De 2027 a 2036, a cultura ganha espaço formal na agenda internacional do desenvolvimento sustentável. A pergunta é o que faremos com esse espaço.
A Assembleia Geral das Nações Unidas proclamou o período de 2027 a 2036 como a Década Internacional da Cultura para o Desenvolvimento Sustentável. A UNESCO ficará responsável por conduzir sua implementação e elaborar um Plano de Ação para os próximos dez anos.
Para quem trabalha com cultura, a notícia soa quase como a confirmação de algo que repetimos há muito tempo: a cultura é transversal.
Transversalidade da cultura
Quando uma cidade decide o que fazer com um prédio antigo, por exemplo, há uma decisão cultural ali, mesmo que a reunião esteja acontecendo no Urbanismo. Quando um bairro perde seu cinema, sua biblioteca ou seu centro comunitário, o assunto pode aparecer na planilha como manutenção, patrimônio ou orçamento — mas alguma coisa muda na forma como aquelas pessoas se encontram, lembram e ocupam o lugar onde vivem. Quando uma política de turismo transforma uma festa popular em produto, ou quando uma obra viária modifica um território onde determinada tradição acontece há décadas, a cultura está novamente na mesa. Mesmo que ninguém tenha colocado esse nome na pauta.
Talvez seja esse o aspecto mais interessante da Década anunciada pela ONU. Ela parte da tentativa de colocar a cultura dentro da própria ideia de desenvolvimento, e não apenas ao lado dela.
Porque desenvolvimento nunca é uma operação puramente técnica. Construir, preservar, remover, estimular uma atividade econômica, transformar um bairro ou escolher onde investir dinheiro público também significa decidir que cidade queremos criar. E essa cidade terá memória, hábitos, referências, conflitos, formas de convivência e maneiras próprias de entender o mundo.
Tudo isso é cultura
A palavra transversalidade aparece com frequência nas políticas culturais, porém corre o risco de ser esvaziada e se tornar somente uma dessas expressões que cabem bem em qualquer apresentação de PowerPoint. Mas há uma ideia bastante concreta por trás dela: decisões tomadas em uma área podem transformar profundamente a vida cultural de um território.
O caminho inverso também existe. Uma biblioteca pode alterar a relação de uma comunidade com a educação. Um festival pode estimular o comércio, turismo e circulação urbana. Um espaço cultural ativo à noite muda a maneira como uma região é ocupada, com impactos significativos também sobre a segurança. Uma tradição preservada pode carregar conhecimentos sobre território e ambiente que nenhuma política desenhada de longe conseguiria simplesmente substituir.
Por isso, colocar a cultura na discussão sobre desenvolvimento sustentável não significa procurar justificativas externas para provar que ela “serve” para alguma coisa. Há sempre esse risco quando tentamos defender políticas culturais: ao dizer que cultura gera emprego, movimenta restaurantes, atrai turistas e melhora indicadores, não estamos querendo reduzi-la a números econômicos. Tudo isso ajuda a explicar o tema àqueles que colocam essa dimensão como prioridade. Mas nossa preocupação é muito maior: a cultura também participa daquilo que uma sociedade considera importante preservar, transmitir e transformar.
Agenda 2030

A cultura atravessa vários dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, mas não ganhou um ODS para chamar de seu. Isso pode ser uma virtude, mas também pode ser um problema, porque aquilo que é responsabilidade de todos às vezes termina sem ser prioridade de ninguém.
Nos últimos anos, por isso, cresceu internacionalmente a defesa de que a cultura tenha um objetivo próprio na agenda que substituirá os ODS depois de 2030. A Década começa justamente em 2027 e atravessa essa mudança. Não é difícil perceber que parte da disputa desses dez anos será sobre o lugar que a cultura conseguirá ocupar nesse cenário.
Quando a conversa chega à cidade
Tudo isso parece muito distante quando escrito em uma resolução das Nações Unidas, mas fica bem menos abstrato quando olhamos pela janela.
Vamos voltar ao exemplo de um antigo edifício público no centro de uma cidade. Podemos começar a conversa perguntando quanto custa reformá-lo e quanto vale o terreno. São perguntas legítimas. Mas podemos perguntar também o que aquele lugar representa, que usos acumulou ao longo do tempo, quem circula por ali e o que desapareceria junto com ele.
Não estamos acrescentando um “olhar cultural” depois que a decisão já foi tomada. Estamos mudando a própria maneira de decidir.
O mesmo vale para um equipamento de bairro. Quando uma biblioteca fecha, perdemos algo difícil de expressar apenas pelo número de empréstimos registrados no ano anterior — uma criança deixou de ter aquele lugar para descobrir livros. Um grupo perde a sala onde costumava se reunir — e assim uma atividade deixou de acontecer. Aos poucos, aquele ponto desaparece também do mapa afetivo do bairro.
Quem trabalha com cultura conhece bem esse tipo de efeito. Muitas vezes percebemos o valor de um espaço justamente quando ele deixa de existir.
É por isso que transversalidade não deveria significar simplesmente reunir secretarias ao redor da mesma mesa. O desafio é fazer com que determinadas perguntas estejam presentes antes das decisões:
O que estamos preservando aqui? O que estamos apagando? Quem consegue permanecer nesse território depois dessa transformação? Que formas de encontro este projeto favorece? Que memória carregamos conosco e qual estamos deixando para trás?
Talvez a cultura entre no desenvolvimento sustentável exatamente nesse ponto: lembrando que desenvolver um território também significa escolher o que poderá continuar existindo nele.
E agora?
A ONU já fez a parte simbólica: deu nome, calendário e projeção internacional para a Década. A UNESCO terá agora de transformar essa declaração em um Plano de Ação.
É aí que a história fica mais interessante.
Porque dez anos são tempo suficiente para organizar congressos, produzir relatórios e repetir que cultura importa. Também são tempo suficiente para descobrir se esse reconhecimento chegou aos lugares onde decisões concretas são tomadas.
Em 2036, talvez a melhor medida do sucesso da Década seja observar se a cultura passou a entrar mais cedo nas conversas sobre cidades, educação, economia, clima e desenvolvimento — antes de o projeto estar pronto, o orçamento fechado ou o prédio demolido (e um estacionamento ou torres de concreto levantadas em seu lugar).
Se isso acontecer, teremos avançado bastante.
Caso contrário, teremos passado dez anos explicando novamente algo que quem trabalha com cultura já aprendeu há muito tempo: a cultura sempre esteve atravessando o desenvolvimento. O difícil é fazer o planejamento público perceber isso a tempo.

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