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  • De Jundiaí a Berlim: Teko Porã leva o cotidiano Guarani ao cinema internacional

    De Jundiaí a Berlim: Teko Porã leva o cotidiano Guarani ao cinema internacional

    Premiado no Berlin Women Cinema Festival, o documentário foi tema de conversa no Francamente com a diretora Luciana Alves e o diretor de fotografia Claudio Alves.

    O documentário “Teko Porã: Retrato Atual da Vida Cotidiana na Aldeia Guarani Rio Silveira” ganhou reconhecimento internacional ao ser premiado na 15ª edição do Berlin Women Cinema Festival, realizado em Berlim.

    Gravado na Aldeia Rio Silveira, localizada entre Bertioga e São Sebastião, no litoral norte paulista, o longa apresenta um retrato atual do cotidiano Guarani Mbya. Com direção da jornalista Luciana Alves, codireção do Cacique Adolfo Timoteo e fotografia de Claudio Alves, a produção aproxima o público de diferentes gerações, saberes, tradições e transformações vividas dentro da aldeia.

    Antes da premiação internacional, Luciana e Claudio participaram de uma conversa no Francamente, com Tainan Franco. Na entrevista os dois falaram sobre o processo de criação do documentário, a construção de confiança com a comunidade, os desafios de filmar sem impor um olhar externo e a importância das políticas públicas para que histórias como essa possam circular.

    Uma aldeia a menos de três horas de São Paulo

    Um dos pontos mais fortes da conversa é a surpresa provocada pela localização da aldeia. Durante as gravações, Luciana conta que muitas pessoas, ao verem as imagens nas redes sociais, perguntavam se a equipe estava no Xingu ou na Amazônia. A resposta causava estranhamento: a filmagem acontecia no litoral de São Paulo, a cerca de duas horas e meia da capital.

    Esse dado revela uma das camadas centrais de Teko Porã. A cultura Guarani Mbya está próxima geograficamente, mas permanece distante do imaginário de grande parte da população. A aldeia Rio Silveira faz parte de um território indígena que abriga cinco aldeias e se estende até áreas de Mata Atlântica próximas a regiões turísticas do litoral paulista.

    Filmar no ritmo da aldeia

    Ao longo de mais de um ano, a equipe realizou cerca de 20 diárias de gravação. O processo, segundo Luciana e Claudio, exigiu tempo, presença e respeito. A cada nova visita, a relação com a comunidade se aprofundava um pouco mais. Algumas portas se abriam; outras permaneciam fechadas. E isso também fazia parte do filme.

    Luciana conta que, desde o início, percebeu a importância de acompanhar o ritmo da aldeia. Havia dias em que a equipe chegava com expectativa de filmar mais, de aproveitar uma luz bonita ou de seguir determinada ideia de roteiro, mas a própria dinâmica da comunidade indicava outro caminho. Em alguns momentos, a gravação terminava antes do previsto. Em outros, a câmera precisava ficar desligada.

    Assim, o filme observa, acompanha e acolhe aquilo que a comunidade aceita mostrar. A diretora chegou a dizer, na entrevista, que desejava ter entrado mais no cotidiano das casas e das famílias, mas entendeu que o limite imposto pelos moradores precisava ser respeitado.

    O resultado é um documentário construído menos pela pressa da produção e mais pela maturação do vínculo.

    Entre dois mundos

    A conversa também passa por uma questão essencial: o modo como os Guarani Mbya retratados no filme vivem entre tradições preservadas e pressões do mundo contemporâneo.

    Na aldeia, há celular, escola, compras no mercado, venda de artesanato e contato constante com a sociedade não indígena. Ao mesmo tempo, seguem presentes a língua Guarani, a espiritualidade, os cantos, a casa de reza, o respeito às lideranças e uma relação com o território muito diferente daquela que predomina nas cidades.

    Luciana menciona uma imagem emblemática do documentário: um indígena com o cachimbo em uma mão e o celular na outra. A força dessa cena está justamente em romper com estereótipos. O uso da tecnologia não anula a identidade indígena. A presença do celular não apaga a tradição. O que aparece ali é a complexidade de uma cultura viva, atravessada pelo presente, sem deixar de carregar sua ancestralidade.

