Categoria: Portal MOV8

  • Programa Francamente: cultura independente também precisa circular

    Programa Francamente: cultura independente também precisa circular

    Em seu oitavo ano e com mais de mil programas produzidos, o Francamente se consolida como um acervo vivo da cultura independente, reunindo histórias, artistas e cenas que ajudam a contar a vida cultural de Jundiaí e região.

    Quem faz arte de forma independente sabe que o palco é um dos lugares mais honestos do mundo. Ali, não há muito truque: é o artista, sua presença e a troca real com o público.

    Mas quando as luzes se apagam e o show precisa seguir para o mundo digital, a lógica muda. Entramos no terreno dos algoritmos, das métricas e de uma disputa por atenção que costuma premiar o conteúdo fácil, a fofoca rápida e o clickbait em vez da escuta, da memória e da profundidade.

    Aqui na MOV8, o Programa Francamente fez uma escolha consciente desde o início: amplificar a voz de quem tem algo a dizer.

    Criado há sete anos, o Francamente nasceu no rádio e sempre esteve também no YouTube e em outras plataformas digitais. Depois da pandemia, passou a ser gravado nos estúdios da MOV8, mantendo sua retransmissão na Rádio Difusora e chegando também a diversas rádios comunitárias pelo Brasil.

    Ao longo dessa trajetória, ultrapassou a marca de mil programas produzidos. Pelo programa já passaram artistas de reconhecimento nacional e internacional. Mas, acima de tudo, o Francamente abriu espaço para a efervescência das garagens, das bandas locais, dos artistas independentes, dos produtores culturais, dos pesquisadores, dos comunicadores, dos representantes de coletivos e de tantas pessoas que ajudam a contar a história viva da região.

    Construir essa vitrine audiovisual exige constância, curadoria e cuidado. E fazemos isso porque acreditamos que uma cidade também se reconhece pelas conversas que registra, pelas cenas que valoriza e pelas histórias que decide não deixar passar em silêncio.

    Esse registro, no entanto, não termina quando a câmera desliga. Uma entrevista publicada hoje pode ser descoberta amanhã, reencontrada daqui a alguns anos, usada como memória de uma cena, de uma geração, de uma cidade. Para isso, ela precisa circular.

    O verdadeiro boca a boca digital

    Muitas vezes, caímos na armadilha de achar que o trabalho termina quando o link do YouTube vai ao ar. Esperamos que a plataforma faça, sozinha, a mágica da distribuição.

    Mas o algoritmo não entende o valor poético de uma letra, o percurso de uma banda independente ou a importância de uma conversa para a memória cultural de uma cidade. Ele responde a sinais: visualizações, comentários, curtidas, compartilhamentos, tempo de exibição.

    Quando alguém passa pela nossa bancada e espera que a plataforma faça todo o resto, algo se perde no caminho. A força de uma cena cultural de nicho raramente vem de grandes patrocínios comerciais, impulsionamentos ou anúncios pagos. Ela depende, sobretudo, do trabalho de formiga da própria comunidade.

    O Francamente é um espaço construído com aqueles que se sentam à nossa mesa, com o público que acompanha, com quem comenta, compartilha, indica, volta para assistir e ajuda a fazer circular uma cultura com mais substância.

    Com o Portal MOV8, passamos a ampliar ainda mais o alcance dessas conversas, transformando entrevistas em matérias, registros, reflexões e conteúdos editoriais com mais contexto. A ideia é não esperar que outros veículos reconheçam o valor dessas histórias para só então fazê-las circular. Nós mesmos estamos criando novos caminhos para que elas cheguem a mais pessoas. Uma conversa gravada no Francamente pode virar memória, pauta, notícia, reflexão cultural e ponto de partida para novos encontros.

    Como você pode fazer a diferença hoje?

    Se a nossa comunidade não regar o próprio jardim, a cena local enfraquece. Apoiar o espaço onde você — ou seus amigos de profissão — se apresentam passa por atitudes simples, mas capazes de mudar o alcance de um vídeo, de uma entrevista, de uma matéria e de toda uma rede de produção cultural.

    Engaje o conteúdo.
    Viu a entrevista nas plataformas digitais? Deixe o gostei e gaste 30 segundos escrevendo um comentário real. Isso ajuda a mostrar para a plataforma que aquele conteúdo importa.

