Assista à entrevista no Youtube:

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  • Ki’MBANDA: afro rock, ancestralidade e o direito de ocupar o palco

    Ki’MBANDA: afro rock, ancestralidade e o direito de ocupar o palco

    Em conversa no Francamente, banda fala sobre lançamento de álbum, resistência preta, espiritualidade, composição coletiva e a faixa “Respeita os Nego… Véio!”

    Há bandas que nascem de um projeto musical. Outras nascem de uma urgência. A Ki’MBANDA parece ocupar os dois lugares ao mesmo tempo: é som, é manifesto, é encontro, é tambor, é rock, é espiritualidade, é memória e é também uma resposta direta a uma pergunta que atravessa a história da música brasileira: quem tem o direito de ocupar o palco do rock?

    Formada por Henrique Krispim, o Krisx, no vocal; Yves Remont, na guitarra; Rogério Luís, o Menudo, no baixo; Marcos Guarujá e Anderson Kafé, na percussão; Igor Mamuth, na bateria; e Nissa e Mayra Costa nos backing vocals, a Ki’MBANDA esteve no Francamente representada por Krisx, Rogério Menudo e Anderson Kafé, em conversa conduzida por Tainan Franco, nos estúdios da MOV8 Produções.

    Na conversa, a banda falou sobre o lançamento de seu álbum, definido como um manifesto de afro rock, ancestralidade e resistência. Gravado “ao vivo e sem filtros”, o trabalho reforça a identidade do grupo, que usa o rock como ferramenta de combate ao racismo, ao apagamento cultural e ao etarismo na música brasileira.

    Um quilombo musical

    A história da banda começa em torno de uma mesa, em uma conversa que misturava amizade e música, além do desejo da criação de uma banda de rock formada por homens pretos. O nome Ki’MBANDA, conforme explica Krisx, é associado à ideia de cura, e a banda passa a se definir como um espaço em que o rock se encontra com ancestralidade, espiritualidade e resistência.

    A Ki’MBANDA se entende como um “quilombo musical”, expressão que aparece na entrevista para explicar o modo como o grupo cria, decide e se organiza. Não há apenas um líder que determina tudo. Cada músico traz sua história, sua escuta, sua técnica, sua vivência e sua responsabilidade dentro do coletivo.

    Essa ideia aparece também no processo de composição. Durante a pandemia, parte das músicas foi surgindo à distância, em trocas por WhatsApp, com bases, ideias, letras e arranjos circulando entre os integrantes. Quando os ensaios voltaram, já havia uma massa criativa em ebulição. A banda fala desse processo como algo coletivo, generoso, em que a vaidade precisa ceder espaço para que a música cresça.

    Na Ki’MBANDA, uma letra pode nascer de um integrante, o riff de outro, a levada de outro, mas a música só se completa quando passa pelo corpo inteiro da banda.

    O tambor na frente da história

    Se o rock é muitas vezes associado à guitarra, à bateria e ao peso elétrico, a Ki’MBANDA desloca esse centro. Na conversa, a banda afirma que tudo ali passa pelo tambor. A guitarra é tambor. O baixo é tambor. A bateria é tambor. A voz também é percussiva.

    Essa concepção dá ao som da banda uma identidade própria: peso, swing, ritualidade e presença. A percussão não aparece como adorno, nem como camada decorativa colocada por cima do rock. Ela conduz. Em certo momento, a banda chega a dizer que os tambores da Ki’MBANDA são como os “violinos” da orquestra: estão à frente da história.

    É nessa escolha estética que o afro rock da Ki’MBANDA se afirma politicamente. A banda não apenas mistura gêneros. Ela reposiciona a escuta. Coloca no centro aquilo que muitas vezes foi tratado como margem: o terreiro, o tambor, a ancestralidade preta, as referências afro-brasileiras e a força coletiva da música.

    Rock também é território preto

    Um dos pontos mais fortes da entrevista é a afirmação de que o rock também é preto. A conversa passa por referências como blues, samba, baião, Sepultura, Gangrena Gasosa, Gilberto Gil, Baden Powell, Nação Zumbi e tantas outras misturas que mostram como a música brasileira sempre foi atravessada por encontros, apagamentos e disputas de narrativa.

    A Ki’MBANDA se coloca dentro dessa linhagem, mas também aponta uma ausência: no rock nacional, ainda há pouco espaço para bandas que assumam, de forma frontal, a ancestralidade afro-brasileira, os orixás, o tambor e a experiência preta como matéria central da criação.

    Por isso, quando a banda diz “afro é rock, afro é pop, afro é tudo”, não está apenas criando uma boa frase. Está recusando a ideia de que a cultura preta deva ocupar apenas determinados gêneros ou lugares previamente autorizados.

    “Respeita os Nego… Véio!”

