Em um momento em que Gaza volta ao centro do debate internacional, a entrevista de Breno Altman ao Francamente ajuda a retomar distinções essenciais entre judaísmo, sionismo, Estado de Israel e antissemitismo — conceitos muitas vezes misturados em uma disputa política que também passa pela linguagem.
Em meio à crise permanente em Gaza e à disputa global sobre Palestina e Israel, uma das primeiras batalhas acontece antes mesmo dos fatos: acontece nas palavras. Judaísmo, sionismo, Estado de Israel, antissemitismo, ocupação, apartheid e genocídio são termos que circulam com força, mas nem sempre com precisão. Em muitos momentos, eles aparecem misturados de propósito, como se nomear uma coisa fosse automaticamente atacar outra.
É justamente esse o ponto de partida da entrevista de Breno Altman ao Francamente, conduzida por Tainan Franco (publicada em 16 de julho de 2024). Jornalista, fundador do Opera Mundi e autor do livro Contra o Sionismo: retrato de uma doutrina colonial e racista, Altman parte de sua própria origem judaica para discutir uma distinção que considera fundamental: criticar o sionismo não é o mesmo que atacar o judaísmo; criticar o Estado de Israel não é o mesmo que odiar judeus.
“Sionismo não é identidade judaica. Sionismo é uma corrente ideológica.” – Breno Altman
A frase organiza a conversa inteira. Para Altman, há uma operação política em curso quando sionismo e judaísmo são tratados como sinônimos. Essa confusão permite transformar críticas ao Estado de Israel ou à ocupação dos territórios palestinos em suspeita automática de antissemitismo. O antissemitismo existe, tem uma história brutal e precisa ser combatido sem relativização. Mas, justamente por isso, não pode ser usado como escudo para impedir todo debate sobre colonialismo, ocupação, supremacia étnica e violência de Estado.
Judaísmo não cabe em uma única definição
Um dos trechos mais didáticos da entrevista aparece quando Breno explica que a palavra “judeu” costuma carregar sentidos diferentes ao mesmo tempo. Pode se referir a uma religião, a uma tradição cultural, a uma origem étnica ou a uma nacionalidade histórica. Essa sobreposição produz confusões que não acontecem da mesma forma em outros casos. Uma pessoa pode ser árabe, libanesa e muçulmana — três palavras distintas para etnia, nacionalidade e religião. No caso judaico, a mesma palavra muitas vezes atravessa essas três dimensões.
Breno se apresenta como judeu secular: judeu por origem étnica e familiar, não por prática religiosa. Esse ponto é importante porque rompe com uma leitura simplificada do tema. O judaísmo não é uma identidade homogênea, nem uma adesão automática ao Estado de Israel. Há judeus religiosos e seculares, conservadores e progressistas, sionistas e antissionistas, liberais, socialistas, comunistas, ortodoxos, reformistas, e muitas outras experiências históricas.
Na entrevista, Breno insiste justamente nessa pluralidade. Sua crítica ao sionismo parte de uma tradição judaica antissionista, ligada às lutas revolucionárias do século XX. Ele lembra, inclusive, a força que judeus tiveram em movimentos socialistas e comunistas, tanto na Europa quanto nas Américas. Essa memória é importante porque contraria a ideia de que todo judeu teria, por definição, um vínculo político natural com o sionismo.
O sionismo como projeto político moderno
A entrevista também procura localizar historicamente o surgimento do sionismo. Na leitura de Breno, o conflito moderno entre Palestina e Israel não começa em 7 de outubro de 2023, nem apenas em 1948. Sua origem está no final do século XIX e início do século XX, quando o sionismo se organiza como movimento político moderno em torno da ideia de criação de um Estado judaico.
O projeto sionista teria dois pilares centrais. O primeiro seria a construção de um Estado definido por uma identidade étnica. O segundo seria a escolha da Palestina como território para esse Estado. É nesse encontro que, segundo ele, o conflito se torna inevitável: a Palestina não era uma terra vazia. Era um território habitado majoritariamente por árabes palestinos, com uma presença judaica minoritária.
A criação de Israel não aparece, na análise de Breno Altman, apenas como resultado da perseguição histórica aos judeus ou da comoção produzida pelo Holocausto. Aparece também como parte de uma disputa geopolítica pelo Oriente Médio.
Breno lembra que, antes dos Estados Unidos assumirem plenamente a condição de potência hegemônica no pós-guerra, o Império Britânico tinha interesses decisivos na região. O Oriente Médio funcionava como uma espécie de dobradiça entre Ocidente, África e Ásia. Além disso, o petróleo já era um elemento estratégico. Nesse cenário, apoiar o projeto sionista na Palestina significava, para os britânicos, construir uma ponte em uma região fundamental para seus interesses coloniais.
Na entrevista, Breno sustenta que Israel passaria depois a cumprir função semelhante para os Estados Unidos: um aliado militarizado, estratégico, sustentado política, econômica e militarmente em uma das regiões mais sensíveis do planeta.