    Fortaleça o colega de bancada.
    Se você é músico, artista, produtor cultural, pesquisador, comunicador ou simplesmente alguém que já passou pelo Francamente, não divulgue apenas o seu episódio. Compartilhe também a entrevista da outra banda da cidade, da artista que lançou um projeto novo, do produtor que está movimentando a cena, da pesquisadora que trouxe uma boa reflexão, do convidado que contou uma história importante. O público deles pode se tornar também o seu público amanhã.

    Espalhe no analógico.
    Mande o link daquela entrevista bonita, densa ou divertida no grupo de WhatsApp da família, dos amigos do trabalho, dos colegas de banda, de quem realmente gosta de música, cultura e boas conversas.

    Nadar contra a correnteza dos conteúdos vazios da internet tem um custo alto — incluindo o custo de não agradar ao algoritmo. Mas é também uma forma de preservar identidade, memória e presença cultural.

    O espaço está aberto. Os microfones continuam ligados. As conversas seguem sendo gravadas. Mas o alcance desse som depende do eco que cada um de nós ajuda a produzir nas ruas e nas redes.

    O Francamente é feito com quem senta à mesa, com quem acompanha de casa e com quem acredita que essas histórias merecem seguir circulando.

    Vamos fazer esse som circular?

  • Rock Inc. aposta em releituras intensas para transformar clássicos do rock em experiência ao vivo

    Rock Inc. aposta em releituras intensas para transformar clássicos do rock em experiência ao vivo

    Com agenda aberta para bares e eventos públicos a partir de junho, banda formada em São Paulo reúne músicos experientes em versões de Linkin Park, Creed, Audioslave, Foo Fighters e outros nomes do rock.

    Há músicas que atravessam gerações não apenas porque foram gravadas, mas porque continuam vivas no corpo de quem canta junto. É nesse território — entre memória afetiva, peso sonoro e presença de palco — que nasce a proposta da Rock Inc., banda formada em São Paulo em janeiro de 2026.

    O projeto é novo, mas reúne músicos com longa vivência de palco. Somadas, as experiências individuais dos integrantes passam por apresentações ao lado de nomes como Frejat, Paulo Miklos, Matanza, Sepultura, Fresno, Dead Fish, Charlie Brown Jr., CPM 22, Raimundos, Lobão, Banda Malta, Supercombo, Angra, Rancore, Pitty, Nando Reis, Jota Quest, além de atrações internacionais como Maroon 5 e The Offspring.

    Com influências que passam pelo rock alternativo, pós-grunge e nu metal, o grupo se dedica a recriar grandes clássicos do rock em versões próprias, pensadas para o impacto do show ao vivo. No repertório, aparecem referências como Linkin Park, Creed, Audioslave, Thirty Seconds to Mars, Foo Fighters, System of a Down, Korn, Rage Against The Machine, Limp Bizkit, Slipknot, Stone Sour e Yungblud.

    A Rock Inc. trata o palco como lugar de experiência. Energia, entrega e conexão com o público orientam as releituras da banda, em sintonia com a frase que resume seu manifesto:

    “O rock nunca foi feito para ser apenas ouvido, mas sim, para ser sentido“.

    Clássicos revisitados com identidade própria

    A Rock Inc. surge em um momento em que a memória do rock dos anos 1990 e 2000 segue muito presente entre diferentes gerações. Canções marcadas por riffs pesados, refrões explosivos e forte carga emocional continuam mobilizando públicos que cresceram ouvindo essas bandas — e também novos ouvintes que chegaram a elas pelas plataformas digitais.

    A proposta do grupo é partir desse repertório conhecido, mas sem tratá-lo apenas como reprodução. As versões apresentadas pela banda buscam imprimir personalidade, atitude e uma nova camada de interpretação a músicas que já fazem parte da história afetiva de muita gente.

    Uma formação com estrada

    Embora tenha sido formada em janeiro de 2026, a Rock Inc. reúne músicos com trajetórias consolidadas. A banda é formada por Marcelo Carvalho nos vocais, Jay B. no baixo, Gui Figueiredo na bateria e Patrick Sant’Anna na guitarra.