    Território, memória e sobrevivência

    Em outro momento da entrevista, Tainan, Luciana e Claudio falam sobre a pressão da especulação imobiliária no litoral norte paulista. A aldeia está situada em uma região de grande interesse econômico, próxima a áreas turísticas e condomínios de alto padrão. Para a comunidade, no entanto, aquele território não representa uma mercadoria. Representa continuidade.

    A terra, para os Guarani Mbya retratados no documentário, está ligada à vida cotidiana, à espiritualidade, à alimentação, à memória e à permanência coletiva. Preservar a mata é preservar um modo de vida.

    Por isso, o filme também dialoga com uma discussão mais ampla sobre meio ambiente, desenvolvimento e formas de habitar o mundo. Ao entrar em contato com a aldeia, a equipe se deparou com outra relação com o tempo, com o trabalho, com o alimento, com a coletividade e com o espaço comum.

    Claudio comenta, na entrevista, como a experiência alterou seu próprio olhar. A lógica da produtividade, tão presente na vida urbana, perde força diante de um cotidiano em que o dia pode seguir outro ritmo. Há planejamento, tarefas e responsabilidades, mas há também uma disponibilidade diferente para o tempo, para a convivência e para aquilo que acontece.

    A imagem como aproximação

    A fotografia é um dos elementos centrais do documentário. Claudio Alves explica que a intenção não era apenas registrar belas imagens da aldeia, da mata e do litoral, mas fazer com que o público pudesse sentir a atmosfera daquele lugar.

    As imagens de drone revelam a dimensão do território. Os detalhes da luz, das folhas, dos animais, das crianças e dos olhares durante as entrevistas ajudam a construir uma experiência mais sensível. O filme também valoriza os sons da aldeia: a floresta, os cantos, os ruídos do cotidiano e até os sinais da presença do mundo externo, como o carro do gás e o vendedor de sorvete.

    A trilha sonora segue esse princípio. As músicas foram gravadas na própria aldeia, executadas pelos indígenas. A escolha reforça o compromisso de dar protagonismo à comunidade retratada.

    Luciana afirma que decidiu não conduzir o filme com uma locução explicativa. Preferiu ampliar a voz dos próprios indígenas, permitindo que o espectador se aproximasse da aldeia a partir das falas, dos gestos, dos silêncios e das cenas do cotidiano.

    Política pública também conta histórias

    Teko Porã foi realizado com apoio do Programa de Ação Cultural (ProAC), da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativa do Estado de São Paulo, com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) e do Sistema Nacional de Cultura do Ministério da Cultura.

    Projetos como esse movimentam profissionais do audiovisual, da produção, da fotografia, do som, da montagem, da comunicação e da assessoria. Também geram renda para a própria comunidade envolvida, já que indígenas participaram do processo como intérpretes, produtores e coordenadores locais.

    Mas a dimensão econômica é apenas uma parte da história. O filme mostra como o investimento em cultura pode criar pontes entre mundos que, apesar de próximos, seguem separados por desconhecimento, preconceito e invisibilidade.

    Da aldeia à tela

    Antes do lançamento oficial em Jundiaí, realizado em 29 de abril na Sala de Cinema São Paulo–Minas, no Espaço Expressa, o documentário teve uma apresentação especial na própria aldeia Rio Silveira, em 17 de abril, durante a Semana dos Povos Indígenas.

    Esse primeiro encontro da comunidade com sua imagem na tela carrega um significado particular. O filme retorna ao território antes de circular para outros públicos. Depois, chega a Jundiaí. Agora, com a premiação em Berlim, amplia seu alcance internacional.

    Ao levar a aldeia Rio Silveira para as telas, o documentário também nos devolve uma pergunta: quanto ainda desconhecemos sobre os povos, territórios e modos de vida que existem tão perto de nós?

    No Francamente, Luciana Alves e Claudio Alves ajudam a responder parte dessa pergunta. E o prêmio em Berlim confirma que essa história, nascida no encontro entre a Mata Atlântica, a cultura Guarani Mbya e o audiovisual brasileiro, tem força para atravessar fronteiras. Assista à entrevista:

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