É nesse ponto que a questão palestina deixa de ser apenas um conflito local. Ela se torna parte de uma arquitetura mundial de poder – Israel opera como peça de um sistema mais amplo, vinculado aos interesses norte-americanos, ao complexo bélico-industrial e à manutenção da influência ocidental no Oriente Médio.
A memória do Holocausto e seus usos políticos
Um dos trechos mais delicados da entrevista trata do Holocausto. Breno reconhece sua importância decisiva para a criação do Estado de Israel, ao produzir uma comoção mundial em torno da perseguição e do extermínio dos judeus na Europa. Mas sua crítica se dirige ao modo como a memória desse crime passou a ser mobilizada politicamente pelo Estado israelense e por seus aliados.
Aqui é preciso cuidado. O Holocausto foi uma das maiores atrocidades da história humana e não pode ser relativizado. Ao mesmo tempo, a memória de uma tragédia não pode servir para bloquear toda crítica a um Estado, a um governo ou a uma política de ocupação. Breno retoma autores como Norman Finkelstein para sustentar que a memória do Holocausto foi, em muitos momentos, transformada em instrumento de legitimação política de Israel.
A força dessa discussão está em separar duas coisas: combater o antissemitismo é indispensável; mas usar a acusação de antissemitismo para silenciar críticas ao sionismo é falacioso. A primeira protege pessoas e comunidades contra uma forma histórica de ódio. A segunda pode impedir que palestinos sejam reconhecidos como sujeitos de direitos.
Neopentecostalismo, extrema direita e a bandeira de Israel
A entrevista também toca em um ponto central para o Brasil: o apoio a Israel não vem apenas de comunidades judaicas ou de setores ligados à política externa. Em muitos contextos, especialmente nas últimas décadas, ele foi incorporado por segmentos evangélicos e neopentecostais, em diálogo com leituras religiosas vindas dos Estados Unidos.
Breno relaciona esse fenômeno à chamada teologia do domínio e à reaproximação de setores cristãos com imagens do Antigo Testamento, especialmente a figura do Rei Davi e a ideia de uma guerra espiritual contra inimigos do Ocidente. Nesse imaginário, Israel aparece menos como um Estado concreto (com governo, exército, fronteiras e interesses) e mais como símbolo religioso e civilizacional.
Isso ajuda a entender por que a bandeira de Israel se tornou, em muitos países, um emblema da extrema direita. No Brasil, ela apareceu com frequência em manifestações bolsonaristas, muitas vezes ao lado de discursos religiosos, anticomunistas e nacionalistas. O paradoxo é evidente: um símbolo estrangeiro passa a ser usado como marca de identidade política interna.
A consequência é que o debate sobre Palestina e Israel fica ainda mais confuso. Para parte do público, criticar Israel parece equivaler a atacar uma promessa bíblica, e não a discutir um Estado moderno envolvido em ocupação, guerras e violações de direitos humanos.
Gaza e o presente da catástrofe
A entrevista foi gravada em um momento em que Gaza já acumulava números devastadores. Desde então, a situação continuou a ser acompanhada por organismos internacionais, tribunais e entidades humanitárias. O Tribunal Penal Internacional emitiu, em novembro de 2024, mandados de prisão contra Benjamin Netanyahu e Yoav Gallant por crimes de guerra e crimes contra a humanidade, no contexto da ofensiva em Gaza.
Mesmo após o cessar-fogo de outubro de 2025, a situação humanitária permaneceu frágil. Em julho de 2026, a classificação internacional IPC projetava que mais de 1,4 milhão de pessoas em Gaza enfrentariam níveis altos de insegurança alimentar aguda entre julho e dezembro de 2026.
Esse contexto torna a entrevista ainda mais atual. Breno não fala apenas de um episódio, mas de uma estrutura: ocupação, dependência militar, disputa de narrativas, apagamento histórico e desumanização. Quando ele afirma que falta informação e há “desinformação proposital”, está apontando para uma das dimensões centrais do conflito contemporâneo: a luta para definir o que pode ser visto, dito e reconhecido.
Por que retomar essa entrevista agora
Retomar a entrevista de Breno Altman no Francamente não significa encerrar o debate sobre Palestina e Israel em uma única interpretação. O tema é complexo, atravessado por sofrimento real, disputas históricas profundas e posições divergentes. Mas a entrevista ajuda a fazer algo essencial: separar palavras que foram misturadas de propósito.
Judaísmo não é sinônimo de sionismo. Sionismo não é sinônimo de todo povo judeu. Estado de Israel não é sinônimo de judaísmo. Criticar ocupação, apartheid, colonialismo ou violência de Estado não é, por si só, antissemitismo. E combater o antissemitismo não pode significar silenciar a existência política do povo palestino.
Em uma crise em que a linguagem também se tornou território ocupado, voltar a essa conversa é uma forma de defender o direito de compreender.
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