    Marcelo Carvalho é cantor, músico, artista de vozes e criador de conteúdo. Reconhecido por sua extensão vocal e pela capacidade de transitar por estilos associados a nomes como Linkin Park, Slipknot, Metallica, Creed e Korn, foi finalista do programa Jovens Talentos, do Raul Gil, já cantou com Oficina G3 e Charlie Brown Jr., é endossante da Seize Instrumentos Musicais e creator da Capcom Brasil. Com mais de 900 mil seguidores nas redes sociais, Marcelo conecta performance vocal, rock, cultura gamer e entretenimento digital.

    Jay B. traz uma trajetória marcada pelo heavy metal e pela vivência de palco. Autodidata, começou sua caminhada musical inspirado por Steve Harris, do Iron Maiden, e fez parte da banda mineira Código B, com a qual dividiu palco com nomes como The Offspring, Maroon 5, Jota Quest, Charlie Brown Jr., Nx Zero, Pitty e O Rappa. Colecionador de instrumentos e com forte circulação no meio musical, Jay também construiu contato com referências internacionais do baixo, como Robert Trujillo, do Metallica; Duff McKagan, do Guns N’ Roses; Rudy Sarzo, que tocou com Ozzy Osbourne; Billy Sheehan, do Mr. Big; além do próprio Steve Harris, sua principal referência.

    Gui Figueiredo é baterista, educador musical e especialista oficial da linha V-Drums da Roland Brasil. Reconhecido na cena do metal e da música instrumental, foi fundador e baterista do Project46, além de integrar a banda Imbyra. Sua trajetória inclui também atuação como endossante da Roland em feiras, clínicas e eventos, consolidando uma presença ligada tanto à performance quanto ao ensino. Um dos episódios destacados em sua carreira foi ter sido chamado às pressas para substituir o baterista de uma banda de Huntington Beach, Califórnia, em apresentação em São Paulo; após apenas dois ensaios, tocou no Carioca Club para cerca de duas mil pessoas e acabou efetivado.

    Patrick Sant’Anna é músico, compositor e educador musical radicado em São Paulo. Reconhecido por sua atuação na banda Sondbroder e em projetos do cenário paulistano, Patrick transita por influências do pop, rock e blues, com presença em festivais e na noite da capital. Seu estilo combina técnica, elegância e timbres marcantes, e sua atuação como professor na Academia do Rock, em São Paulo, reforça sua relação com a formação de novos músicos.

    Somadas, essas trajetórias ajudam a explicar a proposta da Rock Inc.: uma banda recém-formada, mas sustentada por músicos que já carregam palco, repertório, técnica, rede e experiência. O projeto nasce com a energia de uma estreia, mas com a bagagem de quem conhece o caminho entre ensaio, estrada, público e performance ao vivo.

    O palco como lugar de impacto

    A experiência ao vivo é o centro da proposta. A Rock Inc. define seus shows como uma descarga de energia, atitude e emoção — uma jornada sonora que alterna peso, nostalgia, explosão e conexão.

    A cada música, a banda busca conduzir o público por uma experiência imersiva. Os refrões conhecidos aparecem como convite ao coro; os riffs funcionam como ponto de encontro entre memória e intensidade; e a performance transforma clássicos do rock e do nu metal em momentos de participação coletiva.

    Agenda aberta para shows públicos

    Até o momento, a Rock Inc. vinha se apresentando em eventos privados em São Paulo. Com o lançamento oficial de seu perfil no Instagram, a banda abriu a agenda para bares e eventos públicos a partir de junho de 2026.

    Para acompanhar novidades, agenda e conteúdos da banda, o principal canal é o Instagram: @bandarockinc

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  • De Jundiaí a Berlim: Teko Porã leva o cotidiano Guarani ao cinema internacional

    De Jundiaí a Berlim: Teko Porã leva o cotidiano Guarani ao cinema internacional

    Premiado no Berlin Women Cinema Festival, o documentário foi tema de conversa no Francamente com a diretora Luciana Alves e o diretor de fotografia Claudio Alves.

    O documentário “Teko Porã: Retrato Atual da Vida Cotidiana na Aldeia Guarani Rio Silveira” ganhou reconhecimento internacional ao ser premiado na 15ª edição do Berlin Women Cinema Festival, realizado em Berlim.

    Gravado na Aldeia Rio Silveira, localizada entre Bertioga e São Sebastião, no litoral norte paulista, o longa apresenta um retrato atual do cotidiano Guarani Mbya. Com direção da jornalista Luciana Alves, codireção do Cacique Adolfo Timoteo e fotografia de Claudio Alves, a produção aproxima o público de diferentes gerações, saberes, tradições e transformações vividas dentro da aldeia.

