Atividade inserida no Projeto “Inteligência Artificial: da Lógica às Humanidades” (CNPq).

Raciocínio crítico (ou pensamento crítico) é o processo que envolve avaliar opiniões antes de considerá-las verdadeiras. Ou seja, envolve assumir uma posição crítica usando habilidades de alfabetização, incluindo lógica, argumentos sólidos e a capacidade de entender perspectivas antes de fazer suposições ou chegar a uma conclusão. O pensamento crítico inclui aprender os princípios da argumentação, questionar o status quo, revisar as formas existentes de pensar as coisas, verificar fatos e suposições comuns e inclusive verificar se um sistema de IA está se comportando razoavelmente.

Criatividade e pensamento crítico são habilidades essenciais para economias e sociedades complexas, globalizadas e cada vez mais digitalizadas. Embora os professores e os formuladores de políticas educacionais considerem a criatividade e o pensamento crítico como objetivos importantes de aprendizado, ainda não está claro para muitos o que significa desenvolver essas habilidades no ambiente escolar. Para torná-las mais visível e tangível aos profissionais, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) trabalhou com redes de escolas e professores em 11 países testando um conjunto de recursos pedagógicos que exemplificam o que significa ensinar, aprender e progredir na criatividade e no pensamento crítico no ensino fundamental e ensino médio.

Introdução

Os estudantes não estão bem preparados para enfrentar os desafios desse novo mercado devido ao treinamento inadequado em habilidades de pensamento crítico, colaboração, criatividade e comunicação. Educar os alunos com pensamento crítico significa instilar a capacidade de tomar decisões, conduzir análises aprofundadas e avaliar as informações recebidas, sem aceitar o que é socialmente aceito como verdadeiro. Quais são os principais elementos da criatividade e do pensamento crítico? Que estratégias e abordagens pedagógicas os professores podem adotar para promovê-las? A preocupação é muito relevante, a ponto de um projeto internacional (projeto OECD-CERI) ter sido levado a cabo para apoiar atividades de professores em 11 países em criatividade e pensamento crítico no ensino e aprendizagem cotidianos – é o que propomos aplicar neste projeto.

As pessoas poderão sobreviver em uma sociedade dominada pela IA se forem capazes de explorar máquinas para complementar suas habilidades, e não seguirem o que as máquinas as mandam fazer. Os alunos devem ser preparados para que o resultado do avanço tecnológico não seja infeliz. As máquinas estão melhorando em muitos dos elementos que estão sob a égide do pensamento crítico, mas o pensamento crítico continuará sendo a pedra angular do trabalho humano na era digital. Alguns dos temas a serem abordados são:

1. Introdução à noção de argumento;

2. O papel da lógica: argumentos válidos versus bons argumentos;

3. A importância de avaliar premissas;

4. Como usar o pensamento crítico para combater Fake News;

5. Introdução à noção de explicação;

6. Introdução à noção de causa e efeito.

O que é Pensamento Crítico?

Argumentação e Ciência

Pensamento Crítico e IA

Para saber mais!
Material complementar dos pesquisadores do IdeIA+

Pensamento crítico: opinião é argumento?

Em uma discussão, opinião é argumento? Como as notícias falsas agem na formação do pensamento crítico? Quem esclarece essa perguntas é o professor Walter Carnielli, da Unicamp (Publicado em 14/01/2019)

COCEN Unicamp – Terça-feira, 27 de dezembro de 2016 – Por BEATRIZ MONTESANTI E TATIANA DIAS)

Por que ‘opinião não é argumento’, segundo professor de lógica da Unicamp

Em entrevista ao ‘Nexo’, Walter Carnielli explica como manter uma discussão respeitosa e produtiva

Não é fácil vencer uma discussão. Especialmente em um contexto inflamado, em que as opiniões se polarizam, notícias falsas se proliferam, debatedores recorrem a ofensas e sarcasmo e festas de fim de ano criam ambientes propícios para a briga.

Uma boa discussão, ao contrário do que a maior parte das pessoas pensa, não serve para a disputa – e, sim, para a construção do conhecimento. Nesse sentido, saber sustentar uma boa argumentação é fundamental.

“Um argumento é uma ‘viagem lógica’”, diz Walter Carnielli, matemático, professor de lógica na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e autor de “Pensamento crítico – o poder da lógica e da argumentação” (Editora Rideel), livro escrito em parceria com o economista e jurista americano Richard Epstein.

Para Carnielli, os brasileiros têm uma “péssima educação argumentativa”. Confundimos discussão com briga e não sabemos lidar bem com críticas. Mas há técnicas que podem ajudar na construção de bons argumentos – e também a evitar armadilhas comuns em uma discussão, como o uso de falácias.

Entre elas está, por exemplo, a busca por entender o ponto de vista oposto – ajudando, inclusive, o opositor na construção do próprio argumento. Nesta entrevista ao Nexo, o professor explica algumas delas:

O que é considerado um mau argumento?