    Entre os temas da entrevista está a faixa inédita “Respeita os Nego… Véio!”, que aparece como síntese bem-humorada e contundente de uma questão importante: a presença de músicos pretos mais velhos em uma cena que muitas vezes valoriza apenas a juventude, a novidade e a aparência de frescor.

    A faixa conversa com o etarismo, mas também com a experiência acumulada. A Ki’MBANDA não nasce de jovens tentando descobrir uma identidade de palco. Ela nasce de músicos que já atravessaram muitas noites, muitos trabalhos, muitas formações, muitos palcos possíveis e impossíveis.

    Essa maturidade aparece na forma como a banda fala de si. Não há ingenuidade sobre o mercado, nem romantização das dificuldades. Há consciência de que música também exige estratégia, estudo, produção, comunicação, presença e trabalho contínuo.

    Fé, corpo e linguagem

    Outro aspecto importante da conversa é a presença da espiritualidade. A Ki’MBANDA fala de orixás, de terreiro, de ancestralidade e de fundamentos sem transformar isso em exotismo. A espiritualidade aparece como parte da vida, da criação e da linguagem da banda.

    Essa dimensão dá ao trabalho uma força que vai além do discurso. A Ki’MBANDA não apenas canta sobre ancestralidade. Ela tenta fazer com que a ancestralidade esteja na estrutura da música: no compasso, no peso, na levada, na voz, na percussão e na presença de palco.

    Uma conversa com peso e riso

    A entrevista no Francamente tem algo que combina muito com a própria Ki’MBANDA: alterna densidade e riso sem pedir desculpas por isso. Fala de racismo, escravidão, apagamento histórico, indústria cultural e resistência, mas também passa por piadas, histórias de bastidor, provocações e cumplicidade.

    A Ki’MBANDA ocupa o rock com tambor, guitarra, fé, corpo e memória. E, ao fazer isso, lembra que a música brasileira ainda tem muitos espaços a reconhecer, muitas histórias a reparar e muitos palcos a abrir.

    Assista à entrevista no Youtube!

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  • Campola Rock City: do Orkut ao festival, a força do underground regional

    Campola Rock City: do Orkut ao festival, a força do underground regional

    Projeto independente de divulgação da cena rock nasceu em Campo Limpo Paulista e hoje reúne comunidade, playlist, podcast, canal no YouTube e festival próprio.

    Antes de virar perfil no Instagram, canal no YouTube, podcast, playlist e festival, o Campola Rock City nasceu como ponto de encontro virtual para quem fazia, acompanhava e divulgava a cena rock independente da região. Criado inicialmente como comunidade no Orkut, o projeto atravessou plataformas, acompanhou mudanças na forma de divulgar eventos e se consolidou como uma iniciativa de memória, circulação e fortalecimento do underground regional.

    No texto a seguir, Felipe Gonçalves, responsável pelo Campola Rock City, relembra a origem do projeto, sua ligação com Campo Limpo Paulista e os novos caminhos de uma iniciativa que segue conectando bandas, público e espaços culturais.

    A importância do Campola Rock City e o movimento que ele faz

    Por Felipe Gonçalves

    O Campola Rock City, enquanto mídia independente que se movimenta — e se relaciona vividamente com o underground, principalmente da região metropolitana de Jundiaí — surgiu como uma comunidade do Orkut, em meados de 2010. Naquele momento, havia a necessidade de troca de ideias e, principalmente, de divulgação por meio de flyers, já que os eventos de rock’n’roll de menor porte, especialmente em Campo Limpo Paulista, não tinham qualquer cobertura da imprensa da região.

    O apelido que a própria cidade ganhou na época, entre os entusiastas da cena, veio justamente da canção “Detroit Rock City”, do KISS, enaltecendo a movimentação musical que sempre ocorreu por essas bandas.

    Com a chegada e popularização do Facebook no Brasil — e, por consequência, a posterior extinção do Orkut pela Google —, a comunidade migrou para um grupo dentro da plataforma, existente até os dias de hoje, com mais de 600 membros.

    Com a retomada dos eventos no período pós-pandemia, surgiu novamente a necessidade de abraçar essa comunidade também no ambiente online. Assim, no dia 1º de abril de 2024, o Campola Rock City passou a ser multiplataforma, promovendo informações também em seu perfil no Instagram, movimentado por mim até os dias de hoje.

    Logo vieram outros projetos sustentando a mesma alcunha, como um canal no YouTube e um podcast, com episódios financiados por edital da PNAB. Também surgiu a playlist no Spotify, que hoje reúne 120 bandas independentes, tanto da região quanto da Grande São Paulo.

    Em 2025, por meio de patrocínio e parceria com a Cervejaria Ahtrio e o Hotel Fazenda Morada do Verde, o Campola Rock City ganhou também a primeira edição de seu festival, com entrada franca.

    Para acompanhar todas as movimentações desse projeto de divulgação coletiva, basta acessar o Linktree do Campola Rock City e conhecer os espaços onde essa iniciativa fez – e segue fazendo – diferença.