    Antes da premiação internacional, Luciana e Claudio participaram de uma conversa no Francamente, com Tainan Franco. Na entrevista os dois falaram sobre o processo de criação do documentário, a construção de confiança com a comunidade, os desafios de filmar sem impor um olhar externo e a importância das políticas públicas para que histórias como essa possam circular.

    Uma aldeia a menos de três horas de São Paulo

    Um dos pontos mais fortes da conversa é a surpresa provocada pela localização da aldeia. Durante as gravações, Luciana conta que muitas pessoas, ao verem as imagens nas redes sociais, perguntavam se a equipe estava no Xingu ou na Amazônia. A resposta causava estranhamento: a filmagem acontecia no litoral de São Paulo, a cerca de duas horas e meia da capital.

    Esse dado revela uma das camadas centrais de Teko Porã. A cultura Guarani Mbya está próxima geograficamente, mas permanece distante do imaginário de grande parte da população. A aldeia Rio Silveira faz parte de um território indígena que abriga cinco aldeias e se estende até áreas de Mata Atlântica próximas a regiões turísticas do litoral paulista.

    Filmar no ritmo da aldeia

    Ao longo de mais de um ano, a equipe realizou cerca de 20 diárias de gravação. O processo, segundo Luciana e Claudio, exigiu tempo, presença e respeito. A cada nova visita, a relação com a comunidade se aprofundava um pouco mais. Algumas portas se abriam; outras permaneciam fechadas. E isso também fazia parte do filme.

    Luciana conta que, desde o início, percebeu a importância de acompanhar o ritmo da aldeia. Havia dias em que a equipe chegava com expectativa de filmar mais, de aproveitar uma luz bonita ou de seguir determinada ideia de roteiro, mas a própria dinâmica da comunidade indicava outro caminho. Em alguns momentos, a gravação terminava antes do previsto. Em outros, a câmera precisava ficar desligada.

    Assim, o filme observa, acompanha e acolhe aquilo que a comunidade aceita mostrar. A diretora chegou a dizer, na entrevista, que desejava ter entrado mais no cotidiano das casas e das famílias, mas entendeu que o limite imposto pelos moradores precisava ser respeitado.

    O resultado é um documentário construído menos pela pressa da produção e mais pela maturação do vínculo.

    Entre dois mundos

    A conversa também passa por uma questão essencial: o modo como os Guarani Mbya retratados no filme vivem entre tradições preservadas e pressões do mundo contemporâneo.

    Na aldeia, há celular, escola, compras no mercado, venda de artesanato e contato constante com a sociedade não indígena. Ao mesmo tempo, seguem presentes a língua Guarani, a espiritualidade, os cantos, a casa de reza, o respeito às lideranças e uma relação com o território muito diferente daquela que predomina nas cidades.

    Luciana menciona uma imagem emblemática do documentário: um indígena com o cachimbo em uma mão e o celular na outra. A força dessa cena está justamente em romper com estereótipos. O uso da tecnologia não anula a identidade indígena. A presença do celular não apaga a tradição. O que aparece ali é a complexidade de uma cultura viva, atravessada pelo presente, sem deixar de carregar sua ancestralidade.

    Território, memória e sobrevivência

    Em outro momento da entrevista, Tainan, Luciana e Claudio falam sobre a pressão da especulação imobiliária no litoral norte paulista. A aldeia está situada em uma região de grande interesse econômico, próxima a áreas turísticas e condomínios de alto padrão. Para a comunidade, no entanto, aquele território não representa uma mercadoria. Representa continuidade.

    A terra, para os Guarani Mbya retratados no documentário, está ligada à vida cotidiana, à espiritualidade, à alimentação, à memória e à permanência coletiva. Preservar a mata é preservar um modo de vida.

    Por isso, o filme também dialoga com uma discussão mais ampla sobre meio ambiente, desenvolvimento e formas de habitar o mundo. Ao entrar em contato com a aldeia, a equipe se deparou com outra relação com o tempo, com o trabalho, com o alimento, com a coletividade e com o espaço comum.

    Claudio comenta, na entrevista, como a experiência alterou seu próprio olhar. A lógica da produtividade, tão presente na vida urbana, perde força diante de um cotidiano em que o dia pode seguir outro ritmo. Há planejamento, tarefas e responsabilidades, mas há também uma disponibilidade diferente para o tempo, para a convivência e para aquilo que acontece.