WALTER CARNIELLI Um argumento é uma ‘viagem lógica’’ que vai das premissas à conclusão. Conforme a definição dada no nosso livro, um bom argumento é aquele em que há boas razões para que as premissas sejam verdadeiras, e, para além disso, as premissas apresentam boas razões para suportar ou apoiar a conclusão.

Em outras palavras, as premissas que você apresenta devem ser precisas e verdadeiras, e devem produzir uma razão para se pensar que a conclusão é verdadeira. Desse modo, há duas maneiras em que um argumento pode falhar, ou ser um mau argumento:

1 – Se as premissas forem falsas.

2 – Se as premissas não apoiam a conclusão.

Em geral as pessoas erram mais na parte 2: parece mais difícil decidir se as premissas apoiam ou suportam a conclusão do que verificar se elas são verdadeiras ou falsas.

Como desmontar um mau argumento de forma respeitosa e produtiva?

WALTER CARNIELLI Existe um princípio metodológico importante na argumentação que é o Princípio da Acomodação Racional, também conhecido como Princípio da Caridade, e que foi tratado por filósofos de peso como Willard Van Orman Quine e Donald Davidson.

O princípio exige que devemos tentar entender o ponto de vista do oponente em sua forma mais forte e persuasiva antes de submeter sua visão à nossa avaliação. Dessa forma, devemos primeiro fazer todos os esforços para esclarecer as premissas e a conclusão do oponente, inclusive ajudando-o a reparar os pontos fracos. Só então, após essa atitude respeitosa, é que devemos gentilmente apontar a ela ou a ele onde suas premissas são falhas ou duvidosas, e/ou porque tais premissas não apoiam a conclusão.

Em outras palavras, o Princípio da Acomodação Racional impõe que interpretemos as afirmações dos outros de forma a maximizar a verdade ou racionalidade do adversário, tanto quanto isso seja possível. É a maneira mais respeitosa e produtiva de manter uma discussão honesta.

Quais são as falácias mais recorrentes?

WALTER CARNIELLI Nós, brasileiros, temos uma péssima educação argumentativa: confundimos discussão com briga, e vemos as críticas como inveja, falta de amizade, falta de amor etc. Pior ainda: quando começa uma discussão, muitas vezes vem o seguinte: ‘tenho o direito de ter minha opinião’, seja sobre o criacionismo, o governo, a política ou a pena de morte.

Claro que todos têm o direito de manter sua opinião, mas opinião não é argumento. A democracia também é feita de opiniões – ninguém precisa argumentar para votar no candidato que preferir, basta manifestar sua opinião nas urnas. Mas quando o candidato quer nos convencer, ou quando queremos convencer os outros sobre nossa posição política, nossa crenças não bastam.

Fora esta falácia estrutural tremenda, que revela que a pessoa sequer sabe o que é um argumento, algumas das falácias mais comuns são:

– Ad Hominem: quando se ataca a pessoa, não o argumento. Por exemplo: “o médico me recomendou parar de fumar. Mas ele fuma!”

– Falso dilema: quando se exageram os dois lados de uma questão, não deixando lugar para nuances ou meio-termo. Por exemplo: “você é a favor do aborto? Então você apoia o assassinato de crianças”.

– Post hoc ergo propter hoc: ou seja, “depois disso, portanto por causa disso”. Por exemplo: “Hitler era vegetariano, e veja no que deu’”.

– Inverter o ônus da prova: Por exemplo: “claro que OVNIs existem. Prove o contrário’.’

– Falsa analogia: por exemplo, tentar comparar casamento homossexual com legalização da pedofilia.

Por que tanta gente recorre às falácias?

WALTER CARNIELLI Há centenas de falácias conhecidas e estudadas, mas a lista é potencialmente infinita. Há falácias lógicas, falácias estruturais, falácias de analogia, falácias emocionais, etc. Uma falácia é um mau argumento que não pode ser reparado. As pessoas gostam das falácias com rótulos em latim, que soam poderosas, e supostamente são usadas por advogados, ou podem ser usadas para impressionar o oponente.

Quão relevante você acredita que é a lógica formal, dado o fato de pesquisas sugerirem que os mecanismos utilizados para formar opiniões não são racionais?

WALTER CARNIELLI Primeiramente, crenças não são argumentos, embora possam influir neles. Os mecanismos para formar opiniões podem não ser racionais, mas até nesse ponto a investigação lógica é essencial.

Por exemplo, existe uma racionalidade de como revisar suas próprias crenças – a teoria de revisão de crenças – que são essenciais para computação teórica, por exemplo. Como podemos ‘explicar’ a um computador como ele deve rearranjar seus dados frente a novas informações? Ainda mais, as pessoas podem manter crenças verdadeiras por razões irracionais, ou manter crenças falsas por decisões racionais.

Some-se a tudo isso o fato de que o conhecimento é tradicionalmente visto como um tipo especial de crença, e que o problema das contradições na razão é também um importante tema da lógica.

A lógica formal, e a informal [presente na linguagem comum, que não utiliza nenhum tipo de técnica para ser apresentada], são importantíssimas para se investigar a razão humana.

Fonte: Nexo

Sede das atividades presenciais