    A imagem como aproximação

    A fotografia é um dos elementos centrais do documentário. Claudio Alves explica que a intenção não era apenas registrar belas imagens da aldeia, da mata e do litoral, mas fazer com que o público pudesse sentir a atmosfera daquele lugar.

    As imagens de drone revelam a dimensão do território. Os detalhes da luz, das folhas, dos animais, das crianças e dos olhares durante as entrevistas ajudam a construir uma experiência mais sensível. O filme também valoriza os sons da aldeia: a floresta, os cantos, os ruídos do cotidiano e até os sinais da presença do mundo externo, como o carro do gás e o vendedor de sorvete.

    A trilha sonora segue esse princípio. As músicas foram gravadas na própria aldeia, executadas pelos indígenas. A escolha reforça o compromisso de dar protagonismo à comunidade retratada.

    Luciana afirma que decidiu não conduzir o filme com uma locução explicativa. Preferiu ampliar a voz dos próprios indígenas, permitindo que o espectador se aproximasse da aldeia a partir das falas, dos gestos, dos silêncios e das cenas do cotidiano.

    Política pública também conta histórias

    Teko Porã foi realizado com apoio do Programa de Ação Cultural (ProAC), da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativa do Estado de São Paulo, com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) e do Sistema Nacional de Cultura do Ministério da Cultura.

    Projetos como esse movimentam profissionais do audiovisual, da produção, da fotografia, do som, da montagem, da comunicação e da assessoria. Também geram renda para a própria comunidade envolvida, já que indígenas participaram do processo como intérpretes, produtores e coordenadores locais.

    Mas a dimensão econômica é apenas uma parte da história. O filme mostra como o investimento em cultura pode criar pontes entre mundos que, apesar de próximos, seguem separados por desconhecimento, preconceito e invisibilidade.

    Da aldeia à tela

    Antes do lançamento oficial em Jundiaí, realizado em 29 de abril na Sala de Cinema São Paulo–Minas, no Espaço Expressa, o documentário teve uma apresentação especial na própria aldeia Rio Silveira, em 17 de abril, durante a Semana dos Povos Indígenas.

    Esse primeiro encontro da comunidade com sua imagem na tela carrega um significado particular. O filme retorna ao território antes de circular para outros públicos. Depois, chega a Jundiaí. Agora, com a premiação em Berlim, amplia seu alcance internacional.

    Ao levar a aldeia Rio Silveira para as telas, o documentário também nos devolve uma pergunta: quanto ainda desconhecemos sobre os povos, territórios e modos de vida que existem tão perto de nós?

    No Francamente, Luciana Alves e Claudio Alves ajudam a responder parte dessa pergunta. E o prêmio em Berlim confirma que essa história, nascida no encontro entre a Mata Atlântica, a cultura Guarani Mbya e o audiovisual brasileiro, tem força para atravessar fronteiras. Assista à entrevista:

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  • Festa Italiana de Jundiaí: padre Giuseppe relembra as origens da tradição

    Festa Italiana de Jundiaí: padre Giuseppe relembra as origens da tradição

    Em sua 38ª edição, a Festa Italiana de Jundiaí marca uma história que começou com fé, imigração, trabalho voluntário e o desejo de uma comunidade voltar a se reunir.

    Antes de ser uma das festas mais tradicionais de Jundiaí, a Festa Italiana foi uma ideia compartilhada à mesa da comunidade. Antes de reunir milhares de pessoas em torno da massa, da polenta, do vinho, da música e das receitas de família, ela nasceu da inquietação local de “movimentar novamente a Colônia”, fortalecer seus encontros e celebrar uma herança que já fazia parte da vida daquele território.

    No centro dessa história está o padre Giuseppe Bortolato, um dos nomes ligados à origem da festa. Italiano de nascimento, brasileiro por trajetória e jundiaiense por afeto, padre Giuseppe esteve em 2024 no Programa Francamente, com Tainan Franco, em entrevista gravada no contexto da divulgação da festa daquele ano. A conversa acabou se tornando também um registro precioso da memória da Festa Italiana de Jundiaí, da vida comunitária da Colônia e de sua própria história — e aproveitamos para deixar aqui o convite para ele voltar ao Francamente este ano!

    Padre Giuseppe em entrevista ao Francamente, com Tainan Franco – 2024.

    Nascido nas redondezas de Veneza, no período de fim da Segunda Guerra Mundial, Giuseppe entrou no seminário ainda criança, aos 12 anos. Na conversa, contou que sua vocação nasceu em um tempo no qual a igreja ocupava lugar central na vida das pequenas comunidades. Era espaço de fé, mas também de convivência, juventude, música, esporte, festas e formação humana.

    Ordenado padre em 1971, veio ao Brasil como missionário de uma congregação dedicada aos migrantes. E sua primeira destinação foi justamente Jundiaí, no Bairro da Colônia — território marcado pela presença italiana e pela memória das famílias que ajudaram a construir a cidade.

    Ao longo da vida, padre Giuseppe passou também por Santo André, Rio de Janeiro, São Paulo e São Bernardo do Campo. Trabalhou com comunidades paroquiais, migrantes, pessoas em situação de vulnerabilidade e até com a pastoral carcerária. Em todos esses lugares, sua atuação parece ter seguido a mesma intuição: a de que a missão religiosa também se realiza no acolhimento, na escuta e na reconstrução dos laços comunitários.

    Foi ao retornar a Jundiaí, na segunda metade dos anos 1980, que essa história se encontrou com a origem da Festa Italiana. Na entrevista, padre Giuseppe lembra que 1987 foi “o ano da virada”. Ao voltar para a mesma igreja e para o mesmo seminário da Colônia, encontrou “pessoas fantásticas” que traziam a “ideia de fazer uma festa inspirada nas tradicionais festas italianas de São Paulo” (como as de San Gennaro e Nossa Senhora Achiropita). Segundo ele conta, a ideia “casou”. Dentre estas pessoas está Alfredo Paoletti – empresário filho de italianos.

    Foi em 1988, ano em que se comemorou o centenário da imigração italiana em Jundiaí, que a primeira edição ocorreu. A festa nasceu no bairro, ao redor da Paróquia Sagrado Coração de Jesus, com participação direta de lideranças locais, famílias, voluntários e da própria comunidade. No começo, tudo era mais simples. A festa acontecia nas ruas próximas à igreja, no salão paroquial e nos espaços disponíveis da comunidade. Mas o que poderia ter sido apenas uma pequena confraternização local rapidamente ganhou outra dimensão. Como contou padre Giuseppe a Tainan, a Colônia estava sem as antigas quermesses, a comunidade parecia um pouco parada, e havia uma grande vontade de “fazer alguma coisa”. A resposta veio maior do que o esperado: e a cidade toda abraçou a festa.

    Com o passar dos anos, a Festa Italiana cresceu, ganhou estrutura, público, patrocinadores, visibilidade regional e lugar no calendário cultural de Jundiaí. Mas sua força continuou ligada ao mesmo ponto de origem: o Bairro Colônia. Não por acaso, padre Giuseppe sempre defendeu que a festa permanecesse ali, onde nasceu. Para ele, sua identidade estava no vínculo com o território, com a paróquia, com as famílias e com a memória comunitária.

    Fotos de voluntários da Festa Italiana (créditos: Tamires Neves)

    É justamente por isso que a Festa Italiana atravessa gerações. Ela não é apenas uma celebração da gastronomia italiana, embora a comida seja parte essencial da experiência. É também uma festa de pertencimento. Uma festa feita por voluntários, por famílias, por jovens, adultos, casais, descendentes de italianos e pessoas que, mesmo sem origem italiana, reconhecem na Colônia um pedaço afetivo de Jundiaí.

    Na entrevista, padre Giuseppe resume essa ideia ao dizer que o verdadeiro lucro da festa é a comunidade que se une, cresce, participa e vive feliz aquele momento. A arrecadação ajuda nas necessidades da igreja e em ações comunitárias, mas o sentido mais profundo da festa está na mobilização das pessoas.

    Em 2026, a Festa Italiana de Jundiaí chega à sua 38ª edição.

    A abertura acontece no dia 16 de maio, com jantar no salão da Paróquia Sagrado Coração de Jesus (cujos ingressos, como todos os anos, se esgotaram rapidamente). Já a festa na Praça José Orlandi, com entrada gratuita, será realizada nos dias 23, 24, 30 e 31 de maio, e 6, 7, 13 e 14 de junho, aos sábados, das 18h às 22h, e aos domingos, das 11h às 16h.

    O público encontrará pratos tradicionais como macarrão, nhoque, risoto, lasanha, frango, polenta, focaccia, crustuli, doces e bebidas, além de apresentações musicais e o ambiente familiar que se tornou marca da festa ao longo das décadas. Na conversa com Tainan (realizada em 2024), que você pode conferir na íntegra no link abaixo, padre Giuseppe disse que a Colônia ainda conserva um “cheiro de colônia”, uma marca feita de família, espiritualidade, trabalho e valores comunitários.

    A festa nasceu na Colônia, mas há muito tempo pertence a todas as pessoas de Jundiaí.

  • Campola Rock City: do Orkut ao festival, a força do underground regional

    Campola Rock City: do Orkut ao festival, a força do underground regional

    Projeto independente de divulgação da cena rock nasceu em Campo Limpo Paulista e hoje reúne comunidade, playlist, podcast, canal no YouTube e festival próprio.

    Antes de virar perfil no Instagram, canal no YouTube, podcast, playlist e festival, o Campola Rock City nasceu como ponto de encontro virtual para quem fazia, acompanhava e divulgava a cena rock independente da região. Criado inicialmente como comunidade no Orkut, o projeto atravessou plataformas, acompanhou mudanças na forma de divulgar eventos e se consolidou como uma iniciativa de memória, circulação e fortalecimento do underground regional.

    No texto a seguir, Felipe Gonçalves, responsável pelo Campola Rock City, relembra a origem do projeto, sua ligação com Campo Limpo Paulista e os novos caminhos de uma iniciativa que segue conectando bandas, público e espaços culturais.

    A importância do Campola Rock City e o movimento que ele faz

    Por Felipe Gonçalves

    O Campola Rock City, enquanto mídia independente que se movimenta — e se relaciona vividamente com o underground, principalmente da região metropolitana de Jundiaí — surgiu como uma comunidade do Orkut, em meados de 2010. Naquele momento, havia a necessidade de troca de ideias e, principalmente, de divulgação por meio de flyers, já que os eventos de rock’n’roll de menor porte, especialmente em Campo Limpo Paulista, não tinham qualquer cobertura da imprensa da região.

    O apelido que a própria cidade ganhou na época, entre os entusiastas da cena, veio justamente da canção “Detroit Rock City”, do KISS, enaltecendo a movimentação musical que sempre ocorreu por essas bandas.

    Com a chegada e popularização do Facebook no Brasil — e, por consequência, a posterior extinção do Orkut pela Google —, a comunidade migrou para um grupo dentro da plataforma, existente até os dias de hoje, com mais de 600 membros.

    Com a retomada dos eventos no período pós-pandemia, surgiu novamente a necessidade de abraçar essa comunidade também no ambiente online. Assim, no dia 1º de abril de 2024, o Campola Rock City passou a ser multiplataforma, promovendo informações também em seu perfil no Instagram, movimentado por mim até os dias de hoje.

    Logo vieram outros projetos sustentando a mesma alcunha, como um canal no YouTube e um podcast, com episódios financiados por edital da PNAB. Também surgiu a playlist no Spotify, que hoje reúne 120 bandas independentes, tanto da região quanto da Grande São Paulo.

    Em 2025, por meio de patrocínio e parceria com a Cervejaria Ahtrio e o Hotel Fazenda Morada do Verde, o Campola Rock City ganhou também a primeira edição de seu festival, com entrada franca.

    Para acompanhar todas as movimentações desse projeto de divulgação coletiva, basta acessar o Linktree do Campola Rock City e conhecer os espaços onde essa iniciativa fez – e segue fazendo – diferença.

  • O efeito Shakira: como a cultura movimenta a economia

    O efeito Shakira: como a cultura movimenta a economia

    O show da Shakira no Rio reacende uma discussão importante: cultura não é apenas entretenimento. Quando bem planejada, ela movimenta trabalho, turismo, serviços, renda e imagem pública.

    Quando milhões de pessoas se reúnem para assistir a um show, o que está em cena não é apenas a artista no palco. Há uma cidade inteira em movimento: hotéis, bares, restaurantes, motoristas, técnicos, produtores, vendedores, equipes de segurança, comunicação, audiovisual, limpeza urbana, turismo, comércio e serviços.

    Foi isso que o Rio de Janeiro viu no show gratuito da Shakira em Copacabana, realizado em 2 de maio de 2026, dentro do projeto Todo Mundo no Rio. Segundo dados divulgados pela Prefeitura do Rio e pela Riotur, o evento reuniu cerca de 2 milhões de pessoas e teve impacto econômico estimado em aproximadamente R$ 800 milhões para a cidade. O estudo oficial “Potenciais Impactos Econômicos do ‘Todo Mundo no Rio’ 2026 – Shakira” calcula uma movimentação de R$ 776,2 milhões, considerando os gastos do público com hospedagem, alimentação, transporte, comércio e serviços.

    O número chama atenção porque desloca a discussão sobre cultura para outro patamar. Muitas vezes, eventos culturais são vistos apenas como despesa. Mas, quando observados com indicadores claros, eles revelam outra dimensão: cultura também é investimento público, atividade econômica, geração de trabalho e fortalecimento da imagem de uma cidade.

    No caso do show da Shakira, foi divulgado um investimento público de R$ 20 milhões por parte da Prefeitura do Rio. Ainda assim, a comparação entre investimento e retorno econômico projetado é expressiva: diante de uma estimativa de quase R$ 800 milhões movimentados, o evento ajuda a mostrar como a cultura pode ativar uma cadeia econômica muito maior do que o palco em si.

    Essa cadeia inclui desde grandes setores, como turismo e hotelaria, até pequenos empreendedores que sentem diretamente o aumento da circulação de pessoas: ambulantes, comerciantes locais, bares, restaurantes, prestadores de serviço, motoristas de aplicativo, equipes técnicas, profissionais de montagem, produtores, comunicadores e trabalhadores temporários.

    Isso não significa que todo gasto cultural seja automaticamente positivo, nem que qualquer evento se justifique por si só. Investimento público exige planejamento, responsabilidade, avaliação de impacto e transparência. Mas a discussão precisa partir de uma compreensão correta: cultura não é apenas custo. Cultura também é infraestrutura econômica, simbólica e social.

    Esse raciocínio vale para os megashows, mas também para festivais, feiras, mostras audiovisuais, eventos regionais, programas de formação, circulação de artistas, editais culturais e políticas públicas de fomento. Em cada caso, há uma rede de profissionais, serviços e saberes envolvidos.

    É justamente esse campo que chamamos de economia criativa: o conjunto de atividades em que criação, conhecimento, identidade, tecnologia, comunicação e produção cultural se transformam em valor econômico e social.

    No Brasil, os números confirmam essa relevância. Dados do IBGE apresentados pelo Ministério da Cultura apontam que a cultura emprega cerca de 5,9 milhões de pessoas e gera R$ 387,9 bilhões em valor adicionado à economia, o equivalente a algo próximo de 3% do PIB. Outro levantamento, o Mapeamento da Indústria Criativa 2025, da Firjan, estima que a indústria criativa brasileira representa 3,59% do PIB nacional, totalizando R$ 393,3 bilhões em 2023.

    No mundo, a tendência é semelhante. A UNESCO estima que os setores culturais e criativos respondem por 3,1% do PIB global e por 6,2% de todos os empregos. Ou seja: cultura e criatividade não são temas periféricos na economia contemporânea. Elas estão no centro de novas formas de desenvolvimento, inovação, trabalho e circulação de valor.

    Esses dados ajudam a corrigir uma percepção ainda comum: a de que cultura pertence apenas ao campo do lazer, da decoração ou do “extra”. Na prática, a cultura organiza territórios, atrai visitantes, cria empregos, movimenta serviços, fortalece identidades locais e amplia a projeção de cidades e regiões.

    Para uma produtora cultural, pensar economia criativa é pensar o ciclo completo: da ideia ao projeto, da captação à execução, da formação de público à prestação de contas, da experiência do evento ao legado que ele deixa. É entender que um espetáculo, uma feira, um festival, um documentário, uma ação formativa ou uma política pública de cultura podem produzir impacto muito além do momento em que acontecem.

    Na MOV8, acreditamos que a cultura é uma força concreta de transformação. E, quando tratada com profissionalismo, responsabilidade e visão estratégica, ela mostra aquilo que os números já começam a deixar evidente: investir em cultura é investir em pessoas, territórios e possibilidades.